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Ainda precisamos levar o Globo de Ouro a sério?

Com histórico de indicações polêmicas e pouco reconhecimento dos próprios indicados, premiação da Hollywood Foreign Press já não possui o mesmo prestígio de décadas atrás

Nicolaos Garófalo
25.02.2021
22h12
Atualizada em
26.02.2021
16h57
Atualizada em 26.02.2021 às 16h57

Organizado pela Hollywood Foreign Press Association, o Globo de Ouro já foi considerado uma das premiações mais importantes de Hollywood, servindo como uma espécie de “termômetro” para o Oscar e para o Emmy. Desde 1944, o prêmio celebra os principais trabalhos do cinema no ano anterior, com produções televisivas sendo incluídas em 1962. E, apesar de existir há 77 anos, a cerimônia vem aos poucos perdendo credibilidade na indústria por causa de algumas indicações duvidosas, acompanhadas de acusações de suborno e assédio.

Para entender essa derrocada do Globo de Ouro, é preciso saber que, diferentemente de outras instituições, a HFPA tem critérios relativamente fáceis de serem atendidos por aqueles que desejam se tornar membros da associação. Diferentemente das Academias de Cinema e Televisão, formadas por produtores, diretores, atores, roteiristas e outros profissionais que formam a grande base de Hollywood, a HFPA consiste apenas de jornalistas que vivam em Los Angeles e que escrevam com alguma frequência para um veículo de fora dos Estados Unidos. Essa frequência, no entanto, não precisa ser alta. Em uma matéria publicada pela Vulture em 2015, foi revelado que apenas 25 dos 90 membros da associação publicam mais de cinco artigos por ano. Alguns, aliás, publicam de forma tão esporádica que seus textos nem ao menos podem ser encontrados na internet.

A relação menos profissional dos membros da HFPA com a indústria se torna evidente quando eles são colocados frente a frente com os astros que deveriam avaliar. É comum ver esses jornalistas priorizarem o compartilhamento de selfies em suas redes sociais ao invés da criação de um conteúdo com alguma profundidade. Ex-presidente da associação, Philip Berk chegou a dizer que a maneira como estúdios e estrelas tratam a HFPA interferem diretamente na possibilidade de indicações ao Globo de Ouro. Em sua autobiografia, o crítico sul-africano lembrou um caso de 1991, quando Nicole Kidman foi indicada por seu trabalho em Billy Bathgate - O Mundo a Seus Pés, enquanto o protagonista do longa, Dustin Hoffman, foi esnobado. Segundo Berk, o tratamento diferente aconteceu por um motivo simples: Kidman, e não Hoffman, foi quem aceitou ser entrevistada pela HFPA.

Aproveitando-se desse aparentemente fácil deslumbramento, estúdios passaram a lidar de maneira relativamente generosa com os votantes do Globo de Ouro. A primeira acusação de corrupção no prêmio veio em 1958, quando o então presidente da associação Henry Gris afirmou que alguns troféus estavam sendo entregues como “favores” aos estúdios. Nos anos 1960 e 1970, a NBC, que tradicionalmente transmite a premiação, ficou seis anos sem mostrar a cerimônia após um relatório do departamento de comunicações dos EUA acusar a HFPA de fazer lobby para que atores e cineastas prestigiassem a cerimônia, ameaçando entregar prêmios para outros indicados caso os vencedores escolhidos não comparecessem.

Essa pressão sobre os estúdios se reflete muitas vezes em algumas indicações bizarras. Em 2015, por exemplo, Perdido em Marte, drama espacial de Ridley Scott, recebeu elogios de crítica e público, mas, para não competir com os favoritos a Melhor Filme de Drama daquele ano (O Regresso, Mad Max: Estrada da Fúria, O Quarto de Jack e Spotlight), foi indicado – e premiado – como Melhor Filme de Comédia/Musical. Cinco anos antes, a mesma categoria foi alvo de acusações de suborno, quando foi revelado que a Sony levou diversos membros da HFPA para um show de Cher em Las Vegas em troca de indicações para O Turista, estrelado por Johnny Depp e Angelina Jolie.

Sabendo do impacto que essas polêmicas poderiam ter na relação com o público – e a indústria no geral -, a HFPA passou a se apoiar na ancoragem de apresentadores carismáticos como Seth Meyers, Tina Fey, Amy Poehler, Sandra Oh e Andy Samberg, que, entre uma cutucada e outra, puxavam para eles mesmos as atenções das manchetes, blindando a instituição. Ricky Gervais, no entanto, nunca deixou os erros da associação passarem batidos. Cinco vezes apresentador do Globo de Ouro, o criador da versão original de The Office zombou como pôde dos donos da premiação e chegou a afirmar que os responsáveis pela cerimônia “aceitam subornos” e só indicaram Perdido em Marte para “tietar Matt Damon”.

Em 2021, as indicações ao prêmio voltaram a ser questionadas após a divisiva Emily em Paris, da Netflix, ser indicada a Melhor Série de Comédia ou Musical, enquanto a aclamada I May Destroy You e sua criadora Michaela Coel foram completamente esnobadas em todas as categorias televisivas. A surpresa – e fúria – foi tanta que até Deborah Copaken, roteirista da produção estrelada por Lily Collins, criticou duramente a HFPA pela escolha. Muitos críticos, inclusive, acusaram a instituição de indicar a produção da Netflix apenas para agradar Phil Collins, pai da estrela de Emily em Paris.

O humor se tornou a verdadeira estrela

Por causa dessa perda de credibilidade, os astros convidados cada vez mais se mostram indiferentes ao fato de estarem ou não indicados, por vezes subindo bêbados ao palco para aceitar troféus, xingando durante a transmissão ao vivo e até ficando de regata no meio do evento black-tie. A maneira despreocupada como os artistas se comportam durante o Globo de Ouro se reflete na relação do público com a própria premiação. Obviamente ciente das críticas que recebe, a HFPA escala humoristas polêmicos – como Gervais – ou com grande inclinação política – tal qual Meyers -, na esperança de que seus monólogos de abertura roubem os holofotes dos vários problemas de bastidores. Por incrível que pareça, essa tática funciona.

Em 2018, por exemplo, Meyers comandou uma cerimônia regada a críticas contra o então presidente norte-americano Donald Trump. Já Fey e Poehler, que apresentaram três edições entre 2013 e 2015, fizeram chover risadas ao abordar o etarismo e machismo típicos da indústria. Compartilhados pelo público na internet, esses momentos têm um alcance relativamente maior que os discursos muitas vezes burocráticos dos vencedores que, com os egos massageados, raramente abordam as polêmicas da HFPA e se limitam a agradecer a instituição pelo prêmio (e, às vezes, pelo cardápio escolhido). Mesmo as cutucadas de Gervais passam batido em meio ao turbilhão de xingamentos, reclamações e piadas feitas às custas das celebridades presentes.

Embora seja uma das festas mais luxuosas da temporada de premiação, com cardápios finíssimos e litros de champagne e cerveja servidos livremente no salão, é claro que o Globo de Ouro já não é levado a sério nem mesmo por seus organizadores. Nesse contexto, resta a nós, enquanto público, nos contentar em assistir à premiação sem a menor expectativa e levá-la tão a sério quanto qualquer outra piada feita em seu palco.

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