Imagem de His Dark Materials

Créditos da imagem: His Dark Materials/HBO/Divulgação

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His Dark Materials acaba com a inocência em episódio que corrige problemas

Série termina com amadurecimento de Lyra e emoção com Roger

Camila Sousa
26.12.2019
10h08

A primeira temporada de His Dark Materials chegou ao seu aguardado final e, felizmente, corrigiu parte de alguns tropeços da temporada. Focando no fim da inocência de Lyra (Dafne Keen) e nos verdadeiros objetivos de Lord Asriel (James McAvoy), o capítulo foi denso na medida certa e muito emocionante.

[Spoilers de “Betrayal” abaixo]

A trama começa exatamente onde terminou o capítulo anterior: o Magisterium está indo em busca de Lord Asriel, enquanto este se prepara para colocar seu plano em prática. A trilha sonora da cena inicial é tensa, indicando que algo grandioso depende do que será decidido ali.

Mas antes do clímax da temporada, há uma cena lindamente executada por Keen e McAvoy, quando Lyra aborda o pai e procura afeto nele. Além de salvar Roger (Lewin Lloyd), todo o caminho da garota até ali foi também para encontrar o pai e entregar o aletiômetro a ele. Ela sorri de leve quando o vê, mas o que recebe em troca é um homem frio, que se esquiva no momento em que percebe que suas emoções podem vir à tona. Não que Asriel não tenha sentimentos, mas ele os reprime, algo que McAvoy representa muito bem com um olhar marejado e a expressão dura. Keen também vai muito bem na cena, diferente do que aconteceu em trechos de outros episódios. Novamente, a atriz entrega muito mais quando está atuando ao lado de outros atores, do que quando fala com personagens digitais.

O diálogo entre pai e filha se repete mais uma vez no episódio, servindo agora como uma sequência explicativa. Asriel revela finalmente que, além de derrubar o Magisterium, ele pretende encontrar a Autoridade em si e questioná-la sobre tudo o que foi ensinado naquele mundo até então. O Pó realmente é fonte do pecado? Ou isso só foi dito para que a instituição pudesse controlar as pessoas? Asriel não tem certeza de nada, mas quer descobrir tudo. Há, inclusive, um ponto muito interessante em sua fala, quando ele diz que o Magisterium faz todos acreditarem que já nascem culpados pela maçã que Eva comeu no Paraíso. Tal ponto é importante porque representa o cerne de Fronteiras do Universo. Por trás de animais falantes e ursos gigantes, há uma discussão poderosa sobre crenças e divindades, que começa a tomar mais corpo a partir de agora na série de TV.

Essa explicação por si só já é uma correção interessante em comparação com o resto da temporada. His Dark Materials escolheu desenvolver sua história aos poucos e, apesar de isso criar mais tempo de tela para expor certos assuntos, a série teve dificuldades em explicar detalhes importantes, especialmente para quem não leu os livros. Qual é o objetivo de Asriel? O que o Pó realmente significa? Por que a substância é demonizada pelo Magisterium? Tudo isso é respondido nesta sequência com Lyra e Asriel que, apesar de bem executada pelos atores, é muito expositiva. Ao invés de guardar tudo isso para o final, a série poderia ter desenvolvido melhor esses conceitos durante os episódios.

Outro ponto que serve como uma espécie de correção é a relação de Lyra com seu daemon, Pan. Ao relembrar os acontecimentos em Bolvangar, a voz da protagonista falha ao imaginar como seria sua vida sem o daemon. Isso mostra uma ligação profunda entre eles que, infelizmente, não foi mostrada na cena original. Quando é libertada da cela em que estava, Lyra não corre para Pan e o abraça - como seria esperado de alguém que quase foi separado de sua alma. Seu interesse reside na Sra. Coulter, enquanto Pan sai de sua cela sozinho. Ao expor que ficou apavorada em perder seu companheiro de vida, Lyra corrige em partes uma cena que deveria ter sido muito mais poderosa.

O episódio termina com a já adiantada traição do título. Asriel engana Roger e leva o garoto para ser separado de sua daemon. O objetivo do Lord é usar a força resultante deste processo como um catalisador para abrir uma fenda entre mundos. É um trecho muito intenso e triste. Lyra se sente culpada pelo que acontece, mas, acima de tudo, a tristeza de Roger é pulsante e remete a algo já citado nesta temporada: como as crianças de His Dark Materials sofrem em prol dos planos dos adultos. O garoto não sobrevive ao processo e morre ainda com uma lágrima escorrendo de seu rosto. É doloroso ver a partida de uma criança de uma forma tão cruel. Com toda essa tristeza no coração, somada ao desprezo que sofreu pelo pai, Lyra resolve deixar esse mundo com uma mensagem muito bonita. Ela se questiona ao lado de Pan se essa é a coisa certa a fazer, já que os dois estarão sozinhos depois daquela fenda. E a resposta dele não poderia ser mais certeira: nós sempre estivemos sozinhos.

Em comparação com os episódios recentes de His Dark Materials, “Betrayal” entregou exatamente o que prometeu e não decepcionou. Além de ter coragem de mostrar a violência contra Roger, o seriado finalmente deixou claro qual é sua discussão. Assim como Lyra, His Dark Materials precisa amadurecer na segunda temporada e resta aos fãs torcer para que a HBO/BBC corrija certos pontos que, apesar de não serem tão grandes, fazem uma grande diferença no final.