Como Attack on Titan se tornou o "Game of Thrones dos otakus"

Créditos da imagem: Attack on Titan/Divulgação Game of Thrones/Divulgação

Mangás e Animes

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Como Attack on Titan se tornou o "Game of Thrones dos otakus"

Campeão de discussões e memes envolvendo pombos, Attack on Titan é o mais próximo que um anime chegou do impacto de um Game of Thrones

Omelete
8 min de leitura
Fábio Garcia
31.03.2022, às 11H02

Attack on Titan, ou Shingeki no Kyoujin caso prefira o nome original, alcançou um status invejado por outros animes. A obra de Hajime Isayama furou a bolha do nicho e se transformou em um sucesso não só entre os otakus, mas também entre o público que gosta de uma boa narrativa cheia de reviravoltas. Não é errado falar que Attack on Titan é o Game of Thrones dos fãs de anime, e a forma como ele atingiu esse patamar é uma mistura de competência dos envolvidos e um pouco de sorte de estar no lugar certo e na hora certa.

A ascensão dos titãs

A história dos bastidores de Attack on Titan é composta por uma sucessão de histórias curiosas que poderiam ter tido um outro resultado se uma outra rota tivesse sido escolhida pelo protagonista. Hajime Isayama, o astro dessa trama por trás das cortinas, decidiu se transformar em um autor de mangá e entrou em contato com a Shueisha, a editora japonesa dos maiores sucessos editoriais das últimas décadas. A escolha se deu principalmente por memória afetiva, afinal desde criança Isayama era aficionado pela revista Shonen Jump e agora queria fazer parte desse rol de artistas que já contou com nomes como Akira Toriyama (Dragon Ball), Masami Kurumada (Os Cavaleiros do Zodíaco) e Hirohiko Araki (Jojo’s Bizarre Adventure).

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Infelizmente o estilo mais “rústico” do desenho de Isayama (às vezes sem muita proporção) e suas temáticas mais “pesadas” foram consideradas pouco adequadas para o conteúdo da Shonen Jump, e o editor orientou o artista a mudar seu estilo. Privilegiando sua arte, o autor recusou a oferta e partiu para a Kodansha, editora concorrente da Shueisha, em busca de uma oportunidade de trabalhar como mangaká. O criador de Attack on Titan inscreveu histórias de capítulo único em algumas competições de novatos da Shonen Magazine semanal, e conseguiu bons resultados em suas empreitadas. Com a aprovação da equipe editorial da Kodansha, que não viu problema no estilo de Isayama, em 2009 ele começou a publicar seu maior sucesso nas páginas da Bessatsu Shonen Magazine.

A Bessatsu Shonen Magazine é um braço da Shonen Magazine semanal, que no caso é a revista de maior importância da editora. A grande diferença da Bessatsu é o fato de sua periodicidade ser mensal, ou seja, os capítulos de seus mangás são lançados a cada 30 dias, e não 7 como na Shonen Magazine tradicional. Assim como a versão mensal da Shonen Magazine (cujas páginas trazem mangás como Noragami, Welcome to Ballroom e outros), a Bessatsu Shonen Magazine também faz parte da demografia shonen, tendo suas histórias direcionadas para o público adolescente masculino. Temos histórias famosas publicadas dentro da Bessatsu, como A Heroica Lenda de Arslan, I'm Standing on a Million Lives e Orient.

Levou um tempo para Attack on Titan se firmar como um titã (trocadilho não-proposital) entre as séries da Bessatsu, até porque a periodicidade mensal faz com que as histórias da revista se desenvolvam de forma mais lenta. Para se ter uma ideia, levou cerca de um ano para a história introduzir um dos principais elementos da história tradicional, o fato do Eren conseguir se transformar em um titã com consciência. Passada essa longa “introdução” nas páginas da Bessatsu, Isayama disparou como se fosse a Divisão de Reconhecimento saindo das muralhas, agraciado com vários prêmios como o de melhor mangá shonen no Kodansha Manga Awards de 2011 (categoria já vencida por grandes nomes como Great Teacher Onizuka e Love Hina). No ano seguinte a Kodansha anunciou que Attack on Titan ganharia um anime através do Wit Studio, e a partir daí o que aconteceu é História.

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O Game of Thrones otaku

Embora cada fenômeno precise ser analisado separadamente, o sucesso de Demon Slayer não é tão parecido com o de Attack on Titan. Mas há muita similaridade em como Game of Thrones conquistou o público e a forma como o anime dos titãs se tornou em um fenômeno cultural em pouco menos de 10 anos.

Criado por George R. R. Martin e adaptado pela dupla David Benioff e Daniel Brett Weiss, Game of Thrones foi o último grande fenômeno das séries. Em seus 73 episódios divididos em 8 temporadas, a produção da HBO viu não só os números de audiência aumentando a cada nova leva de episódios, mas também a repercussão gigantesca nas redes sociais.

