Foto de Now Apocalypse

Créditos da imagem: Now Apocalypse/Starz/Divulgação

Séries e TV

Artigo

Com muito sexo, Now Apocalyse busca implodir a fórmula da novelinha teen

Assistimos no Festival de Sundance aos primeiros três episódios da série de TV de Gregg Araki

Marcelo Hessel
30.01.2019
11h58
Atualizada em
31.01.2019
15h36
Atualizada em 31.01.2019 às 15h36

Como tudo mundo, o cineasta Gregg Araki percebeu que a televisão pode alcançar mais pessoas e dar melhor vazão à sua produção do que permanecer nos mecanismos do cinema independente. No Festival de Sundance o Omelete assistiu aos primeiros três episódios de Now Apocalypse, a primeira série de TV criada por Araki, que estreia em março no canal Starz.

O caminho feito pelo diretor de Mistérios da Carne pode ser comum hoje em dia em Hollywood na era do streaming, mas Araki já tinha laços com a TV (ele tenta emplacar pilotos desde 2000) e seu próprio cinema se inclinava em anos recentes para um discurso evangelizador sobre a libertação do sexo que parece ter na TV um efeito amplificador, enquanto no cinema indie o diretor já estava pregando há um bom tempo apenas para seus convertidos.

Now Apocalypse é uma ótima porta de entrada para a obra de Araki e para ter contato com sua forma de ver o sexo, um enfoque despudorado e desencanado que vai na contramão do registro sempre moralizante do sexo na cultura americana (mesmo nos canais de TV paga em que nudez é hábito, à exceção de seriados que tratam os tabus do sexo especificamente como tema, ele é encenado como válvula de escape ou fan service, o que não deixa de ser também um julgamento moral). O primeiro episódio de Now Apocalypse já começa com Ulysses (Avan Jogia) gritando numa relação gay com penetração e Araki não teria mesmo um cartão de visitas diferente.

A série coleciona elementos dos filmes do diretor (sci-fi farofa, sátira americana, descoberta adolescente) numa mistura que tem mais potencial para virar moda entre os millennials - pelo apelo pop e pelo discurso empático sobre pulsões sexuais - do que propriamente de chocar a sociedade. Vemos jovens em uma Los Angeles estilizada em busca de propósito e prazer, quase um La La Land sem toda a prisão de ventre. Quem já viu Kaboom! pode ter uma boa amostra do que esperar de Now Apocalypse como sátira e crônica; aliás, Araki já fazia no filme de 2010 uma “homenagem” cômica aos seriados teen e agora finalmente dá vazão na TV a esse amor mal resolvido.

Pelos três primeiros episódios - que têm alguns lances de gênio como a cena da garota que estuda para ser atriz e treina diálogos com um cliente na webcam pornô que ela faz em casa - Now Apocalypse mostra um Araki mais domado em termos de narrativa. Normal o ajuste nessa migração para a TV, ainda assim o registro soa mais didático e panorâmico que o normal: personagens discutem o que se espera dos millennials em termos de postura sexual e como lidar com novidades” como o fim da monogamia. É o sexo não apenas como motor da narrativa mas também como problematização.

A impressão que fica nesse começo de temporada (em que o grande plot da invasão alienígena à la V ainda está no começo e pode ser uma grande galhofa misturada com brisa de maconha) é que o discurso evangelizador sobre tabus sexuais vai se manter até o fim. Não é uma série especificamente sobre pautas atuais (os temas habituais de Araki se sobrepõem, principalmente a obsessão com o fim da inocência/fim do mundo) mas elas estão nas subtramas. Cada personagem chega com suas próprias questões para resolver e elas são bem pontuais (tendências SM na cama, carência afetiva, frustrações profissionais).

É um começo não só interessante para ver como Araki se ajusta à cadência que a narrativa longa pede (um ajuste que ele faz com naturalidade, a exemplo das boas cenas que servem de recapitulação do episódio anterior, funcionais na medida) mas também pela expectativa para ver como o público vai receber uma série que está plenamente consciente das fórmulas da novelinha teen (o protagonista tem até seu diário em voz alta) e ao mesmo tempo chegou para implodi-las.