Valery HACHE/AFP

Créditos da imagem: Valery HACHE/AFP

Filmes

Lista

Festival de Cannes 2021: um resumo por meio dos 5 principais nomes desta edição

Presidido por Spike Lee, festival premiou Julia Ducournau com a Palma de Ouro

Flávio Pinto
19.07.2021
15h21
Atualizada em
19.07.2021
15h33
Atualizada em 19.07.2021 às 15h33

O Festival de Cannes 2021 chegou ao fim no último sábado (17) regado a diversas surpresas: Julia Ducournau (Raw), venceu a Palma de Ouro, por Titane, e descobriu a vitória graças a uma gafe cometida pelo presidente do júri deste ano, Spike Lee, e de sobra fez história por tornar-se somente a segunda mulher a vencer o prêmio principal - e a primeira a levar a palma só (Jane Campion, que venceu por O Piano, em 1993, ganhou em um empate). 

Entre outros vencedores dos prêmios principais deste ano, alguns dos destaques foram Annette, que quebrou a maldição do filme de abertura (que geralmente saem de mãos vazias) e levou o prêmio de direção, os empates do Grand Prix e  Jury Prize, considerados como segundo e terceiros lugares do festival, respectivamente, para, em ordem: A Hero (de Asghar Farhadi) e Compartment No. 6 (de Juho Kuosmanen), e Ahed’s Knee (de Nadav Lapid) e Memoria (de Apichatpong Weerasethakul).

Já o Brasil, que figura sempre em festivais estrangeiros, levou para casa uma menção na mostra de curtas por O Céu de Agosto, de Jasmin Tennuci.

Mas ao invés de relatar prêmio por prêmio, categoria por categoria, causo por causo, o Omelete resolveu recapitular a edição de retomada do festival, que pulou a edição de 2020 por conta da pandemia do novo coronavírus, por meio dos cinco principais nomes deste ano. Selecionamos os realizadores, membros do júri, atores ou atrizes que foram os mais badalados, que mais estiveram sob os holofotes e que fizeram o festival deste ano ser tão importante.

Veja a nossa seleção a seguir: 

Spike Lee

Christophe Simon/AFP
Christophe Simon/AFP

A edição foi dele, não há como negar. Desde o primeiro dia, o cineasta parece ter ido à cidade francesa com o intuito de transformar o festival em uma pequena aventura pessoal. E para nós, foi maravilhoso acompanhar cada passo dessa jornada. Como não admirar esse homem que simplesmente deu uma pausa em um dos jantares comemorativos para assistir à final, entre a Itália e a Inglaterra, da Eurocopa [via Variety]?

Ou que logo no discurso de abertura do espetáculo, chegou com os dois pés na porta, e sem titubear chamou o presidente Jair Bolsonaro de gângster? Sem contar na gafe histórica — e maravilhosa — ao deixar escapar o nome do vencedor da Palma de Ouro deste ano. Não à toa o cineasta ganhou um Air Jordan limitado para celebrar sua presidência, e seu rosto no pôster oficial do festival. Muito mais que merecido, Spike Lee foi o cara dessa edição.

Julia Ducournau

HACHE/AFP
HACHE/AFP

A gafe histórica e maravilhosa de Spike Lee foi a de anunciar a Palma de Ouro de Julia Ducournau alguns momentos antes do previsto. Bem antes do previsto. Mas não importa. Ducournau tornou-se a segunda mulher a receber a honraria, depois de Jane Campion, que venceu por O Piano, em 1993. No entanto, O Piano venceu a Palma em um empate ao lado de Adeus, Minha Concubina, do chinês Chen Kaige. Então Julia é a primeira cineasta mulher a vencer a Palma completamente sozinha.

O mais surreal do prêmio dado à diretora francesa é que seu filme, Titane, que estreia no Brasil pelo MUBI, é a temática. O longa-metragem foi descrito por muito como um dos mais polêmicos e controversos do festival deste ano. A sinopse oficial do filme é: Após uma série de crimes inexplicáveis, um pai está reunido com o filho que está desaparecido há 10 anos. Titânio: Um metal altamente resistente ao calor e corrosão, com ligas de alta resistência à tração.”

De acordo com Nicholas Barber, crítico da BBC, que escreveu sobre o longa-metragem “A fantasia linda, sombria e distorcida de Ducournau é um pesadelo, mas travessamente cômica, repleta de sexo, violência, uma iluminação sinistra e música forte. Também é impossível prever para aonde vai a seguir.” Outros comentários também compararam o longa de Ducournau com Crash, thriller erótico de David Cronenberg. Lembrando que o Titane é da mulher responsável por Raw, produção sobre canabalismo que fez o público do mesmo festival, em 2016, desmaiar. Que júri fantástico!

