Naruto no Brasil, uma febre que superou Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball?

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Naruto no Brasil, uma febre que superou Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball?

Com seu rosto estampado em camisetas e em skins de jogos eletrônicos, o ninja Naruto é um dos mais longevos fenômenos dos animes no Brasil

Fábio Garcia
24.11.2021
10h11

Se perguntar “sabe quem é Seiya de Pégaso?” para qualquer pessoa na rua, é preciso um pouco de sorte para encontrar uma resposta positiva. Fenômeno no começo dos anos 90, o defensor de Atena é mais lembrado por quem tem mais alguns anos nas costas e viveu os lançamentos do anime que ocorreram há algumas décadas. Porém, se a sua pergunta for “quem é Naruto?”, é possível você descobrir que um outro anime pode ter tomado o posto de embaixador da cultura otaku no Brasil.

Você nem precisa abordar pessoas pela rua, é só prestar atenção ao seu redor. Naruto estampa camisetas, ganhou skin e uma reprodução da Vila da Folha no Fortnite e ainda aparece em rankings de animes mais vistos em serviços de streaming. Naruto pode não ter exibição na TV e nem tem episódios inéditos sendo lançados, mas tem o que é mais importante: o povo.

A construção de um fenômeno

Durante muito tempo, para um anime ser considerado um fenômeno no Brasil eram necessárias algumas características importantes, entre elas a exibição em televisão aberta, produtos nas lojas e reconhecimento pelas pessoas que não acompanhavam a obra. A fama desses animes ultrapassava o público alvo, e seus personagens eram identificados por nome entre qualquer pessoa minimamente antenada. Entre os sortudos que conquistaram esse status no Brasil estão Os Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball, Pokemon, Yu-Gi-Oh! e Naruto, mas a trajetória de sucesso deste último sempre pareceu fora da curva.

Embora o anime de Naruto tenha estreado em 2002 no Japão, a série só foi chegar ao Brasil cinco anos depois através do Cartoon Network. Na época, a Viz Media havia tomado para si a responsabilidade de adaptar o anime para o ocidente, traduzindo letreiros, editando cenas violentas e padronizando termos e dublagens. O desafio era grande, afinal havia o receio de queimar o produto tal qual aconteceu quando a 4Kids realizou uma adaptação desastrosa de One Piece.

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Naruto chegou oficialmente ao Brasil em 2007, em várias frentes. Enquanto o anime era exibido na TV paga pelo Cartoon Network, a editora Panini começou a publicar a versão em quadrinhos. No mesmo ano, para potencializar ainda mais o sucesso, o ninja apareceu na programação infantil do SBT dentro do Bom Dia & Cia. Rapidamente as bandanas e jutsus começaram a ganhar destaque nas prateleiras de produtos, indo de bonequinhos a canetas marca-texto com o ninja estampado, e boa parte da série ainda foi lançada no mercado de home-vídeo pela PlayArte. Todo mundo apostou muito em Naruto e a repercussão entre o público alvo era imensa. Se anos antes um monte de revistas informativas colocavam Goku e seus amigos na capa para atrair a atenção dos leitores, essa era a época que vários Narutos dominavam as revistas especializadas.

O caminho lógico para esse fenômeno seria as emissoras trazerem mais e mais episódios do anime ao país, certo? Os Cavaleiros do Zodíaco nos anos 1990 havia esbarrado na falta de novos episódios para prolongar a febre no país, a ponto da Manchete ir atrás de séries clones” como Shurato ou Samurai Warriors, mas Naruto tinha o benefício de ainda estar em exibição no Japão. Centenas de histórias, ainda que algumas fossem fillers, estavam ali no Japão e era só trazer tudo para o público se manter vendo Naruto, mas a coisa não funcionou assim.

Episódios inéditos de Naruto foram chegando num ritmo insuficiente para saciar o desejo do público. Após reprisar exaustivamente as batalhas do exame Chuunin, o SBT foi trazer uma nova leva de Naruto dois anos depois da estreia, em 2009, e nunca chegou a terminar a fase criança. O Cartoon Network teve mais sorte e ao menos concluiu a primeira fase, porém em horários mais discretos na grade até o fim em 2011.

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A partir dali, os lançamentos oficiais envolvendo Naruto foram ficando mais espaçados. A continuação Naruto Shippuden teve parte de seus episódios dublados e contou com lançamento em DVD e exibição no canal pago PlayTV, o último longa-metragem do personagem teve um lançamento relâmpago nos cinemas (mesmo sem a série ter sido exibida por completo aqui) e o quarto game da série Naruto Ultimate Ninja teve o mérito de ser um dos poucos jogos baseados em anime a ganhar uma dublagem em português no Brasil, uma façanha inédita até hoje para franquias gigantes como Dragon Ball. Mesmo assim, faltava que a série fosse mais acessível ao público alvo.