O mundo praticamente parava a cada domingo para acompanhar o desenrolar da aventura em direção a um desfecho inédito na versão em livro. Minutos após o término de cada episódio a internet era tomada por críticas, análises, memes, previsões e todo tipo de material que alimentava a fama da própria série e atraía mais gente para o mundo de Game of Thrones. Nem mesmo o final controverso afetou a saga de John Snow, e até hoje a série é bastante conceituada entre os fãs.

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Essa descrição do parágrafo acima não é muito diferente de como Attack on Titan mobilizou seus fãs nos últimos anos: a cada semana os fãs e produtores de conteúdo se debruçam em cima do novo episódio e o esmiúçam atrás de novas informações, curiosidades e memes. E as semelhanças não ficam só aí no campo da repercussão. Assim como Game of Thrones, Attack on Titan teve sua primeira temporada exibida enquanto a história original ainda era desenvolvida pelo autor, permitindo um debate entre os fãs sobre os rumos da trama.

Após o sucesso dos 25 capítulos da primeira temporada em 2013, os fãs de Eren e os outros precisaram esperar até 2017 para o Wit Studio ter capítulos o suficiente no mangá para a produção de uma continuação. A demora acima do normal mesmo para o mundo dos animes acabou ajudando a produção, pois isso deu tempo para que a série se espalhasse naturalmente no boca a boca e mais pessoas assistissem ao começo da história, fenômeno também compartilhado com Game of Thrones. As pessoas ficaram ávidas por mais Attack on Titan.

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A partir deste ponto, tivemos uma produção constante de Attack on Titan todos os anos, mas com temporadas mais curtas. A 3ª leva de histórias foi dividida em duas metades com 12 e 10 episódios, já a quarta temporada continua um grande mistério: embora tenha "the final season" (temporada final) escancarado no título, até o momento a trama já teve duas mini-temporadas totalizando 28 episódios e sem qualquer previsão de alcançar o “final” da história do mangá.

Mortes e reviravoltas

Detalhes de produção à parte, a maior semelhança entre Attack on Titan e Game of Thrones é como as duas séries compartilham elementos de roteiro que fazem sucesso na atualidade. O roteiro de ambas é apoiado nos mesmos três pilares: ambientação de fantasia mais adulta com discussão/alegoria política (mesmo que bastante destrambelhada em Attack on Titan), mortes de personagens importantes e muitas (mas muitas mesmo) reviravoltas.

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Assim como acontece com One Piece, Attack on Titan se beneficia da discussão constante dos fãs a respeito de seus rumos. Isayama plantou vários pequenos mistérios no começo da história e foi desenrolando o novelo de lã lentamente, conquistando a atenção de quem queria saber a origem dos titãs ou o que o pai do Eren havia escondido naquele maldito porão. Como resultado, a série conseguiu transformar qualquer pequena revelação em um grande acontecimento, gerando mais discussão na internet e, consequentemente, mais divulgação boca a boca para a série.

E nem mesmo a existência de um final no mangá impede que debates sejam feitos com os rumos da história, porque o final original criado por Isayama para a versão em quadrinhos desagradou tanta gente que muitos agora estão curiosos em saber como o estúdio de animação (agora o MAPPA) vai “consertar” o desfecho problemático. E vamos lembrar que, embora o final seja de conhecimento notório dos otakus bom informados, Attack on Titan furou a bolha e atingiu um público que está alheio ao nicho e mal sabe dos memes comparando o Eren a um pombo.

Podemos criticar qualquer elemento da história de Attack on Titan, assim como é possível reclamar de vários pontos de Game of Thrones, mas não podemos menosprezar o impacto cultural que elas criaram. Como se entendessem exatamente o espírito do tempo presente, ambas as séries conseguiram com uma história fantasiosa forjar uma forte ligação com os espectadores e cultivar uma multidão de aficionados por suas histórias novelescas e cheias de mudanças bruscas (e propositais) no roteiro Estamos em uma época que os fãs não buscam somente consumir o conteúdo, mas também discuti-lo. Somando isso a uma busca por histórias mais “pesada” por parte dos espectadores, a estrutura de Attack on Titan parece cair como uma luva para o atual modelo de consumo de séries e anime.

Não se sabe quanto tempo até termos uma outra série que consiga replicar essa capacidade de mobilização e discussão de Attack on Titan, mas temos alguns candidatos promissores como Ranking of Kings, coincidentemente do mesmo Wit Studio das três primeiras temporadas dos titãs, embora este anime esbarre no choque inicial por causa de seu visual falsamente “fofinho”. Mas quem sabe o príncipe Bojji não se torna o novo Eren agora que o anime alcançou o mangá e precisaremos esperar muito tempo até sair uma segunda temporada de Ranking of Kings?

Gosta de Game of Thrones e ficou curioso com Attack on Titan? O anime está disponível por completo na Crunchyroll, com dublagem em português e legendas. Os capítulos inéditos são lançados aos domingos, poucas horas após a exibição no Japão, mas até a publicação desta matéria não há previsão de como a história será concluída. Já a versão em quadrinhos foi lançada pela Panini com o nome Ataque dos Titãs, completa em 34 volumes.

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