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Dicas do Hessel #013: O debate gay em sete passos

Confira dicas para o Mês do Orgulho LGBTQIA+

Marcelo Hessel
26.06.2020
12h21

Dentre as discussões do Mês do Orgulho LGBTQIA+, celebrado em junho, vale notar como muita coisa se avançou nos últimos 40 anos em relação aos direitos gays.

É um debate que ainda exige muito trabalho de conscientização, e muita luta, mas se o cinema e a televisão servem de termômetro - afinal, o imaginário audiovisual americano de um jeito ou de outro termina ditando o que se normaliza na vida real - então há uma evolução visível na forma como a homossexualidade é retratada na tela. Abaixo, eu indico sete filmes e séries disponíveis nos streamings brasileiros que representam passos dessa jornada. Boas sessões e não deixe de assinar nossa newsletter para receber as dicas antes de todo mundo. E acesse este link para conferir as edições anteriores da coluna.

Garotos de Programa

Foto de Garotos de Programa
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Uns 25 anos antes de O Segredo de Brokeback Mountain, Gus Van Sant já colocava dois dos principais galãs em ascensão em Hollywood para protagonizar relações gays neste filme de 1991. River Phoenix e Keanu Reeves fazem dois dos garotos de programa do título, num road movie absurdo e existencialista que parte dos preconceitos da época - como a sociedade enxergava essas relações como um desvio de excentricidade e fetiche - para falar sobre reorganização familiar e os mitos da masculinidade nos EUA e no cinema, passando por motoqueiros e delinquentes juvenis até os velhos caubóis do Velho Oeste.

Disponível na HBO Go.

Três Formas de Amar

Foto de Três Formas de Amar
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Para muita gente, especialmente os adolescentes dos anos 90 que conheciam o mundo filtrado pela desesperança e pela agressividade masculina do grunge, o filme de 1993 foi uma revelação, para entender o desejo gay e derrubar barreiras de gêneros. Essa história de triângulo amoroso entre três amigos da faculdade (a aspirante a atriz desejada por todos, o intelectual tímido gay e o atleta machão) ficou datada e inclusive a sua visão de mundo heteronormativa pode soar problemática hoje. Ainda assim, com esta comédia dramática que se aproveita bem da sensualidade para abrir seu leque de públicos (recém-saída de Twin Peaks, Lara Flynn Boyle era a musa da geração), o debate da homossexualidade começou a colocar o pé no mainstream em direção à aceitação mais ampla.

Disponível na HBO Go.

Angels in America

Foto de Angels in America
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O teatro já lidava com o drama da AIDS com frequência e sobriedade, e a TV por assinatura americana precisou chegar ao conhecido nível de prestígio da virada do século - que se convencionou chamar de nova era de ouro, à falta de título melhor - para também tratar de temas urgentes, como a causa gay, com visibilidade. Tudo em Angels in America transpira grandiloquência, e o estilo empostado, teatral, combina bem com a narrativa fantástica. A minissérie adapta a peça de Tony Kushner vencedora do Pulitzer, que usa a virada do milênio para tratar da epidemia em retrospecto, numa trama ambientada em 1985 com anjos, advogados e fantasmas. Vivemos ainda hoje essa era da TV superprestigiada e autoimportante, e muito disso começou em 2003 com Angels in America.

Disponível na HBO Go.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Foto de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
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A normalização do afeto gay passa, invariavelmente, por um apelo de empatia. É assim no filme do diretor Daniel Ribeiro inspirado no seu premiado curta de 2010, sobre um adolescente cego que, dentre as muitas descobertas da puberdade, percebe também que seu interesse por um novo amigo é questão de pele. O filme é bem humorado e nunca derrapa na piedade, e no geral trata do tema de forma muito descomplicada para tirar do debate gay aquela camada de solenidade que durante muito tempo cobriu esse assunto "delicado".

Disponível na Netflix.

Tomboy

Foto de Tomboy
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Quase uma década antes de realizar Retrato de uma Jovem em Chamas, Céline Sciamma fez seu nome no circuito de festivais com esse drama corajoso de 2011, sobre uma garota andrógina de 10 anos que se passa por menino quando faz amizades na nova vizinhança para onde se muda com a família. Sciamma não deixa de abordar a questão do desejo, que parte da amiga que se apaixona pelo "menino", mas a história trata mais de pertencimento e de formação de identidade. Tomboy ainda hoje é muito pertinente para ilustrar as complexidades da questão da sexualidade precoce, principalmente nos seus impactos sociais mais imediatos.

Disponível no Telecine.

Nanette

Foto de Nanette
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O especial de stand-up que tornou famosa mundialmente a comediante Hannah Gadsby não é inédito ao tratar os tabus dos gêneros com um enfoque irônico. Ainda assim, Nanette é um pequeno compilado do seu tempo, porque, ao mesmo tempo em que ri de si mesma (e revela o absurdo da persistência desses tabus em pleno século 21), Gadsby denuncia as pequenas e grandes tragédias do preconceito, com pesar e gravidade. O resultado é um vaivém de registros dramáticos que - com justiça - prova porque esse monólogo de uma hora é tido como um divisor de águas que abriu novas possibilidades para esse gênero de comédia.

Disponível na Netflix.

Now Apocalypse

Foto de Now Apocalypse
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Em duas décadas do novo século ainda há mesmo muito o que lutar, porque os retrocessos são insistentes, mas também há muito prazer para celebrar. O cineasta Gregg Araki fez da urgência e dos mistérios do desejo gay o grande tema dos seus filmes, e nesta série de 2019 ele leva o escracho e o despudor do sexo para o universo das novelinhas de TV. A julgar por Now Apocalypse, a fluidez dos gêneros é reconhecida e praticada todos os dias por quem não a teme - e, nesta trama de fim do mundo misturada com invasão alienígena, que faz da implosão de convenções um estilo de vida plenamente disseminado, o céu é o limite.

Disponível no Amazon Prime Video.