Foto de His Dark Materials

Créditos da imagem: His Dark Materials/HBO/Divulgação

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His Dark Materials tem potencial para ser mais do que a próxima Game of Thrones

Série começa sem pressa e aposta em muito mistério em episódio de estreia

Camila Sousa
04.11.2019
19h03
Atualizada em
05.11.2019
12h53
Atualizada em 05.11.2019 às 12h53

Adaptar séries literárias de sucesso para o cinema e a TV é uma tarefa complexa. Embora as produtoras tenham uma base de fãs já formada por aqueles que leram os livros, é sempre um desafio colocar em tela personagens e mundos já imaginados antes. A franquia Fronteiras do Universo, que começa com o livro A Bússola de Ouro, sofreu com isso em sua primeira versão live-action, que chegou aos cinemas em 2007. Embora o longa não seja completamente ruim, sua visão lúdica para o universo de Philip Pullman não rendeu o esperado e a sequência nunca foi feita. Agora, a HBO/BBC chega com a responsabilidade de fazer uma adaptação à altura com a série His Dark Materials.

Se o longa com Nicole Kidman e Daniel Craig tinha em suas costas o peso de ser “o novo Harry Potter”, a série também estreia com grandes expectativas, principalmente de ser a “próxima Game of Thrones”. E a resposta para essa questão é que, sim, muitos admiradores da história de George R.R. Martin podem encontrar em His Dark Materials elementos familiares, mas a grandiosidade do universo criado pelo autor vai muito além disso.

Estrelada por Dafne Keen, a X-23 de Logan, a série começa mostrando a realidade de Lyra, uma jovem órfã criada na universidade de Oxford. Sem economizar em planos abertos da propriedade, a série faz questão de mostrar o quanto a protagonista é esperta e independente, transitando por todos os lugares ao lado de seu daemon, Pantalaimon. O visual da série, aliás, é um ponto que merece destaque. Desde os figurinos de personagens icônicos, como Lord Asriel (James McAvoy), até as grandes bibliotecas da universidade, tudo é feito com capricho e ajuda na imersão do público que está começando a explorar aqueles lugares.

[Cuidado com spoilers leves abaixo]

O desenvolvimento do primeiro episódio deixa claro que a HBO contará a história de His Dark Materials sem pressa. Há sim a apresentação de pontos importantes, como a descoberta que Lord Asriel faz no extremo norte e choca os membros do Magisterium; a entrega da famosa Bússola de Ouro para Lyra e apresentação de Marisa Coulter, a misteriosa personagem de Ruth Wilson. Porém, a explicação dos daemons, as criaturas que acompanham os humanos, ficou para depois.

Ao invés de começar com um grande prelúdio dando vários detalhes, como aconteceu com o filme, o seriado foca especialmente em Lyra e Lord Asriel, seu tio, dando pistas dos elementos fantásticos que compõem aquele universo, mas sem entregar muito. Ao adotar tal estratégia, o canal tem grandes possibilidades de fazer uma boa adaptação, especialmente para os fãs dos livros. His Dark Materials lida com assuntos complexos e apresentá-los aos poucos é uma decisão inteligente.

Há ainda dois temas que ganham destaque no episódio e merecem ser citados. O primeiro é a apresentação dos Gípcios, uma sociedade que vive próxima da água e sobrevive do comércio. O grande mistério em torno deles é o sumiço de Billy Costa, que integra uma das famílias. Rapidamente é descoberto que ele não é a única criança desaparecida e isso motiva uma grande ação da comunidade para recuperar todos que foram levados. É interessante notar que, apesar de não se aprofundar muito em outras questões, a HBO deu um grande espaço para os Gípcios, mostrando rituais e o estilo de vida da comunidade. Assim fica claro que o grupo, que tem um grande papel na história de Lyra, será totalmente desenvolvido em tela.

Por fim, His Dark Materials começa a discussão sobre o Magisterium, a instituição religiosa que controla a sociedade da série. Como dito anteriormente, um dos destaques do episódio é a grande descoberta feita por Lord Asriel, que acredita na existência de um mundo paralelo no Norte. Mas o Magisterium se preocupa com tal revelação e coloca Asriel sob vigilância constante. Vale ressaltar que o tio de Lyra é respeitado na sociedade de His Dark Materials, por isso a organização tenta mantê-lo calado, mas sem fazer um grande alarde sobre suas intenções. O Magisterium é apresentado como uma instituição extremamente poderosa - e perigosa, que tem muito a esconder e várias disputas internas de poder.

Tal mistura de elementos mágicos com disputas políticas é o que pode fazer de His Dark Materials uma boa pedida para fãs de Game of Thrones, mas a verdade é que as analogias e questões religiosas vão muito além disso. O universo de Philip Pullman é composto por diversas séries de livros e a história de Lyra e Pantalaimon cria discussões profundas sobre existência, vida e morte, mostrando que pode se sustentar sem precisar ser comparada com a história de Westeros.

His Dark Materials é exibida todas as segundas, na HBO e os episódios também ficam disponíveis no aplicativo da HBO GO.