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Créditos da imagem: Divulgação/Omelete

HQ/Livros

Entrevista

Banca de HQs | Dave Gibbons revela bastidores e reflete sobre legado de Watchmen

Artista fala ao Omelete sobre como um veto da DC salvou a HQ e o que acha das adaptações de sua obra prima

Gabriel Avila
14.04.2021
18h15
Atualizada em
14.04.2021
18h28
Atualizada em 14.04.2021 às 18h28

Quando se entra no mundo dos quadrinhos, é comum ouvir que “Watchmen é a melhor HQ de todos os tempos”. Publicada pela DC Comics nos anos 1980, a saga modificou para sempre a indústria de quadrinhos ao experimentar novas formas de contar uma história madura e complexa. Estudada, analisada e revisitada desde seu lançamento, a revista ganhou um status cult que nem mesmo um de seus autores entende. Desenhista da HQ criada em parceria com Alan Moore, o desenhista Dave Gibbons revelou em entrevista ao Omelete que não esperava essa aclamação:

“Não estávamos procurando por fama eterna ou criar um trabalho incomparável, mas o fato de que ela é vista assim… Quem não se sentiria sortudo em um cenário como esses? Eu me sinto”, disse o artista que completa 72 anos nesta quarta-feira (14). “Sendo um fã de quadrinhos, me sinto realmente orgulhoso de ter feito algo em uma área que amo. Significa algo para outras pessoas e meio que mudou o curso dessa mídia. Acho que é algo que vai estar lá para sempre. Conseguimos um espacinho na história das histórias em quadrinhos”.

Foto de Dave Gibbons

Dave Gibbons em entrevista virtual ao Omelete

Divulgação/Omelete

Olhando em retrospectiva, é justo dizer que Watchmen foi o clímax da produtiva parceria com Alan Moore. O escritor, que também criou outros grandes clássicos como Batman: A Piada Mortal e V de Vingança, é tido para muitos como o maior roteirista da história dos quadrinhos. Demonstrando profunda admiração pelo colega, Gibbons relembra que ficou impressionado com o talento de Moore logo em seu primeiro trabalho juntos na HQ Choques Futuristas da editora britânica 2000 AD.

“Lembro que ao receber uma história de duas páginas do Alan pensei ‘isso é muito bom! Gosto de como esse cara pensa nas coisas, é brilhante’. Então fiz questão de receber mais roteiros dele para essas histórias e naquele ponto passei a gostar da complexidade dos textos e ele pensou ‘Dave pode desenhar qualquer coisa que eu pedir’, então a coisa ficou interessante”.

Felizes em trabalhar juntos, a dupla chegou a sugerir alguns projetos para a DC Comics, como novas HQs do Caçador de Marte e dos Desafiadores do Desconhecido. Porém, nenhuma das histórias foi para frente porque esses personagens já estavam prometidos para outras equipes. Em contrapartida, a DC então ofereceu a eles os personagens da Charlton Comics, editora recém-adquirida e dona de personagens como Besouro Azul, Pacificador e o Questão. Esse projeto, que viria a se tornar Watchmen, só foi possível porque Alan Moore já estava fazendo bonito com um outro personagem da casa:

“Pediram para Alan fazer sua versão dos personagens da Charlton após o enorme sucesso que ele atingiu ao reanimar o Monstro do Pântano. Ele pegou algo que estava realmente morto e tornou na mais maravilhosa reimaginação que já vimos. Pensei ‘uau, essa pode ser a chance de fazer algo complicado juntos para a DC’”.

O veto da DC Comics que tornou Watchmen um clássico absoluto

A dupla então arregaçou as mangas e começou a arquitetar uma história que imaginava como seriam os heróis da Charlton Comics no mundo real. O problema é que o tom e os rumos da história desagradaram a editora. “A DC decidiu que não queria que nós usássemos esses personagens, principalmente porque pretendemos matar pelo menos um deles e mostrar os outros como loucos ou psicóticos. Eles acharam melhor criarmos nossos próprios personagens”, ri Dave Gibbons.

Foi assim que o Questão se tornou Rorschach, Besouro Azul virou o Coruja, Pacificador mudou para Comediante e por aí vai. Curiosamente, essa restrição foi o que garantiu que Watchmen se tornasse a obra que tomou o mundo de assalto. “Foi absolutamente brilhante, porque pudemos costurar os personagens para que se encaixassem na história que queríamos contar. Não tínhamos de nos preocupar com continuidade, ou em mudar visuais criados por outras pessoas. Foi realmente importante”.

“É claro que houve muito trabalho duro, mas não me importo em trabalhar duro se for divertido. E era, porque os roteiros eram tão fantásticos que exigiam que eu desse o meu máximo, porque você não quer prejudicar um texto maravilhoso desses”. Relembrando esses dois anos de trabalho intenso, Gibbons volta a elogiar Moore, que também tinha a cabeça ocupada com outras HQs. “Ele ainda estava escrevendo Monstro do Pântano e várias das outras coisas que escreveu para a DC como A Piada Mortal. Sabe, ele estava dando o máximo e eu fico impressionado por ele ter conseguido. Para mim foi uma experiência criativa maravilhosa”.

