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Emergência Radioativa: Johnny Massaro e Fernando Coimbra falam sobre a série

Ator e diretor falam sobre processo de fazer a série sobre o caso do césio-137

Omelete
9 min de leitura
20.03.2026, às 10H44.
Atualizada em 20.03.2026, ÀS 10H57
Emergência Radioativa

Créditos da imagem: Netflix

Inspirado na chocante história do acidente radiológico do Césio-137 em Goiânia, Emergência Radioativa foi uma grande produção. Com direção geral de Fernando Coimbra e protagonizada por Johnny Massaro, a minissérie tem o desafio de transmitir a escala e tensão de um caso que até hoje repercute internacionalmente.

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Em entrevista ao Omelete, o cineasta e o ator comentaram sobre o processo de trazer a história do Césio-137 para a tela, e como eles julgam ser importante que isso não caia no esquecimento.

Você pode assistir à entrevista com Johnny Massaro no podcast abaixo, e ler nossa conversa com Fernando Coimbra na íntegra depois.

Guilherme Jacobs: Meus parabéns aí, não só pela série, mas por Enforcados no ano passado também, grande filme. Somos fãs, tá? Então, muito legal estar falando contigo aí.

Fernando Coimbra: Pô, obrigado.

Guilherme Jacobs: Começar perguntando um pouco sobre o começo da série, que me pegou bastante, o primeiro episódio. Terminei ela ontem e o primeiro episódio tem aquela vibe bem história de desastre, filme de monstro, de uma coisa chegando, sabe? De você sentindo que o negócio vai dar ruim, vai dar ruim, vai dar ruim. Como foi para você construir essa atmosfera de tensão do começo?

Emergência Radioativa
Netflix

Fernando Coimbra: Para mim, eu adoro thriller, né? Então adoro essa linguagem de que você vai deixando aquela corda esticada ali o tempo todo para o espectador e vai revelando aos poucos as coisas, porque isso era parte inclusive da própria história, né? Essa escolha de você ter múltiplos pontos de vista, mas você seguir esse começo, a gente contar um pouquinho do que aconteceu, mas pular no tempo e aí ir descobrindo junto com o Márcio e com os físicos, acaba virando uma coisa um pouco investigativa. Mas que é o que eu acho também que vai dando para o espectador essa liga de botar ele na pele de quem está descobrindo na hora que o desastre não é isso, não é aquilo. Não, espera aí, é uma coisa perigosa. Espera aí, é maior do que a gente pensava. Cara, esse negócio pode ser muito grande. Era o que de fato aconteceu com aquelas pessoas que chegaram ali para tentar descobrir o que estava acontecendo e resolver o problema. Então era meio que um caminho inevitável tomar esse partido para começar a série já numa pegada, porque tem um pouco isso, acho que principalmente os três primeiros episódios. Tem sempre uma bomba para ser desarmada ali porque era dia a dia se descobrindo mais coisas, mais problemas, que a coisa era maior e tinha um novo problema para ser resolvido. Isso é já da própria história. Então a gente tirou proveito disso para fazer uma história realmente intrigante.

Guilherme Jacobs: Você diria que o que te atraiu para contar essa história foi mais o lado real — vamos relatar esse acontecimento que nem todo mundo tem os detalhes ou sabe os detalhes do que aconteceu — ou essa oportunidade de tratar de uma história real por esse viés, como você falou, de uma bomba sendo desarmada e do thriller e tudo mais?

Fernando Coimbra: Eu acho que antes de tudo era a história em si, porque é uma história que me marcou quando aconteceu. Eu tinha 11 anos de idade, então é uma coisa que ficou na minha cabeça. Então eu já achava uma história importante de ser contada propriamente hoje em dia porque muita gente já esqueceu ou não sabe, ou sabe mas não sabe também os detalhes. E é uma história muito plural ali, são muitas camadas sociais, muitas camadas de personagens diferentes. Você tem os físicos, médicos, você tem o governo, você tem as vítimas. Então você tem muitos pontos de vista sobre uma história que é um problema social, é um problema de uma comunidade, de uma coletividade que foi causado pelo ser humano e que tem que ser resolvido pelo ser humano. Então acho que a história em si é muito importante, muito forte. Mas a segunda coisa que me atraiu mais foi quando eu entendi que vinha sendo trabalhada essa história nesse recorte um pouco mais thriller assim, para não virar simplesmente também um grande drama. É muito dramático, mas tem esse lado da bomba sendo desarmada que é muito atraente enquanto narrativa, porque acho que o espectador quando está muito envolvido ele absorve ainda mais o que está vendo ali do que quando ele está mais passivo.

