Ya no Estoy Aquí

Filmes

Crítica

Ya no Estoy Aquí

Odisseia pivete vinda do México é uma bela história de resistência cultural

Marcelo Hessel
10.06.2020
16h44
Atualizada em
10.06.2020
17h30
Atualizada em 10.06.2020 às 17h30

Mais um homem de nome Ulisses se junta à extensa lista de personagens homônimos de ficção que homenageiam a Odisseia de Homero com suas jornadas de desbravamento do desconhecido e de retorno ao lar. Desta vez é um Ulisses de 17 anos, saído de Monterrey, cuja jornada épica se assemelha a de muitos outros mexicanos, que entram ilegalmente nos Estados Unidos em busca de novas oportunidades ou fugindo de situações de flagelo. O diferencial do filme Ya no Estoy Aquí é que, embora possa desaparecer nesse oceano de estatísticas, a odisseia de Ulisses é extremamente particular.

Ulisses depende de que ela seja particular, na verdade, para que sua história e sua identidade não sejam apagados no trajeto. Monterrey fica no Nordeste do México e, na favela onde Ulisses vive, integrar gangues e subgangues é uma questão igualmente de coletividade e de sobrevivência. O grupo do protagonista se autodenomina Los Terkos; eles se vestem, cortam o cabelo e fazem passinhos de dança dentro de um mesmo conceito visual para celebrar a Kolombia, um estilo de vida baseado numa batida desacelerada da cumbia. O filme de Fernando Frías de la Parra tem uma veia documental forte, que se aproveita da boa dose de exotismo implícita nessa "revelação" da subcultura da Kolombia, então por isso a jornada ganha cores próprias. Ulisses não é o típico expatriado em busca de um recomeço, porque a ideia de "recomeço", aqui, significaria deixar para trás essa subcultura e tudo o que a torna autêntica de uma época, de um local.

Vem daí o potencial dramático do filme, porque Ulisses obviamente destoa dos cenário por onde transita, e qualquer desgaste da sua imagem enormemente calculada (pode ser só uma mecha de cabelo mal penteada) significa um grau de apagamento. Numa analogia possível, é como o samurai cujo quimono amarrado com esmero vai se desalinhando a cada golpe de um duro duelo de espadas (o gesto do samurai que perdeu o mestre e corta seu cabelo como sinal dessa desonra não escapa a De la Parra no filme). Em outra analogia, é como se o exilado fosse um dançarino de maracatu carregando seu estandarte sob o sol escaldante, sobrecarregado de camadas e camadas de identidade, e a narrativa de Ya no Estou Aquí ganha um caráter homérico de fato quando entendemos que tragicamente cabe a Ulisses levar nas costas a existência da Kolombia (que em Monterrey já sofre outro tipo de apagamento, na sedução que a violência exerce sobre as gangues).

Altivo nas danças e nas falas - que nos problemas de tradução espanhol-inglês tornam-se peça de resistência, quando Ulisses desabafa sozinho em suas gírias natais - o ator Juan Daniel Garcia Treviño é um grande achado, e seu olhar ora furioso, ora apático, é um elemento essencial no filme para demarcar as transformações do personagem, além das camadas de costume que Ulisses deixa pelo caminho. A câmera de De la Parra faz o resto do serviço. Os planos são longos e estáticos quando o momento exige (como aquele que mostra os Terkos dançando, e é muito curioso notar nessa hora como os homens se pavoneiam muito mais na performance do que as mulheres, afinal a cultura das gangues é antes de tudo uma questão de hombridade) e o enquadramento é frequentemente geral e distanciado para incluir apropriadamente todo o contexto urbano de grafites, pixos, fachadas, neons e vitrines onde Ulisses se insere, seja em Monterrey ou em Nova York.

Essa sensibilidade para enxergar especificidades urbanas - não apenas o que separa cidades e culturas mas também o que as une - impede que Ya no Estou Aquí caia na armadilha comum e pedante do miserabilismo. Primeiro que poder assistir às paisagens do México sem aquele desgraçado filtro amarelo-barro já é um grande alívio. Ambas as cidades têm seus muros, suas divisórias, seus arranha-céus sempre inalcançáveis no horizonte (vistos da laje da favela, no caso de Monterrey, e dos terraços virados para Manhattan, no caso de NY). De la Parra não recorre a soluções de cor para diferenciar o núcleo Primeiro Mundo do Terceiro, e como a narrativa do filme não é linear (os flashbacks primeiro servem à exposição e depois vão ficando mais intermitentes e evocativos), cabe ao espectador atentar para as nuances de figurino e cenografia para entender se estamos no passado ou no presente.

Essas soluções são peças igualmente centrais nesse projeto pensado para agigantar a figura de Ulisses, sempre o ponto de referência do nosso olhar, e o garoto responde a essa responsabilidade de forma magnética. O resultado é menos um estudo de personagem que um ensaio visual sobre geografias humanas, um filme agridoce com humor muito afiado para a crônica urbana, e ao mesmo tempo um relato contundente sobre a dignidade e o pertencimento. 

Nota do Crítico
Ótimo