House of Ashur retoma Spartacus como se 10 anos não tivessem passado
Nick E. Tarabay ancora esta continuação bem-vinda da série do MGM+
Créditos da imagem: Nick E. Tarabay em cena de Spartacus: House of Ashur (Reprodução)
Que espécie curiosa de “continuação” é Spartacus: House of Ashur. Chegando ao catálogo do MGM+ 12 anos após o fim da série original, que cobriu com oscilante precisão histórica a revolta servil liderada pelo personagem título (famosamente narrada no livro de 1951 de Howard Fast, e depois no filme de 1960 de Stanley Kubrick), a produção rejeita a ideia de ser uma sequência direta, com ou sem pulo temporal, e rejeita também o recomeço limpo de um reboot ou um remake. Ela é, ao invés disso… um “e se”.
A nova Spartacus, veja só, começa com o vilanesco Ashur (Nick E. Tarabay) – um ex-escravo de origem síria que, no final da terceira temporada da série original, foi decapitado por uma mulher que havia estuprado – acordando no submundo. Por lá, ele é confrontado por Lucretia (Lucy Lawless), outra de suas vítimas, que lhe provoca com um exercício cruel: você gostaria de ver, Ashur, o que teria acontecido se você tivesse vencido a rebelião de Spartacus e ganhasse título nobre por isso?
O que se segue é justamente o prometido por essa interação do além-túmulo. Sob o guiso de imaginar um outro rumo para a sua história, o roteirista Steven S. DeKnight encontra a oportunidade de submergir de novo, sem muita cerimônia, em um mundo que ele preencheu com peculiaridades quando o inventou. Não é à toa, por exemplo, que os diálogos da série, entoados em uma distorção meio poética do inglês moderno (DeKnight professa que suas inspirações são William Shakespeare e Edgar Rice Burroughs), são meme na comunidade de fãs até hoje – não há nada exatamente como Spartacus, desde que Spartacus acabou.
A oratória é só a ponta do iceberg, e os primeiros episódios de House of Ashur deixam claro que DeKnight não quis voltar para ficar na superfície. Vide as cenas na arena de gladiadores, realizadas com uma junção tensa de violência hiper estilizada (nenhum corte nunca sangrou tão profusamente quanto sangra em Spartacus) e uso indiscriminado de figurantes de CGI (todos eles emulando um frenesi catártico e meio nojento diante das cenas apresentadas na areia). Vide também o uso liberal do sexo como moeda de troca, estratagema político, na junção do desejo carnal com a ambição de um bom escalador social – como Ashur sempre foi, inclusive.
Esta é, enfim, basicamente a mesma série, até tematicamente. Como Spartacus, House of Ashur é fascinada pelas áxis nas quais giram as lealdades do ser humano. Os caminhos que ela gosta de desenhar são os caminhos que levam um homem que um dia foi servo gentil a se tornar revolucionário violento. Nobre prestigiado a persona non-grata, aplauso ensurdecedor a vaia vexatória, e por aí vai. Na Roma Antiga de DeKnight, o mundo não gira – ele capota!
Nesse sentido, centrar tudo em Ashur foi obviamente uma escolha esperta (para ninguém o mundo capotou mais do que para ele), e Nick E. Tarabay mostra aqui que segue sendo cada gota do performer intenso e carismático que foi revelado ao público lá em 2010. A epítome do personagem que odiamos odiar, mas não conseguimos parar de assistir. É uma âncora forte para uma dramaturgia forte, que se torna ainda mais pelo fato de termos abandonado tanto do que ela representa nos doze anos em que ela esteve ausente.