Imagem de His Dark Materials

Créditos da imagem: His Dark Materials/HBO/Divulgação

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His Dark Materials escolhe não mostrar a violência em seu maior confronto

Série mostrou o encontro dos ursos Iorek e Iofur, mas luta ficou nas sombras

Camila Sousa
19.12.2019
17h09

A HBO é conhecida como um canal que nunca se privou de mostrar violência ou cenas de nudez. Aliás, ter cenas mais fortes se tornou uma marca da empresa, com produções como Game of Thrones, True Detective, True Blood, entre outras. Em His Dark Materials, o canal assumiu uma postura um pouco diferente, mas ainda assim bem dura, com cenas de violências contra crianças e até um personagem que é morto com um tiro à queima roupa.  Por isso soa confusa a decisão de não mostrar a violência de uma das maiores batalhas dos livros de Fronteiras do Universo.

[Spoilers de The Fight To The Death abaixo]

O capítulo começa exatamente onde o outro terminou, mostrando o que aconteceu após a queda de Lyra (Dafne Keen) do balão de Lee Scoresby (Lin-Manuel Miranda). Curiosamente, ao invés de ser salva de última hora por Serafina (Ruta Gedmintas), por exemplo, a garota realmente caiu direto na neve, e se levanta apenas com uma dor abdominal. A escuridão da cena anterior torna difícil entender qual era a altura do balão de Lee no momento da queda, mas tal resolução tão simplista incomoda e torna o final do episódio anterior ainda mais exagerado.

Boa ou ruim, a queda de Lyra a leva a conhecer Iofur (voz poderosa de Joi Johannsson), o atual rei dos ursos, que tem uma rivalidade antiga com Iorek. A partir daí a protagonista tem um dos momentos mais importantes para moldar sua personalidade. Para sobreviver e ter uma chance de escapar, Lyra engana o rei, algo considerado impossível até então. A sequência serve para estabelecer Lyra como uma das maiores “enganadoras” de sua época, capaz de fazer seres mudarem suas vontades “apenas” com o dom da palavra. Estranhamente, Keen mostra muito bem o medo da jovem ao conhecer o outro urso gigante, mas ela de fato não parece à vontade quando precisa exercer sua lábia. A atriz ainda soa acanhada em tais momentos, algo que nos faz duvidar do que está em tela. Isso não se repete quando Lyra interage com humanos, o que nos leva a pensar se Keen está sentindo dificuldade em interagir com personagens digitais além de seu daemon, Pan.

Enquanto isso, Marisa Coulter contempla a destruição de seu projeto e solta um grito animalesco, totalmente refletido no rosto da atriz Ruth Wilson. A cena tinha tudo para ser exagerada e caricata, mas é impossível não embarcar nos sentimentos da personagem, especialmente porque a Sra. Coulter não é assim o tempo todo. Raivosa em tal momento, a mulher aparece com o olhar mais estratégico em outro, revelando como ela esconde uma parte de sua personalidade para os momentos em que está sozinha. Wilson faz, novamente, um belo trabalho no episódio.

Antes de partir para o clímax do capítulo, é preciso citar o que está acontecendo no mundo de Will Parry (Amir Wilson). Na ânsia de descobrir mais sobre John Parry (Andrew Scott), Carlo Boreal (Ariyon Bakare) fecha o cerco contra a família, que resulta em Will matando o homem que invade sua casa. A cena é rápida e incômoda e fica claro que a série deixou as consequências disso para o finale da temporada e o começo da segunda. Ainda assim, é doloroso ver um garoto bom como Will tendo que passar por uma situação tão extrema, tema que será retomado no fim do episódio.

No entanto, o maior ponto de discussão sobre o capítulo é a fatídica batalha entre Iofur e Iorek para salvar Lyra e disputar o trono dos ursos. Os efeitos visuais entregam um bom resultado e o confronto segue com grande peso até o seu desfecho. Ao invés de mostrar como Iorek derrota Iofur (no filme, o urso arranca a mandíbula do outro), a câmera foca em Lyra com medo do que está acontecendo e deixa a luta desfocada em segundo plano. Apesar de ser um plano bonito, que enfatiza o quanto a jovem se sente pequena em tal cenário, não mostrar o fim do conflito em si tira parte da força de Iorek, que se levanta como o novo rei. Há claro, o fato da BBC também fazer parte da produção ao lado da HBO, o que pode justificar a ausência de uma violência gráfica maior, mas ainda assim o trecho causa estranhamento.

Como dito anteriormente, His Dark Materials foca bastante nas injustiças e crimes que os adultos cometem com as crianças na história. Seja pelo estresse e responsabilidade enfrentados por Will Parry, até a intercisão feita em Bolvangar, as crianças desta realidade sofrem pelas crenças e planos dos adultos, que muitas vezes estão além de sua compreensão. Essa é a sensação quando Lyra e Roger encontram Lord Asriel (James McAvoy). O homem se desespera ao ver a filha, mas fica aliviado com a presença de Roger, indicando que o garoto pode ter um destino cruel. Ainda não fica claro o que Asriel quer fazer com Roger, mas isso cria um espelhamento do personagem de McAvoy com a Sra. Coulter. Seja para o “mal” ou para o “bem”, os dois estão dispostos a usar pessoas mais indefesas do que eles para cumprir seus objetivos. 

A próxima semana terá o season finale desta primeira temporada de His Dark Materials e, se Asriel realmente for capaz de machucar Roger, Lyra (e o público) deve se preparar para uma das maiores decepções de sua vida, algo já indicado pelo título do capítulo final: "Betrayal" (traição, em tradução livre).