Chernobyl

Créditos da imagem: HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Chernobyl

Sensação da HBO é uma obra envolvente e relevante que atinge seu objetivo ao instigar o público

Julia Sabbaga
07.06.2019
22h00
Atualizada em
07.06.2019
16h45
Atualizada em 07.06.2019 às 16h45

Quando o impacto inicial é tanto, é difícil julgar o legado que uma obra deixará. Este é o caso de Chernobyl, nova sensação da HBO que se encerrou esta semana após cinco brilhantes episódios, e deixou o público tanto deslumbrado quanto sedento por mais. A improvável minissérie de Craig Mazin (mais conhecido como roteirista de Se Beber Não Case) detalha o desastre nuclear de 1986, mas tem seu foco na solução do caos e a investigação dos reais culpados pelo ocorrido. Com Jared Harris, Stellan Skarsgård e Emily Watson no elenco, Chernobyl é uma obra completa de pesquisa e execução, que assim como Game Of Thrones - mas muito mais rapidamente - causará um rebuliço na emissora que deve se esforçar para achar um substituto de mesmo nível.

Em uma era de debate crescente sobre quem tem o direito sobre cada história, a primeira coisa que chama atenção em Chernobyl é o fato de ser um produto americano. Como um dos maiores eventos do fim da Guerra Fria, é curioso que a história do desastre tenha sido levado às massas pelos EUA, principalmente pela escassez do material sobre o desastre. Mas o produto entregue pela HBO supera qualquer representação americana do mundo soviético, e já seria um sucesso somente pelo comprometimento com a estética e a imagem não caricaturizada do povo russo. Grande parte do ineditismo da produção está no fato de que a série foca nos heróis da Rússia, e não nos seus vilões.

Chernobyl não é livre de problematizações e, apesar da representação exemplar de costumes e pensamentos soviéticos, é notavelmente um produto americano. Existem certos elementos questionadores do pensamento da época, especialmente na personagem de Emily Watson, que demonstra uma típica heroína americana. Ulana Khomyuk é uma amálgama de cientistas da época e foi construída em parte para representar a indignação do próprio criador da série com os acontecimentos. Sua teimosia, astúcia e ar desafiador certamente não se encaixam no ambiente burocrático soviético, mas isso não causa um impacto negativo, e serve para representar a frustração e preocupação do próprio público. Outros fatores tradicionalmente americanos vistos na série também servem perfeitamente à narrativa, como a química de dupla de detetives entre Boris Shcherbina (Skarsgård) e Valery Legasov (Harris). Aliás, não é exagero dizer que os três atores estão espetaculares em seus papeis.

Último episódio foca no tribunal dos culpados pelo desastre

Outro fator admirável de Chernobyl é a sua duração. Em cinco episódios com aproximadamente uma hora, a produção acertou em cheio tanto o ritmo da narrativa quanto na escolha dos eventos retratados. Cada um dos capítulos avança a narrativa de modo cirúrgico e passa por elementos essenciais para uma obra do gênero: o desastre, as reações, as perdas, consequências e resoluções. Enquanto os cinco episódios são admiráveis de modo único, é a conexão entre o primeiro e o último capítulo que dão o arremate final de Chernobyl, com a reconstituição de cada ação dos indivíduos presentes na usina no momento do desastre. O último capítulo, aliás, é um dos melhores exemplos de quão envolvente Chernobyl consegue ser: quando Legasov dá uma longa aula de física em pleno tribunal, existe um magnetismo na tela que não permite que o telespectador ache entediante. A capacidade de criar cenas longas, reflexões extensas e explicações complexas sem alienar o público comum é uma das maiores qualidades de Chernobyl.

Se obras do ex-mundo soviético não chegam ao público geral, Chernobyl de Craig Mazin é uma realização americana que certamente faz jus à magnitude do evento e aos indivíduos que lutaram pela pesquisa e divulgação dos fatos. Esta é a maior realização de Chernobyl porque ela atinge sua ideia central: a valorização da verdade. A série pode dramatizar eventos e fechar arcos de modo que diferem dos fatos (Legasov, por exemplo, não estava no julgamento de Chernobyl), mas a essência do erro e do heroísmo humanos, e suas repercussões, são reproduzidos perfeitamente. A série não apenas traz o melhor possível retrato de uma época como instiga o público, que certamente encerra a maratona sedento para buscar mais obras e entender mais sobre a trágica história.

Por fim, o êxito de Chernobyl se completa por sua conexão com a atualidade. Mazin construiu uma obra histórica que foca em um sistema de mentiras e negações profundamente humano e, por isso, universal. Fica ao público a responsabilidade de entender a mensagem de que um sistema como este é resultado de um monopólio da verdade pelos poderosos, mas não se sustenta sem a cumplicidade de seres incapazes de encarar realidades incômodas.

Chernobyl é uma série completa desde a pesquisa até sua mensagem final e, quando a poeira baixar, talvez fique mais claro que a produção da HBO não apenas marcará listas das melhores séries do ano como deve elevar o padrão para representações estrangeiras e obras históricas de modo geral.

Nota do Crítico
Excelente!