Chernobyl | O que faz a nova série da HBO tão fascinante

Créditos da imagem: HBO/Divulgação

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Chernobyl | O que faz a nova série da HBO tão fascinante

Drama de Craig Mazin é improvável novo hit da emissora

Julia Sabbaga
04.06.2019
12h20

Quando a HBO saía da ressaca de Game Of Thrones no meio de maio, o debate era em torno da próxima fantasia que capturaria o público, algo que parecia distante de acontecer, pelo menos por algum tempo. E enquanto a indústria coçava a cabeça para encontrar um substituto, um improvável thriller dramático e político surpreendeu a audiência, rapidamente se tornando uma das séries mais bem avaliadas de todos os tempos: Chernobyl. Claro que a criação de Craig Mazin, que conta a história do desastre nuclear de 1986, não será o substituto de Game Of Thrones, até porque em seu país de origem, EUA, a série de cinco episódios já se encerrou. Mas Chernobyl chamou atenção por comprovar um interesse diversificado e surpreendente do público geral.

Chernobyl surgiu com pouca divulgação no Brasil, com exceção de alguns teasers, e foi daqueles casos que pegou o público de surpresa e se propagou com o boca a boca. Nas últimas semanas, foram relatos nas redes e correntes no Twitter que ajudaram a promovê-la. Atualmente, Chernobyl está no topo das séries mais bem avaliadas no Imdb, e enquanto isto pode ser síndrome de empolgação do público, que acabou de maratonar a minissérie, a produção da HBO merece sim estar lá em cima na lista.

A obra é, em primeiro lugar, surpreendente em todos os aspectos. Chernobyl saiu da mente do roteirista de Se Beber, Não Case e Todo Mundo em Pânico 3 e 4 e é dirigida por Johan Renck, mais conhecido por seu trabalho em videoclipes e, mais recentemente, por episódios de Breaking BadBates Motel e Vikings. A parceria resultou em um trabalho admirável de pesquisa e comprometimento com a estética que não se vê todo dia na televisão. Os elogios não vieram apenas deste lado do mundo; como uma série americana que conta uma história soviética, Chernobyl seria, naturalmente, alvo de críticas do lado de lá, e foi. Mas o número de críticos russos que elogiam a fidelidade da produção com a realidade é chamativo. No Twitter, o jornalista russo Slava Malamud viralizou com seus comentários sobre cada episódio: “É quase inconcebível que um programa ocidental trabalhe nesta quantidade de detalhes para retratar autenticamente a vida soviética desta era, sabendo muito bem que seu público alvo nunca apreciará o esforço ou realmente entenderá”.

Mas o que faz de Chernobyl, uma série dramática, pesada e de ritmo lento, tão atraente para o público geral? Existem, realmente, inúmeros fatores. A escolha do tema é um fator quase bizarramente óbvio: porque não havia nas grandes plataformas um documentário sobre Chernobyl? Na mania da Netflix de distribuir produções baseadas em tragédias, assassinatos e histórias reais de casos policiais, é intrigante que não houvesse ainda uma obra que explorasse o maior desastre nuclear da história. A sede do público já estava comprovada, a HBO apenas percebeu e aproveitou a oportunidade antes. A boa notícia é que isto não aconteceu às pressas.

A extensa pesquisa sobre o acidente real é algo visível em cada um dos capítulos de Chernobyl. Mazin se preocupou com costumes da época até os mínimos detalhes, algo que pode passar despercebido pelo público brasileiro, por exemplo, mas não escapa do telespectador russo, que aliás, contribuiu para que a série seja um sucesso: “Chernobyl é mais verídico do que qualquer série ocidental sobre a Rússia”, disse Malamud. Claro que ela não passou livre de críticas do ex-mundo soviético, e com cinco episódios focados na mente e na vida dos indivíduos daquele país, detalhes incorretos – como a maneira em que os soldados russos seguram os fuzis – foram encontrados.

Quando se trata de um país reservado e distante, ainda mais em época de Guerra Fria, é difícil julgar de longe o que realmente é uma representação prejudicial da sociedade russa para os russos. Mas Chernobyl chama atenção, no mínimo, pela representação perfeitamente humana dos russos, algo raro de se ver em grandes produções americanas. Não há sotaques exagerados ou uma ideia caricata do psicológico soviético. Cada intenção e comportamento dos personagens é compreensível, até mesmo a negação dos que estavam na usina desde o começo. Segundo Ilya Shepelin, do The Moscow Times, grande parte das críticas do povo russo à Chernobyl surgiu de um ressentimento: "O fato de que um canal americano, não russo, está nos contando sobre nossos próprios heróis é um fator vergonhoso para a mídia pró-Kremlin. Esta é a razão real pela qual eles acham erros em Chernobyl". Não á à toa que uma produção russa sobre o desastre nuclear já foi anunciada, focada na teoria de que um agente da CIA foi enviado à usina com intenções de sabotagem.

O que é curioso sobre a declaração de Shepelin é que Chernobyl foca realmente nisto: nos heróis. A série não vilaniza personagens, apesar de apontar culpados pelo sistema de mentiras e omissões que cresceu na União Soviética. Figuras que contribuíram para o desastre não são retratadas como caricaturas e poderiam existir em qualquer nacionalidade. No quarto episódio, o personagem de Stellan Skarsgård descreve a USSR como “uma nação obcecada em não ser humilhada”. A frase é muito apropriada para a União Soviética, mas não estaria tão distante de uma descrição dos EUA ou do Brasil atuais.

Os três personagens principais de Chernobyl - Valery Legasov (Jared Harris), Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård) e Ulana Khomyuk (Emily Watson) – são os elementos mais básicos que comprovam a humanidade da série. Ao enfatizar no heroísmo das figuras por trás da investigação, Chernobyl vai contra à tradição americana de retrato dos russos. É belo e admirável. A personagem de Watson, fictícia, mas que representa uma amálgama de cientistas soviéticos da época, foi inspirada fortemente no próprio Manzin: "Ela é uma extensão do meu fervor quando se fala deste assunto" [via CB]. Para colaborar com tudo isso, a atuação dos três certamente chama atenção e deve marcar diversas categorias na temporada de premiações da TV.

Apesar de tudo isso, não é apenas a escolha da história, a pesquisa, o elenco e a estética de Chernobyl que explicam seu merecido sucesso. Existe algo fundamental que está na base de sua narrativa, que torna a história não apenas relevante como abrangente: a sua tese. No primeiro episódio, Legasov explicita a importância da investigação e a divulgação da verdade: "Qual é o custo de mentiras? Não é que podemos confundi-las com a verdade. O perigo real é que se ouvirmos mentiras o bastante, não reconheceremos mais a verdade”. A mensagem por trás disso parece mais atual do que nunca.

Chernobyl é uma história universal. É um caso cujas consequências foram únicas na história da humanidade, mas seus motivos - arrogância, mentiras, desinformação e fragilidade humana – são elementos eternos. Mazin explicou isso perfeitamente ao Cinema Blend: “No final das contas, o que aconteceu não foi por causa de uma pessoa com más intenções. Isto é coisa para contos de fadas. Quando deixamos este reino, não há uma vilão. Não é uma pessoa, e sim uma coleção de fraquezas humanas, que requerem que examinemos nós mesmos”.