Preview | Virtue and a Sledgehammer tem mensagem brutal sobre IA e o que nos torna humanos
Jogo flerta com o que nós podemos se tornar quando finalmente sucumbirmos ao digital
Créditos da imagem: Devolver Digital
Desenvolvido pela Deconstructeam e Silkie Harbour e publicado pela Devolver Digital, Virtue and a Sledgehammer tem uma mensagem tão intensa quanto a sua própria protagonista. Na pele de Pratelle, retornamos para a cidade natal da protagonista para encontrar a cidade tomada por robôs.
Contudo, todos esses robôs são pessoas da cidade, que tiveram suas mentes transportadas para esses novos corpos, se privando de dores, sofrimentos, sentimentos, de basicamente tudo. Até onde você continua sendo você, quando se priva de sentir? No meio desse turbilhão de sentimentos e questionamentos, chegamos com Pratelle a sua cidade natal, munidos de uma marreta para destruir tudo.
Aqui, o jogo traz aquele sentimento de retornar para um lugar que você conheceu na infância, e sentir que não se encaixa mais lá. A ideia do Deconstructeam era criar o sentimento de retornar para um lugar, e não se encontrar mais. O que existe são apenas ecos que tentam imitar a realidade.
Virtue and a Sledgehammer é um walking simulator, mas que ao invés de você somente progredir pela história sem "fazer nada", é possível destruir tudo usando uma marreta. Sejam os robôs, as casas, o que estiver pela frente de Pratelle e seu objetivo, pode ser destruído. E é no meio dessa destruição, quase que catártica, que o jogo passa a pincelar a sua história por meio de fragmentos que podem ser encontrados pela cidade.
Com isso, entendemos um pouco mais sobre a motivação da personagem, e descobre a sua relação com Nina, sua irmã, e como as duas estão ligadas ao que está acontecendo na cidade. Em uma tentativa de ajudar pessoas, ambas acabaram criando algo que Pratelle acredita ser horrível, e acaba jurando destruir.
E é aqui que o jogo traz o seu principal ponto narrativo. Os robôs continuam sendo as pessoas que Pratelle conheceu? Mesmo com todas as lembranças, todos os vícios, os trejeitos, podemos considerar aqueles seres de metal, realmente, humanos? Para a protagonista, não existe dúvidas: eles não são pessoas, e isso é apenas uma lembrança ruim.
E algumas, extremamente ruins. Não é difícil ver alguns robôs sendo preconceituosos, ou até mesmo abertamente racistas com a protagonista. Ou seja, por mais que você tente esconder suas intenções por meio de uma carcaça metálica, ela sempre vai encontrar um caminho para ressurgir.
Por isso, aliada dos seus "10 kilos de mídia física", Pratelle balança a sua marreta para dar o fim a um experimento que acabou tirando a individualidade das pessoas, em prol do "não quero sentir mais". E infelizmente, essa premissa acaba sendo terrivelmente atual.
O combate do jogo em si, não exige muito do jogador. A experiência aqui é explorar a história, entender o que aconteceu de tão terrível para que Pratelle negasse a própria criação e buscasse ir atrás de sua irmã, para acabar de vez com tudo o que elas construíram.
Em um dos momentos mais interessantes do preview que jogamos, dois robôs estavam perto de um local romântico, e um deles pedia um beijo. "Mas eu não consigo te beijar!", disse o outro robô, que é respondido com um triste "Pelo menos finja que consegue".
Parece bobeira, mas é algo extremamente poderoso, ainda mais em tempos de IA generativa, em que muitas pessoas já não conseguem discernir o que é real ou o que é fabricado, e muitas vezes, acabam criando relações parassociais com uma IA, que está ali apenas para atender todos os seus desejos, sem questionar, sem sentir. Virtue and a Sledgehammer une as lembranças dos moradores da cidade, os seus anseios, e seus problemas, com a padronização que o mundo digital acaba fazendo sobre nós. Se tudo o que temos, está no digital, o que acontece alguém puxa a tomada? Tudo vai embora.
Em tempos que as pessoas estão cada vez mais distantes de si, presas nos seus próprios celulares, em trends perguntando para o ChatGPT como seriam nos anos 80, Virtue and a Sledgehammer chega derrubando a parede e perguntando se essas pessoas perderam a noção do que estão fazendo. Com cada vez mais as pessoas se preocupando em parecer com o que a inteligência artificial as idealizam, ou até mesmo utilizando as inteligências artificiais como confidentes e "amigos", o jogo da Deconstructeam e da Silkie Harbour é praticamente um grito de socorro para que as pessoas não se entreguem cada vez mais as máquinas.
Atualmente, a grande maioria das pessoas não tem mais as suas lembranças de forma física. Sejam fotos tiradas com amigos, de uma viagem, um momento com a família, tudo está preso ao digital. Seja ao seu celular, a um cartão de memória, ou até mesmo a nuvem. Cada vez mais estamos nos desprendendo da lembrança física, e adotando a digital. Mas caso isso acabe, o que fica? Do que vamos lembrar? Virtue and a Sledgehammer busca levar essa premissa as últimas consequências.
No jogo, pelo menos, nós temos uma chance de lutar contra a maré que cada vez mais parece inevitável. Se ao menos fosse aceitável sair andando com uma marreta por aí, as coisas seriam mais fáceis.
Até lá, Virtue and a Sledgehammer serve como uma ótima forma de externar a sua angústia quanto ao mundo cada vez mais digital, e bem menos humano.
Virtue and a Sledgehammer chega em 27 de outubro para o PC.
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