Narrar essa trajetória de como Naruto foi se afastando da mídia parece uma história de franquia cuja febre foi diminuindo, mas não é o caso. Assim como Rock Lee não teve medo de enfrentar Gaara, o futuro hokage conseguiu enfrentar o maior inimigo de um anime no Brasil, a ausência da televisão, de seu próprio modo.

Mesmo sem TV, ainda um fenômeno

Séries como Os Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball viraram fenômenos no Brasil não só por suas qualidades, mas também graças à exibição na TV aberta. Expostos em emissoras disponíveis em quase todo o território nacional, os animes serviam de vitrine para interessados em vender qualquer produto com o rosto dos heróis. Seja nos anos 1990 na Rede Manchete ou nos anos 2000 em seu relançamento na Band, o compromisso de Os Cavaleiros do Zodíaco na televisão não era com a história de Masami Kurumada, e sim com a venda de bonecos articulados e demais produtos com Seiya na embalagem, de balas a camisetas.

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Porém, com o passar do tempo, a programação para crianças no Brasil sofreu um baque com a regulação de propaganda infantil. Impossibilitadas de exibirem propagandas para esse público, as emissoras foram aos poucos cortando seus programas infantis e os substituindo por atrações que ofereciam mais possibilidades mercadológicas. A lógica é simples: Seiya e Goku não podem vender presunto, mas a Fátima Bernardes pode.

Naruto em especial ainda teve um agravante nesse processo de extinção da programação infantil. Embora seja destinada a adolescentes, o anime contém muitas cenas de violência explícita que rendiam dor de cabeça para as emissoras. O próprio SBT precisou eliminar algumas cenas de Naruto para não ter problemas com a classificação indicativa que, a qualquer momento, poderia proibir a exibição do anime em suas manhãs. Por todos esses problemas, uma terceira leva de episódios nunca chegou à TV aberta.

Se Naruto teve sua exibição minada na televisão há quase 10 anos, como pode estar tão em evidência até hoje? O personagem continua ganhando produtos licenciados, brinquedos, e recentemente a produção japonesa derrotou o Big Brother Brasil e o filme Cruella na disputa por melhor Marca Jovem/Adulta na Licensing Con de 2021. O que explica crianças pequenas de hoje em dia, que nem ao menos eram nascidas na exibição do SBT, brincarem com jutsus de mentirinha? Para tentar descobrir esse mistério, foi necessário conversar com alguém que estivesse por trás de todo o processo de licenciamento no Brasil, a empresa Angelotti Licensing.

Sucesso de licenciamento

Enquanto Naruto brilha nas prateleiras das lojas, existe uma empresa que está atrás dando o suporte para que os fãs recebam cada vez mais produtos de seus personagens favoritos. A Angelotti Licensing trabalha há muitos anos nesse segmento e é responsável por licenciar animes queridos pelos brasileiros como Os Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball, Sailor Moon, One Piece e, claro, todas as séries de Naruto.

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Uma agência de licenciamento cuida de séries, marcas e personagens, e o trabalho é fazer o planejamento e representação das marcas dos animes no Brasil. Cuidando da empresa está Luiz Angelotti, que atua com animes nessa área desde 1999, ou seja, já passou por parte das grandes “febres” de anime no Brasil. Angelotti trabalhou com Naruto em dois momentos de sua carreira, primeiro quando a série estava com exibição no Cartoon Network e SBT e, posteriormente, retomou com a marca a partir de 2017 com o objetivo de “reintroduzir” o ninja no Brasil.

No meio do jogo, a Angelotti Licensing precisou compreender que o que fazia uma série ser famosa no Brasil já não era apenas uma exibição na TV Globinho: "Antigamente no licenciamento a empresa perguntava se o anime estava na Globo. Hoje em dia perguntam se está no streaming, e redes sociais também são importantes", explicou Angelotti. Ou seja, quando todo mundo vai às redes para debater algum acontecimento recente no mangá de Boruto ou elogiar algum trecho de animação novo, tudo isso conta como pontos para o anime em questão. Mas isso não quer dizer que a TV aberta deixou de ser um elemento importante: "a TV aberta se faz necessária para você ter uma abrangência maior", esclarece.

Perguntado como anda a recepção da marca Naruto nas empresas brasileiras que buscam vender produtos licenciados, a resposta parece positiva: "Naruto está vendendo bem em todas as empresas que temos licenciadas", com destaque para as marcas de vestuário. Por trás de todas essas vendas, há dois públicos em especial: primeiramente encontramos os nostálgicos, que viram Naruto quando eram mais novos e hoje em dia têm um carinho afetivo com os ninjas da Vila da Folha. Além dessa parcela, há também um público de 6 a 12 anos que está descobrindo Naruto agora graças ao streaming e que vai atrás dos produtos da série. E Naruto ainda tem um potencial a ser desbravado, segundo o responsável pela Angelotti Licensing, afinal boa parte da série Naruto Shippuden não se encontra dublada para o português ainda: “Imagina o universo que existe ainda pra gente trabalhar com esse novo público que não conhece”.