Tilda Swinton

MUBI/Divulgação
MUBI/Divulgação

Já havíamos nomeado Swinton como a rainha do festival deste ano. Afinal de contas, muito incomum ter alguém em seis projetos distintos na mesma edição — mesmo que nem todos em competição. Em 2017, Nicole Kidman já havia feito história ao estar em quatro títulos paralelamente em Cannes (O Estranho que Nós AmamosO Sacrifício do Cervo SagradoTop of the Lake: China Girl e How to Talk to Girls at Parties), ganhando até mesmo um prêmio especial em comemoração aos 70 anos do festival. Mas Tilda ultrapassou a australiana com dois filmes a mais. 

Mesmo ocupada divulgando tantos projetos, Swinton teve tempo até de pregar uma pegadinha no queridinho da internet Timothée Chalamet. De qualquer forma, uma Palma irá à casa da atriz britânica de qualquer forma este ano, porque seu trio de cachorros Dora, Snowbear e Rosie, cães da raça springer spaniel, venceram a Palm Dog 2021, um mimo independente concedido todos os anos à melhor "atuação canina" dentro de algum dos filmes que esteja em cartaz na programação de Cannes. Os cães de Swinton estiveram em The Souvenir: Part II, de Joanna Hogg, ao lado de sua dona. A honraria já foi para o pitbull de Quentin Tarantino pelo trabalho em Era Uma Vez... Em Hollywood e para o cachorro Ollie de O Artista.

Karim Aïnouz

O cearense mais uma vez fez e aconteceu este ano em Cannes. Após uma passagem muito bem sucedida em 2019, onde venceu o prestigioso Un Certain Regard por A Vida Invisível, que foi até escolhido daquele ano para representar o Brasil no Oscar, o diretor ganhou uma bela salva de aplausos pelo seu mais novo longa, O Marinheiro das Montanhas. Para ser mais preciso, 15 minutos de puro aplausos, daquelas dignas de entrar no hall dos principais da história do festival. Para o G1, Aïnouz até contou que sentiu um calor que nunca havia sentido antes, nem mesmo em Fortaleza, sua cidade natal, e de onde a temperatura real pode até mesmo alcançar o calor figurativo. 

Ao final da exibição do seu longa, o cineasta aproveitou o momento e discursou contra o presidente brasileiro Jair Bolsonaro: Não posso deixar de lembrar que, enquanto estou aqui celebrando com vocês, milhares de brasileiros estão morrendo por absoluto descaso deste governo fascista na condução da pandemia. A democracia brasileira respira por aparelhos.” Depois do discurso, uma faixa vermelha foi exibida com os dizeres: “Brasil: 530 mil mortos. Fora, gângster genocida”.

Embora o clima político pode ter pesado um pouco sua passagem pelo festival, a sua nova exibição na Croisette também foi palco de contar uma novidade. Ainda nesta edição, Aïnouz anunciou seu primeiro longa-metragem em inglês, que será protagonizado pela musa Michelle Williams, intitulado Firebrand. Definitivamente, uma bela edição para o diretor brasileiro.

Sharon Stone

Você pode até estranhar, mas Sharon Stone teve seu ar de protagonismo nesta edição do festival. Musa fatal e rainha do cinema durante a década de 90, Stone infelizmente sofreu a maldição que muitas e muitas atrizes sofreram por conta do sexismo hollywoodiano. O Festival de Cannes 2021 nos deu pelo menos um vislumbre do que a estrela pode ser no seu máximo: uma atriz iluminada, cheia de graça e elegância. Não à toa ela foi a convidada para anunciar o principal prêmio da noite, a Palma de Ouro que, mesmo com o spoiler de Spike Lee (Spoiler Lee, um dos melhores trocadilhos da história), ainda foi um momento emocionante. 

Para muitos veículos, ela "roubou o show" e "foi a rainha do evento". Este ano, Stone, que é presidente da campanha global da AmfAR (Fundação Americana para a Pesquisa da AIDS), foi a anfitriã do baile de gala beneficente que a organização realiza anualmente em Cannes, após uma ausência de sete anos. A atriz de Instinto Selvagem também roubou os holofotes em diversas aparições no tapete vermelho, e foi até mesmo nomeada como Comandante da Ordem das Artes e Letras - momento em que roubou um beijo de Bill Murray

Ao longo das últimas duas semanas, acompanhamos uma estrela relegada voltar ao estrelato. Um título que ela nunca deveria ter perdido. Foi quase um conto de fadas.

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados para as finalidades ali constantes.