Fato e ficção em Chernobyl: o que a série da HBO romantizou do desastre

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Fato e ficção em Chernobyl: o que a série da HBO romantizou do desastre

Série de Craig Mazin foi elogiada pela representação dos acontecimentos, mas mudou diversos detalhes dos fatos

Julia Sabbaga
11.06.2019
14h26
Atualizada em
11.06.2019
14h40
Atualizada em 11.06.2019 às 14h40

A nova sensação da HBO, Chernobyl, foi amplamente aclamada pelo público e pela crítica, e instigou fãs a procurarem mais fatos sobre o que realmente aconteceu na usina nuclear em 1986. E por mais que a série de Craig Mazin tenha sido elogiada especificamente pela sua representação do que realmente ocorreu até os últimos detalhes, é inevitável que uma produção de cinco episódios altere certos fatos da história. 

Confira abaixo algumas das romantizações de Chernobyl:

Valery Legasov

O herói de Chernobyl, Valery Legasov, interpretado por Jared Harris, realmente existiu e foi um dos cientistas que liderou a investigação do que aconteceu por trás do desastre nuclear. O físico, no entanto, não era um expert em reatores RBMK e estava longe de ser um questionador das políticas soviéticas. Segundo o que o próprio criador disse no podcast oficial de Chernobyl, Legasov foi chamado à comissão por ter um histórico de postura leal ao partido. 

Ainda sobre a vida de Legasov, o cientista realmente se suicidou no aniversário do acidente, mas aquela não foi sua primeira tentativa de suicídio. Sua morte, assim como foi retratado na série, deixou um legado de fitas que contaram a verdade sobre as falhas nos reatores.

Ulana Khomyuk

Ao contrário de Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård) e Legasov, a personagem de Emily Watson, Ulana Khomyuk, não existiu. Sua presença representa uma amálgama de cientistas que trabalharam junto a Legasov para achar a verdade sobre o acidente. 

Enquanto a figura feminina de Ulana pode ser difícil de acreditar no contexto em que está, o criador Craig Mazin disse ter escolhido uma mulher para representar o grande número de cientistas mulheres na União Soviética da época. Estudos apontam que a igualdade de gênero na ciência e medicina no país eram um dos mais altos do mundo.

Lyudmilla e Vasily Ignatenko

O casal de Lyudmilla (Jessie Buckley) e Vasily Ignatenko (Adam Nagaitis) realmente existiu, e o caso ficou registrado na história pela persistência da mulher grávida em ficar ao lado de seu marido apesar das consequências. O que difere da realidade é algo sutil, porém poético. 

Quando questionada pela médica se estava grávida, Lyudmilla não apenas disse "não", como a série mostra. Na realidade, a mulher pensou que se dissesse não a médica impediria que ela entrasse pelos riscos de nunca poder engravidar. Por isso, Lyudmilla mentiu dizendo que já tinha dois filhos. 

A queda do helicóptero

Esta mudança dos fatos é dedicada só aos fãs de detalhes. A queda do helicóptero que jogava areia e Boro na explosão aconteceu, mas apenas semanas depois do acidente, e não dois dias, como a série mostra. A mudança na cronologia foi explicada por Mazin para exemplificar os riscos que realmente existiram: "Eu queria que as pessoas soubessem os riscos que os pilotos passaram, voando por cima deste reator aberto".

As armas e camaradas

Um dos elementos que mais chamou atenção em Chernobyl foi a quantidade de críticas positivas que a série recebeu da ex-União Soviética. Claro que as críticas não foram poucas, mas a obra foi aclamada pela sua produção de arte e representação de costumes e comportamentos da época. 

O jornalista Leonid Bershidsky, do The Moscow Times, foi um dos que apontou detalhes distorcidos da produção. Os mais chamativos são o modo que os soldados seguram as armas, baseado no costume americano ao invés do soviético (com armas nas costas ao invés do peito) e na referência dos personagens como "camaradas". Segundo Bershidsky, a referência só acontecia em reuniões do partido. 

Mazin, no entanto, fala sobre isso no podcast oficial da série, dizendo que o detalhe foi adicionado por uma consultora russa, que explicou que os sujeitos nunca se chamariam pelo nome, e sempre usariam o termo.

As relações de poder

A jornalista Masha Gessen do The New Yorker também apontou um detalhe deturpado de Chernobyl, mais abrangente, em referência aos confrontos entre sujeitos de diferentes cargos. Para Gessen, é irreal a maneira em que Legasov é ameaçado a ser jogado do helicóptero por Shcherbina ou o tom desafiador de Khomiuk ao conversar com um secretário superior: "De maneira geral, soviéticos seguiam ordens sem serem ameaçados por armas ou punições". Do mesmo modo, a postura dos mineiros frente ao ministro também seria impossível.

Gessen também critica o modo que o burocrata toma um copo de vodca durante o trabalho: "nada de vodca no local de trabalho na frente de uma estranha, e nada de dizer em voz alta 'eu mando aqui'". 

Os mergulhadores

Um dos acontecimentos mais marcantes de Chernobyl envolve os mergulhadores que precisaram entrar na usina nuclear para fechar os registros que inundavam a parte de baixo do núcleo.

Segundo Mazin, Ananenko, Bezpalov e Baranov foram realmente voluntários, mas os relatos sobre o evento são diferentes. Segundo algumas obras sobre Chernobyl, os três funcionários foram convocados, e segundo outras eles eram simplesmente os responsáveis pela função. 

O tribunal de Chernobyl

O último episódio de Chernobyl é o que mais se distancia dos acontecimentos reais. O fato mais notável é que Valery Legasov não estava presente. 

Segundo Mazin, a escolha foi para fechar a jornada de Legasov de modo digno à mensagem final de sua vida. No entanto, o julgamento foi totalmente diferente do representado na série. Não apenas Shcherbina também não estava lá, como o tribunal de Chernobyl durou diversos dias.