Bala Perdida

Filmes

Crítica

Bala Perdida

Filme de ação francês surpreende pela narrativa concisa e segura

Marcelo Hessel
22.06.2020
18h50
Atualizada em
22.06.2020
19h23
Atualizada em 22.06.2020 às 19h23

Parece um Jason Statham do Mediterrâneo o ator Alban Lenoir, o protagonista de Bala Perdida (Balle Perdue), filme de ação policial da Netflix. Ele surge em cena de camiseta justa em uma garagem de funilaria, tunando carros, e já começam as associações: esse Statham francês ganhou seu próprio Velozes e Furiosos, e lá vamos nós para mais um genérico para fazer volume no streaming. É com rapidez, porém, que o roteirista e diretor Guillaume Pierret mostra serviço e mostra, também, que seu filme tem muitas especificidades.

Uma delas diz respeito aos carros. Só quem já dirigiu um Clio sabe a grande mentirada que é colocar esse modelo de Renault para protagonizar um filme de perseguição. Lino (Lenoir) quer roubar uma joalheria e arma seu Clio com uma proteção de choque que atravessa concreto. O golpe dá errado, Lino se revela para o espectador o clássico ladrão estúpido, mas sua magia com o Clio não passa despercebida para o chefe da polícia. Ele literalmente diz que Lino faz mágica, e promete tirar o ladrão da cadeia se ele ajudá-lo com seu talento a fortificar as viaturas locais no combate ao narcotráfico. Premissa simples e direta.

Em pouco mais de 20 minutos, Lino foi preso, é convencido a colaborar com a polícia, e acaba traído num lance que o coloca em fuga, acusado de um crime que não cometeu. Diante de eventuais suspeitas, Pierret ganha a confiança ou pelo menos a atenção do espectador com essa sucessão de reviravoltas muito rápidas, entregues entre pacotes de exposição que nos dão as informações mais essenciais, sem gordura: Lino é bom no volante; ele e o policial ficam próximos porque têm a mesma paixão por carros; há um informante do tráfico na polícia e isso pode virar um problema. Bala Perdida enuncia dois mistérios logo de cara, sem complicação (quem é o traidor da polícia e qual é o envolvimento de Lino com uma das oficiais do esquadrão), e se apoia neles para tocar a trama adiante.

Os melhores filme de ação são aqueles que confiam na ação como fio condutor da narrativa, e, para um estreante na direção de longas-metragens, Guillaume Pierret demonstra invejável domínio dessa máxima do gênero. Ele entende o que é preciso para que o espectador crie empatia com Lino (apresentado como burro e depois como o inocente no lugar e na hora errada, nunca como um anti-herói marrento), desenha bem os limites morais (Lino só entra na porradaria contra a polícia quando descobrimos a extensão da corrupção do sistema) e filma a violência com consciência do seu impacto moral. A forma como o filme retrata a polícia é também muito específica: o léxico visual é atualizado para a nossa era de confrontos (sprays de pimenta e escudos transparentes de conter multidões vêm a calhar numa cena de ação), e o próprio fato de a polícia ser mais perigosa que o narcotráfico não deixa de ter uma implicação moral tremenda.

Até o fim do filme, Pierret ainda vai tirar do bolso algumas outras soluções bem inventivas de síntese visual. Em uma delas - que não deixa de ser um grande merchan da Renault e uma típica patriotada francesa - associa o carro queimado e uma viatura em miniatura para conjugar o fetiche masculino dos carros (que mesmo antes de Velozes e Furiosos já era praticamente um subgênero dentro dos filmes de ação e perseguição) com a memória da corporação policial limpa de corrupção. Em Bala Perdida, esses elementos consagrados do gênero (seja o fetiche do carro, seja as cenas pensadas só pelo duelo mano-a-mano) sempre são contextualizados e nunca usados de modo automático, pela mera obrigatoriedade de usá-los. Até mesmo o desfecho que dá margem a continuações parece inserido de um jeito orgânico, convincente e condizente com o tom do filme.

A maneira como Pierret filma a violência é o fator decisivo. Se ela tem, para o diretor, um caráter moral acima de tudo, e se a violência precisa existir no filme contextualizada e funcionalmente, sem exibicionismos, então faz todo o sentido que Bala Perdida seja muito duro e econômico nesses momentos. O resultado soa como um encontro entre Mad Max e Cormac McCarthy: há uma brutalidade a ser encenada aqui, porque essa brutalidade (nas trombadas de carros, tiros, corpos) é sintoma de um mal estar e não pode ser ignorada. Nas histórias de McCarthy a violência tem impacto ampliado quando é breve ou mesmo só sugerida, e Bala Perdida aprende essa lição em outras imagens-síntese muito bem escolhidas (o tiro de escopeta no colete e na tarja "Polícia", a bala que vem de surpresa pelas costas do policial mas permanece como extensão do cadáver no painel do carro) para sublinhar o que a violência e suas consequências têm de definitivo. 

Nota do Crítico
Ótimo