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Entrevista

Festival de Berlim | "Existe intolerância por todo lado", diz Adina Pintilie, a ganhadora do Urso de Ouro

Cineasta romena fala ao Omelete sobre Touch Me Not, o vencedor do Festival de Berlim

Rodrigo Fonseca
24.02.2018
19h06
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

Curadora do Bucharest International Experimental Film Festival, a romena Adina Pintilie vive uma dupla relação de amor entre o Cinema e as Artes Visuais há uma década e boa parte desse período foi gasto no projeto que deu a ela o Urso de Ouro. Touch Me Not é parte ficção, parte documentário, parte expressão corporal, parte sessão análise. Tudo isso gerou uma narrativa que apaixonou o júri do 68. Festival de Berlim, encerrado esta noite (24) na capital alemã.

Divulgação

"Não existe roteiro neste filme, só anotações de ações e troca. Nem houve uma escolha de elenco clássica: eu saí procurando quem quisesse compartilhar sua intimidade comigo. Estamos vivendo tempos em que lidar com o próximo, olhando o outro nos olhos, parece uma tarefa árdua. Existe intolerância por todo lado. Por isso, eu busquei construir ume estrutura de linguagem que se parecesse com um espelho", disse Pintilie ao Omelete. "Nesta mistura de elementos que fiz, fugindo da nossa atitude quase inercial de rotular quem está do nosso lado, eu tentei fazer um filme em que as pessoas olhassem corpos, olhassem sensibilidades, olhassem pessoas. E cada olhar desse deve ser uma experiência sensorial. Uma troca".

Investigação narrativa sobre desejo e intimidade, o filme acompanha a busca de uma mulher que não consegue ser tocada por formas de superar suas limitações sexuais e afetivas. Em sua busca, ela contrata garotos de programa, fala com uma stripper trans e se aproxima de um rapaz sem pêlos. "Tenho uma curiosidade pelas diferenças e tentei compartilhar esse meu instinto de descoberta com meus espectadores", diz a cineasta, antes conhecida só por curtas-metragens.

Além do Urso de Ouro, Touch Me Not ainda conquistou o Prêmio de Melhor Filme de Estreia, dado por um júri paralelo. "Sei que este filme incomoda, mas o incômodo dele abre diálogo", diz a cineasta. "Tudo o que eu busco é fazer as pessoas discutirem o que se percebe de uma imagem, de um corpo, de si mesmo".