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Marvel e o cinema: o que está por trás do comentário de Scorsese

Opinião do diretor jogou luz em uma questão antiga sobre o futuro da indústria, e abriu portas para uma reflexão sobre a fórmula do MCU

Julia Sabbaga
12.11.2019
12h45

“Marvel é cinema?” virou a nova questão da moda, para adicionar aos clichês como “o rock morreu?” ou “o que é arte?”. Desde que Martin Scorsese lançou a polêmica no início de outubro, críticos e fãs começaram a debater online, em um movimento que, provavelmente, o diretor de Taxi Driver e Os Bons Companheiros não imaginaria que acontecesse. E por mais que seja imediato para muitos responder algo como simplesmente “é claro que é”, existe algo que até Robert Downey Jr. foi o primeiro a admitir: “nós precisamos de perspectivas diferentes”. Mesmo que seja fácil rebater Scorsese, é válido aceitar a crítica e pensar no debate, ainda mais em um momento tão predominado por ódio e negação.

O que Scorsese disse sobre os filmes da Marvel não é uma opinião de cada obra em si, até porque ele mesmo admitiu não assistir aos filmes do MCU. As frases que dominaram as manchetes deram a entender uma intolerância por parte do diretor que acabou apagando o foco de seu depoimento, que é o perigo da predominância dos filmes de heróis nas salas de cinema. O que Scorsese disse pouco tem a ver com a qualidade de Vingadores: Ultimato, por mais que os críticos de Twitter tenham atacado em onda, como se tivessem sido pessoalmente ofendidos. Tudo isso trouxe à tona algumas coisas que valem ser explicitadas: tanto a negação em ouvir críticas, quanto o estado atual do cinema e o rumo que ele toma atualmente.

O PROBLEMA DE SCORSESE

A crítica de Scorsese talvez esteja fundamentada em algo muito particular, que vem de um momento atual da carreira do diretor. No tempos áureos de sua carreira, nos anos 70 e 80, o interesse dos estúdios estava em seus projetos. Em 2019, O Irlandês, seu mais novo lançamento, precisou ser levado para a Netflix, única empresa que aceitou o alto custo de produção após a desistência da STX e da Paramount Pictures em se envolver no projeto. No ano passado, o filme dos Irmãos Coen, The Ballad Of Buster Scruggs, passou pelo mesmo processo, e Joel Coen explicou [via LA Times]: “[a Netflix] está gastando dinheiro com filmes que não são da Marvel ou grandes franquias de ação, que é o negócio dos grandes estúdios hoje em dia”.

Existe, sim, um tipo de filme que perde espaço nos cinemas com a predominância da Marvel, e é exatamente o tipo de produção de Martin Scorsese. Talvez seja por isso que um filme claramente inspirado em seu estilo, que lembra a Nova York dos anos 70 e seja um claro estudo de personagem e violência, hoje precise se chamar Coringa para brilhar na bilheteria e quebrar recordes. 

A previsão não é tão fatalista quanto parece: estúdios como a A24 ou a Fox Searchlight ainda gastam um orçamento médio com filmes que tem bons resultados, como Midsommar ou Jojo Rabbit, mas existe sim uma transição na indústria. Filmes do Scorsese ou dos Irmãos Coen também não vão acabar, provavelmente graças ao streaming, mas que eles perderam espaço nas salas de cinema é inegável. Por isso, quando Scorsese diz que estamos sendo “invadidos”, o comentário é específico e válido.

A SINGULARIDADE DA MARVEL

Enquanto a declaração de Scorsese parece ter vindo de um lugar pessoal, ele abriu portas para diversos cineastas darem as suas opiniões, e assim como o primeiro, elas vieram de nomes mais do que respeitados na indústria, desde Francis Ford Coppola a Fernando Meirelles. Com graus diferentes de intensidade, cada um dos cineastas explicou uma questão apresentada pela Marvel, indicando que talvez exista algo por trás da simples frase “Marvel não é cinema”.

O formato que o MCU criou em seus mais de 10 anos de existência foi algo inédito. A estrutura de 23 filmes que existem em um universo compartilhado e dependem (pelo menos até certo nível) de uma experiência prévia foi algo nunca visto antes, que se assemelha mais com o modelo televisivo do que com o cinema. Nisso, a facilidade de financiar e lucrar com projeto atrás de projeto criou uma máquina imparável de produção, algo que foi o alvo das críticas de Ken Loach. Para o diretor de Ventos da Liberdade, as produções da Marvel “são como uma commodity que dará lucro para uma grande corporação”. A questão não é o lucro em si (afinal todo estúdio espera o máximo de retorno a cada lançamento), mas a repetição de uma mesma fórmula diversas vezes, que para Loach, é como a produção de hambúrgueres. 

Independente da opinião geral sobre os longas ou do sucesso dos filmes da Marvel, seus projetos são visivelmente baseados em uma fórmula, que há tempos vai sendo repetida. Quando Coppola se aprofundou em seus comentários – que no início foram reportados apenas como uma referência do diretor aos filmes da Marvel como “desprezíveis” – ele explicou um quesito certeiro, que se relaciona com este mesmo elemento formulaico. Para o diretor, o que carece nos filmes da Marvel e sempre fez parte da essência do cinema foi risco, algo que não há no estúdio há tempos e está relacionada ao estilo específico de filmes que foi criado pelo MCU: “falta risco na produção (...) Parte do processo é o risco, é isso que faz [o cinema] interessante, é por isso que nós aprendemos tanto quando eles são feitos”. Seu comentário foi arrematado com uma observação ainda mais afiada, mas igualmente justa: “riqueza é o que contribui para a sociedade, e cinema funciona do mesmo modo. Cinema de verdade entrega algo, um presente formidável para a sociedade. Não apenas torna pessoas mais ricas”.

A crítica é definitivamente mais dura do que a declaração de Scorsese, mas ela é, também, mais ampla e mais questionável. Sim, a Marvel tem a sua fórmula, mas existe muito mérito em tê-la construído. Além disso, apesar de carecer de risco há tempos, não existe nada de errado, pelo menos à princípio, em entregar entretenimento puro, que definitivamente tem uma base de fãs que se alegra a cada lançamento. Diversos filmes do MCU não são desprovidos de uma mensagem e muito menos inovação tecnológica, elementos que também fazem parte da essência do cinema. Se isso não bastasse, o estúdio também serviu como canal dos maiores lançamentos impulsionadores de representatividade. Já é lugar comum usar Ryan Coogler como exemplo, mas desprezar a importância de Pantera Negra para o cinema certamente seria um equívoco.

Amar ou admirar a Marvel e seus filmes não deveria impedir uma reflexão crítica de suas estratégias e muito menos gerar intolerância em relação aos seus críticos. Quando um dos maiores nomes do cinema expressa uma opinião, como fez Martin Scorsese, por mais que a resposta seja discordância, é necessário abrir um debate. Com uma voz de peso, o que o diretor fez foi iniciar uma discussão do que parece ser o futuro do cinema. E por mais que a resposta seja “a predominância da Marvel e o lançamento de grandes diretores na Netflix”, assim como qualquer debate sobre domínio na indústria, a reflexão precisa acontecer, e de modo saudável.