Imagem de Grey's Anatomy

Créditos da imagem: Grey's Anatomy/ABC/Divulgação

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Grey's Anatomy | Despedida de Alex Karev decepciona e trai legado do personagem

Decisões sobre médico talvez sejam as mais chocantes da história da série - e isso diz muita coisa

Henrique Haddefinir
06.03.2020
19h40

Depois de 16 anos no ar, Grey's Anatomy se tornou uma série de despedidas. Como acontece com dramas de muita longevidade, em algum ponto os atores começam a se retirar para buscar outras coisas na carreira e renovações de elenco vão sendo providenciadas para o manter o produto vivo. Em Grey's Anatomy, essa dinâmica de partidas acabou se tornando um de seus carros-chefe, justamente porque Shonda Rhimes, a criadora, desenvolveu um gosto especial por grandes reviravoltas e viradas trágicas. A série, em pouco tempo, começou a ser conhecida pela forma impresível com a qual dizia adeus aos seus.

E a décima sexta temporada preparou mais uma despedida. Meredith (Ellen Pompeo), Bailey (Chandra Wilson), Richard (James Pickens Jr.) e Alex (Justin Chambers) eram os últimos quatro membros remanescentes do elenco original, até que Justin anunciou no início de janeiro que ele também diria adeus ao seriado. Durante esses 16 anos alguns personagens entraram e saíram, mas sempre esperou-se que as formas de se despedir dos originais fossem sempre um pouco mais especiais, afinal de contas, foram esses rostos que permaneceram como principal referência e foi por eles que o público sempre teve mais carinho.

A partida de Karev também tinha fatores dramáticos bastante relevantes, já que o personagem vinha de uma trama bem específica, que envolvia sua entrada num hospital de baixa-renda, que oferecia à série uma perspectiva nova e interessante, considerando o mundo quase fantástico de privilégios em que vivem os médicos do Grey Sloan. Além disso, Karev estava num relacionamento finalmente estável com Jo (Camila Luddington) e se tornou o melhor amigo de Meredith de forma bonita e gradual, a partir do ponto em que Christina (Sandra Oh) também seguiu outro caminho. O personagem parecia estabelecido, o que transformava a ideia de sua partida um pouco problemática.

Better Be Dead

Com tanto tempo em mãos, os personagens originais de Grey's Anatomy puderam ser desenvolvidos em detalhes. Alex, que começou como o vilão entre os internos, foi sendo desvendado muito lentamente, passando de alguém que todos odiavam a uma pessoa que demonstrava ter sentimentos retraídos por uma história de vida opressora. Ele conseguiu começar a se importar com os pacientes, se apaixonou, conseguiu confiar e, mesmo que tivesse tido alguns percalços, desenvolveu a capacidade de se redimir. O mais importante: Alex aprendeu a se comprometer, enfrentar consequências e deixar o passado para trás. E foi por isso que o destino que deram a ele foi tão indigesto.

Izzie (Katherine Heigl) deixou a série na sexta temporada, dez anos atrás, o que representa mais da metade da vida útil de Karev no ar. Isso que dizer que apesar de Izzie ter sido uma presença forte na vida dele, ele viveu muito depois disso e grande parte de seu amadurecimento como pessoa só foi possível com a partida dela. Krista Vernoff, showrunner responsável pelo andamento da série, resolveu que toda a construção da personalidade de Alex precisava ser anulada pela estapafúrdia ideia de que ele poderia reencontrar Izzie, abandonando Jo, sua esposa, depois de várias temporadas buscando – e encontrando – o equilíbrio da relação.

Se a ideia de ver Alex abandonando Jo e deixando só uma carta de despedida já parecia ruim, o devaneio de Krista piorou consideravelmente quando uma rocambolesca paternidade dos filhos de Izzie foi colocada sobre Karev. A cafonice do texto entrou em comunhão com a cafonice da sequência, em que duas crianças aleatórias correm por uma fazenda texana no melhor estilo “comercial de plano de saúde”. De súbito, o personagem não só abandonou a mulher como já tinha dois filhos com outra, sem que a história da fertilização in vitro tivesse sequer sido mencionada em nenhuma outra circunstância. Em choque, o público acompanhou a falta de coerência e a imbecilidaede do roteiro transcorrerem pelo episódio como se aquela fosse uma realidade alternativa.

E não era só uma questão de escolher um destino. O episódio como um todo talvez seja o pior que a série já produziu em 16 temporadas. O texto das cartas era piegas e não refletia a personalidade de Alex. Para um episódio em que Justin Chambers diria adeus, não havia uma só cena atual com o próprio ator. Todo o episódio foi editado com flashbacks mal posicionados, que, mesmo sem costura, ficavam tentando provocar algum tipo de emoção. O resultado dessa cafonice foi um capítulo deselegante e amador, que não soube como administrar um ator ausente (Justin já não aparecia há algumas semanas) e uma trama que precisava de um fechamento justo.

Olhando em retrospectiva, talvez tivesse sido melhor dar ao personagem uma das saídas trágicas e traumáticas que fizeram a série famosa. Uma morte horrível teria honrado Alex Karev com algum senso de eternidade lúdica. A decisão tomada pelos envolvidos, enfim, humilhou o personagem. O estrago de um episódio tão hediondo quanto esse talvez seja sentido em Grey's Anatomy até seu fim iminente. E quando esse fim chegar, Karev e Izzie serão os únicos que o público não vai fazer a menor questão de rever. Foi simplesmente lamentável ver uma trajetória tão bonita de autoconhecimento e redenção ser resumida a um final novelesco e burro, que só mostrou que nem sempre um criador é digno do que tirou do papel.