O primeiro gostinho de sucesso

Dizer que Watchmen é uma obra prima e descrever a HQ com todos os elogios possíveis já é algo tão comum que se tornou um clichê. Mas é claro que as coisas nem sempre foram assim, e Dave Gibbons tem viva a memória de quando sentiu que tinha participado da criação de algo realmente especial. O artista admite que não se seduziu muito pelos primeiros feedbacks positivos que recebeu da DC, já que "os americanos são muito entusiasmados e positivos sobre tudo”. Mas a coisa mudou quando eles foram pessoalmente conhecer o escritório da editora:

“Conforme nós passávamos pelo corredor dava para ouvir um zumbido no ar do tipo ‘são eles, Alan e Dave chegaram’. Então todo mundo saía de seus escritórios para apertar nossas mãos e dar tapinhas nas costas dizendo ‘Watchmen é ótimo, é fantástico’. Alguns artistas que éramos fãs apareciam para dizer que era uma das melhores coisas que já tinham lido”.

Apesar do enorme orgulho, todos esses aplausos também colocaram mais pressão na dupla. “Até ali, Watchmen era apenas uma coisa que fizemos juntos nos divertindo. Mas quando as pessoas dizem ‘é a melhor coisa de todos os tempos’ você acaba pensando ‘ah Deus, nós precisamos continuar a fazer a melhor coisa de todos os tempos por mais nove edições’. Foi um pouco intimidador. Não mudaria nada, mas foi um pouco assustador”.

“Continuar Watchmen seria como explicar uma piada”

Publicada em doze edições, Watchmen é uma história completa que deixa poucos ganchos para derivados e continuações já que a publicação explora o passado desse universo e entrega um final satisfatório para seus personagens. Gibbons explica que mesmo tendo discutido a possibilidade de uma continuação, ele e Moore desistiram da ideia rapidamente. “Nós conversamos sobre isso até perceber que não era uma boa ideia”, afirma.

Essa decisão permaneceu assim por parte de seus autores, mas não pela DC Comics. Em 2012 a editora lançou o projeto Antes de Watchmen, minisséries que contam novas histórias dos personagens apresentados na HQ original. O projeto causou a ira de Alan Moore, que recusou cerca de 2 milhões de dólares para dar sua benção e ainda pediu para que os leitores desses quadrinhos nunca mais leiam suas obras. Mesmo que de forma mais branda, Gibbons também não é muito fã da ideia:

“Por muitos anos, um quarto de século, a DC honrou nossos desejos de não fazer mais nada com Watchmen. Então decidiram que queriam fazer algo com isso, e eu entendo. Mas preferia que não tivessem”, afirmou. A razão para ele, é que ao mexer nessa história é mais provável que alguns de seus elementos sejam diluídos ao invés de adicionar novas camadas. “Acaba sendo como explicar uma piada”.

“Sobre as sequências e prelúdios, eu não os li. Apenas folheei alguns deles. Todos têm ótimos artistas que são amigos meus e não desejo mal a eles. Quer dizer, eles são livres para trabalhar no que quiserem, mas eu pessoalmente não estaria interessado em uma extensão disso em HQ”, concluiu.

Watchmen no cinema e na TV? Uma boa pedida

Se por um lado as HQs que ampliam o universo de Watchmen não agradaram a Dave Gibbons, o cinema e a TV são casos diferentes. Lançado em 2009, o filme de Zack Snyderdeixou uma boa impressão no desenhista. “Acho que é um filme muito bom, eles fizeram o melhor que podiam ali”. Porém, sua grande alegria veio da premiada minissérie da HBOlançada em 2019. Após algumas reuniões com o criador Damon Lindelof, que lhe explicou toda a ideia da série e garantiu reverência ao material original, Gibbons foi fisgado de vez ao assistir uma prévia da série:

“Explodiu minha cabeça! Admirei a dedicação que foi colocada ali e que Damon Lindelof sabia como contar essa história. É completamente fiel à HQ e então se torna outra coisa. Acho que como ganhou muitos prêmios, foi um sucesso enorme mesmo entre quem não era fã”. Orgulhoso do resultado final, Gibbons também celebrou a decisão de Lindelof de encerrar a série em sua primeira temporada. “Levou nove episódios e depois disso ele se afastou, assim como Alan e eu fizemos doze capítulos e nos afastamos”.

Por fim, Dave Gibbons deu seu veredito final sobre as várias versões de sua maior criação: “Mais quadrinhos de Watchmen? Não, obrigado. Filme? Claro, por que não? Série de TV? Surpresa enorme, meus parabéns”.

Montagem com imagens do filme e da série de Watchmen
Divulgação/Warner Bros.;Divulgação/HBO

Sobre a coluna:

O Banca de HQs é um projeto do Omelete criado por Gabriel Avila, Nicolaos Garófalo e Load Comics, com o objetivo de falar mais sobre o universo dos quadrinhos, desde os grandes clássicos, passando por artistas independentes e novidades desse meio. Após uma primeira temporada na Twitch, o Banca segue no Omelete com entrevistas, reportagens e análises semanais de tudo o que faz parte do universo dos quadrinhos.

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