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No meio do bate papo sobre o sucesso de Naruto, me vi obrigado a fazer uma daquelas questões mais complicadas. Como a Angelotti Licensing é a responsável por outras febres do passado como Os Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball, perguntei se o sucesso de Naruto é maior que essas outras citadas. Tal qual um pai que se recusa a falar sobre seu filho favorito, Angelotti tentou demonstrar que coração de mãe sempre cabe mais um: "São situações diferentes. Se formos analisar hoje, fazendo a comparação, Naruto é o primeiro em consumo e tudo mais. Mas nós já tivemos Os Cavaleiros do Zodíaco como sendo a marca número 1 no Brasil lá nos anos 1990. Foi um fenômeno, e depois em 2003 ele voltou vendendo muito bem, assim como Dragon Ball no começo dos anos 2000 foi um fenômeno também. São marcas com potencial muito grande. Não dá pra comparar um com o outro pois foram momentos diferentes, mas os três têm uma pegada muito forte”.

Sendo comparável ou não, Naruto está oferecendo muitas possibilidades para o futuro. Além de mais produtos com o rosto dos principais personagens do Time 7, há planos também para incluir Boruto em produtos previstos para o começo de 2022. Além de seu filho, Naruto ainda está abrindo portas para um outro anime queridinho das empresas. Sucesso no streaming após uma exibição censurada no SBT e Cartoon Network, One Piece está cada vez mais forte e deve ser o próximo anime a ganhar oportunidades no Brasil.

Naruto é ruim?

Às vezes temos a impressão que febre de anime mesmo foi Os Cavaleiros do Zodíaco por conta de uma visão mais nostálgica, mas Naruto já entrou na cultura popular brasileira. Mesmo sem anime na televisão tivemos reuniões de pessoas praticando a “corrida Naruto” em cidades do Brasil, cosplayers aparecendo em rede nacional durante a cobertura da Olimpíada de Tóquio e até mesmo Ana Maria Braga, uma das maiores apresentadoras do país, pintando o cabelo de rosa em homenagem à Sakura Haruno. Isso porque nem citei quando ela não começou o programa mandando um “Haruka Kanata” pesadão às nove da manhã. O tamanho das febres pode não ser comparável, mas a longevidade é nítida: Naruto se mantém forte e relevante dentro e fora do cenário otaku há mais de dez anos graças à força da própria série, seja com exibições oficiais ou alternativas.

É bastante comum hoje em dia criticar Naruto olhando a série como um todo. Seu final decepcionou muita gente, o anime é desnecessariamente arrastado e o autor tem dificuldades de trabalhar com muitos personagens, mas não podemos esquecer os pontos positivos da franquia. Enquanto Os Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball contam com animações mais datadas e que necessitam de novas versões (Knights of the Zodiac e Dragon Ball Super) para atrair um público mais novo, o anime clássico de Naruto tem ainda hoje um ritmo mais próximo dos animes atuais. A história tem momentos empolgantes, personagens carismáticos e cenas de luta que ficaram imortalizadas em clipes AMV na internet.

Esse texto não tem como objetivo menosprezar a importância de Os Cavaleiros do Zodíaco ou Dragon Ball na memória afetiva dos brasileiros, esses dois animes continuam intactos no seu coração, mas sim mostrar que existe um outro anime que conquistou feitos impressionantes em um cenário pouco favorável. Se Naruto conseguiu tudo isso sem passar na televisão e sem ter todos os seus episódios dublados, isso só mostra o quanto ele é gigante e que merece reverência. Devemos sim respeitar o Narutinho.

Onde assistir?

Se por algum motivo você nunca assistiu a Naruto, ou mesmo se quiser rever o anime, há muitas possibilidades. A série clássica está completa na Netflix e na Crunchyroll, com todos os episódios dublados e legendados. Naruto ainda tem um canal próprio na Pluto TV com exibição contínua dos episódios sem parar.

Por sua vez, Naruto Shippuden está parcialmente dublado na Netflix e Crunchyroll. Os demais episódios, todos legendados, fazem parte do catálogo da Crunchyroll, que também tem a exibição simultânea da continuação Boruto: Naruto Next Generation (com legenda apenas).

O mangá de Naruto foi republicado duas vezes no Brasil pela editora Panini e atualmente ganhou uma reimpressão. A editora também vem lançando a versão em quadrinhos de Boruto.

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