Montagem das Dicas do Hessel

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Dicas do Hessel #015: Pérolas do cinema em 2020 (até agora)

Confira os destaques do primeiro semestre do ano

Marcelo Hessel
10.07.2020
14h00
Atualizada em
08.07.2020
19h04
Atualizada em 08.07.2020 às 19h04

E lá se vai metade de 2020, hora de fazer um balanço com as boas notícias deste ano difícil. Uma delas é que a oferta de filmes lançados direto nos serviços de streaming ajuda demais a dar conta da quarentena em casa. De A Vastidão da Noite a Joias Brutas e Destacamento Blood, algumas estreias de 2020 até agora não fariam feio em nenhuma lista de melhores do ano, e na seleção abaixo eu destaco mais sete filmes que podem passar batido mas valem sua atenção.

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Selah e os Espadas

Foto de Selah e os Espadas
Divulgação

O primeiro longa da roteirista e diretora Tayarisha Poe, de 30 anos, ferve de ideias e escolhas visuais, no limite entre o arrojo e o exibicionismo. A trama se passa em um colégio de elite americano onde os jovens de 16 e 17 anos se dividem entre facções para definir afinidades, organizar atividades, festas secretas, vender drogas. Imagine uma mistura de Harry Potter, Rushmore e Meninas Malvadas, a partir do ponto de vista dos "Espadas", o grupo negro liderado pela protagonista Selah; o filme camufla o que o público normalmente espera dos temas e dos clichês da negritude americana no cinema, e adiciona as pressões das escolhas pré-faculdade às tensões raciais veladas. Infelizmente o final perde um pouco o fôlego, mas Tayarisha Poe certamente é uma voz a acompanhar.

Disponível no Amazon Prime Video.

Crip Camp

Foto de Crip Camp
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O documentário americano se vende como a história pouco conhecida de um acampamento de férias nos EUA voltado para pessoas com necessidades especiais, mas esse é só o primeiro ato. A partir de uma temporada no Camp Jened nos anos 1960, personagens variados (de paraplégicos a pessoas com danos cerebrais mais severos) passam a protagonizar o movimento pelos direitos civis dos cadeirantes, que se estende por décadas no país. No fim, o filme acaba construindo um relato muito poderoso e emocional sobre a força da coletividade, sobre como reconhecer-se em outras pessoas e humanizá-las é um meio importante de transformar a alteridade em cidadania.

Disponível na Netflix.

Má Educação

Foto de Má Educação
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História real de um colégio de segundo grau em Long Island que se tornou infamemente o caso de maior desvio de dinheiro no ensino público na história dos EUA. O diretor Cory Finley conduz o relato com aquela altivez e a superioridade moral da Hollywood liberal, mas o filme tem pontos fortes também, na secura da montagem e da trilha sonora (que lembram uma versão mais solene de Eleição) e especialmente na atuação de Hugh Jackman, uma das melhores do ano. O ator transita entre o charme e a monstruosidade com variações sutis de expressão, e consegue vencer as limitações do texto quadrado para compor um personagem bastante complexo e magnético.

Disponível na HBO GO.

Bala Perdida

Foto de Bala Perdida
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Este policial de ação francês, sobre um ladrão especializado em fortificar carros que colabora com a polícia e termina acusado de um crime que não cometeu, segue à risca a melhor regra do gênero: um filme de ação precisa confiar na ação como fio condutor da narrativa. O resultado não é só conciso e seguro - uma realização surpreendente para o diretor estreante em longas Guillaume Pierret - como tem implicações morais muito contundentes na forma como lida com a instituição da polícia e retrata a violência e suas repercussões.

Disponível na Netflix.

Ya no Estoy Aquí

Foto de Ya no Estoy Aquí
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Ulisses é o correlato mexicano do adolescente brasileiro que se expressa pelo passinho e faz dessa subcultura uma filosofia de vida. Como seu próprio nome já sugere, ele protagoniza uma viagem homérica, no caso uma travessia ilegal aos EUA que o deixa vulnerável em território estrangeiro. O filme de Fernando Frías de la Parra consegue oxigenar a história batida do imigrante com uma narrativa visual bem marcante, cuja estrutura não-linear exige que o público atente para as cores e formas do protagonista e seu entorno para acompanhar essa odisseia pivete sobre identidade, geografia, apagamento cultural e resistência.

Disponível na Netflix.

Você nem Imagina

Foto de Você nem Imagina
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É bem sacada a premissa desse drama indie da diretora Alice Wu, que leva livremente Cyrano de Bergerac para uma cidadezinha americana onde uma adolescente chinesa ajuda um garoto menos erudito a tentar conquistar a gata do colégio. Se nos habituamos à maneira adocicada e inofensiva com que esses filmes americanos lidam com o drama de formação, Você nem Imagina leva a fofura ao limite do suportável. Se há um filme em 2020 que traduz bem o espírito do seu tempo e a maneira tiktoker de ver o mundo é este aqui; inclusive a cena do encontro com milkshakes e troca de mensagens provavelmente já foi reencenada pelo fenômeno Mario “Roi” Jr. (que é a cara do ator Daniel Diemer) em algum momento.

Disponível na Netflix.

Secreto e Proibido

Foto de Secreto e Proibido
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Além das obras de ficção de Ryan Murphy, a Netflix tem em seu catálogo dois documentários sobre história e cultura gay com a assinatura do produtor, Secreto e Proibido e Atrás da Estante. Embora trate de uma história bem comovente (a relação de duas mulheres nos EUA que por sete décadas tiveram que esconder sua homossexualidade), Secreto e Proibido acaba se revelando bem interessante também por aquilo que revela de dinâmicas familiares e do paternalismo com a terceira idade. Que o casal Terry e Pat seja tratado como uma unidade disfuncional (nas intervenções da família para o bem de "Tia Terry") só depois das duas assumirem a relação gay é uma daquelas ironias da vida que, registrada na tela, ganha uma dimensão dramática singular.

Disponível na Netflix.