Imagem oficial do filme Você Nem Imagina, da Netflix

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Netflix

Crítica

Você Nem Imagina

Cheio de boas ideias, filme da Netflix é sensível, mas não desenvolve nenhuma narrativa muito bem

Camila Sousa
01.05.2020
10h00
Atualizada em
02.05.2020
07h30
Atualizada em 02.05.2020 às 07h30

No começo da história de Você Nem Imagina, a protagonista Ellie Chu (Leah Lewis) diz que aquela não é uma história de amor e está certa. O filme da Netflix passa longe de ser uma comédia romântica adolescente comum, embora seu cartaz de divulgação possa dar a entender isso. O longa é de fato cheio de boas ideias, o problema é que ele não desenvolve nenhum deles muito bem, quase como se o roteiro fosse tão confuso quanto a cabeça de seus jovens protagonistas.

Ellie vive em uma cidade pequena junto com o pai e vende redações para sua turma. Tal dinâmica muda quando Paul (Daniel Diemer) pede seus serviços de escrita, dessa vez para fazer uma carta de amor para Aster Flores (Alexxis Lemire), uma das jovens mais bonitas da escola. O caminho que Você Nem Imagina escolhe para desenvolver uma narrativa tão clichê é interessante.

Ao invés de um clima divertido em uma escola de ensino médio, o longa de Alice Wu (Livrando a Cara) tem um clima soturno e começa com grandes questionamentos, como “o que é o amor” e o que significa ter uma relação em uma época de amores tão líquidos. Essa premissa é muito interessante, mas a sensação é que ela fica pelo caminho em algum momento. No começo o filme passa a ideia de que sempre será permeado por algum grande questionamento da natureza humana, mas isso só dura durante o primeiro ato.

Como o trailer já indica, Ellie aceita fazer as cartas para Paul, mas eventualmente ela se envolve demais e desenvolve seus próprios sentimentos. A forma como o filme lida com isso é o que mais incomoda. A relação entre Ellie e Aster tem como base mensagens trocadas, que seriam o ponto de partida para o amor. No entanto, o contato digital nunca é muito aprofundado entre as personagens. As duas conversam (com Ellie se passando por Paul, claro) sobre literatura e arte, mas não falam mais sobre si mesmas, o que gostam, quem são suas inspirações, quem são de verdade.

Ao não desenvolver tal ponto, Você Nem Imagina entrega um tipo de amor idealizado com o qual é difícil se relacionar. O que também contribui para isso é o desenvolvimento da própria Ellie. O longa pincela alguns temas que são importantes para ela, como o fato de ser de outro país e viver nos EUA e a perda da mãe. Mas nada disso é aprofundado o suficiente para que o público entenda quem Ellie é de verdade. Há poucos momentos em que a personagem está em tela sozinha, com seus próprios pensamentos e receios. Em uma cena, Paul diz ao pai da garota que ele não sabe quem ela é. E o público, infelizmente,  também não teve essa oportunidade.

Outra questão que fica dúbia é a religião. Ellie e seus amigos vivem em uma cidade pequena, onde conceitos cristãos estão presentes e a sexualidade da garota poderia se tornar uma questão. Só que, ao longo do filme, a igreja é mostrada como um ponto de encontro, mas nunca um local tão importante assim na vida das pessoas. Não há discussões religiosas fora da igreja ou questionamentos sobre fé. Por isso soa estranha a reação de alguns personagens remeter imediatamente à igreja diante do segredo de Ellie. Dentro da história, isso não faz sentido e parece um recurso utilizado apenas para chocar. Ainda pior, não há desenvolvimento sobre o tema depois. Uma frase é dita e fica por isso mesmo, como uma peça solta apenas para justificar o clímax. Novamente, o filme ensaia bons temas, mas não se aprofunda.

Mesmo cheio de problemas, a produção tem algumas qualidades, como a descoberta do primeiro amor e a confusão que chega junto à isso. O final também é satisfatório por ter um diálogo sincero entre duas personagens, trazendo um desenvolvimento que deveria ter acontecido muito antes, mas ainda assim foi bonito de se ver.

Você Nem Imagina é um longa cheio de boas ideias e dá para perceber que o roteiro, também assinado por Alice Wu, quis condensar muita coisa em pouco tempo. O resultado, infelizmente, soa bagunçado, embora a boa intenção da diretora fique clara em cada cena. É um filme que vale a pena ser assistido sem compromisso, mas não vai ficar na memória do público.

Nota do Crítico
Bom