Guilherme Jacobs: Perfeito. Eu queria pegar esse recorte social também e perguntar para você sobre essa construção do olhar de classe, do olhar muitas vezes racial que a gente vê na série sendo abordado. Porque tem ali um subtexto muito óbvio de que as pessoas que são as principais vítimas, elas estão vindo de uma condição mais difícil. O quão importante para você foi deixar isso palpável na superfície da produção?

Fernando Coimbra: Era muito importante para mim. Uma coisa que era crucial era mostrar esse abismo que existia ali, que especialmente nesse momento em 87, começo da redemocratização, tinha uma grande falta de confiança nas instituições, uma grande falta de confiança em diferentes classes sociais umas com as outras. Tinha um momento de muita desesperança e de muita desilusão. Então eu acho que para mim uma coisa que era muito simbólica é que você vê pessoas todas bem-intencionadas, mas esse abismo que tem quando os físicos da vigilância sanitária chegam na casa das vítimas... eles não conseguem dialogar, porque nunca alguém foi ali também para ajudar eles. Quando chegam geralmente é para tirar eles dali. Então era muito importante mostrar isso porque para mim esse era o maior obstáculo que tinha para se resolver esse problema: que não existia essa confiança social construída. Então quando você chega para tentar ajudar mesmo as pessoas, elas têm toda a razão de não acreditarem que você está indo lá para ajudar. Você não fala a mesma língua daquelas pessoas, está em outra classe social. Pessoas que vieram do Rio de Janeiro que estão falando com pessoas de Goiânia muito simples, algumas inclusive mal alfabetizadas. Então tem uma dificuldade de diálogo ali. E eu acho que isso é importante e é uma parte fundamental, porque acho que a evolução inclusive da história é aprender a dialogar, aprender a lidar. Inclusive não só com as pessoas mais simples, mas a própria dificuldade dos físicos de lidar com o governo e o governo com os físicos, que têm interesses de não espalhar o pânico pela cidade, de tomar um cuidado para o comércio, não ferrar a economia. Enfim, tem mil questões que vão acontecendo ali que são muito parecidas com o que aconteceu na pandemia, inclusive. E que são de certa forma... às vezes todo mundo tem razão em algum ponto, mas você vai ter que chegar, conversar, dialogar e resolver de uma forma democrática, achar um ponto em comum para conseguir solucionar esse problema. É o difícil exercício da democracia. E é muito disso que fala a série, é muito essa dificuldade o tempo todo estar ali.

Guilherme Jacobs: Você mencionou mais cedo a quantidade de perspectivas que a série tem. Tem muitos personagens, a gente vai vendo os físicos ali, os catadores aqui, o pessoal no hospital. Você gosta de trabalhar com esse tipo de coisa, com múltiplas perspectivas, ou você prefere uma coisa que tenha um personagem, um protagonista e a gente acompanhe o mundo através dos olhos dele?

Fernando Coimbra: Cara, eu adorei fazer isso. Acho que essa é a primeira coisa que eu faço com tanta perspectiva assim. Nos meus filmes geralmente são poucos personagens. E séries que eu dirigi episódios... sempre série tem mais personagem, mas aqui eu acho que também por ser uma minissérie, ser uma história que é quase um longa de cinco horas ali, você tem um domínio maior da série: começo, meio e fim. Eu fiquei realmente apaixonado com essa forma de contar história assim, de poder ter diferentes perspectivas, de olhar para cada uma e entender o ponto de vista de cada uma. Entender que esse aqui está certo aqui, esse aqui está certo aqui, esse aqui está certo aqui também, e como é que isso aqui entra em acordo. Foi muito bom de exercitar isso filmando isso. Você olhar, ter o olhar da vítima que está ali sendo levada para um estádio, sendo tirada de casa. Mas ao mesmo tempo você ter o olhar do físico que está fazendo isso tentando ajudar, mas ao mesmo tempo está às vezes separando a família. Isso parte o coração da família, não é legal para a pessoa, mas ele não sabe o que fazer diante daquilo também porque cientificamente é o que tem que ser feito. Você poder olhar, olhar até o governador... você fala "ah, o político safado", tal, mas o cara tem razão em várias coisas também ali, porque senão você espalha um pânico generalizado na cidade. Então olhar para todos esses pontos de vista achei muito rico para mim.

Guilherme Jacobs: A gente tem que terminar já já, mas acho que dá tempo de fazer essa última pergunta. Entrevistei o Johnny Massaro mais cedo e eu perguntei sobre você, ele rendeu vários elogios e falou que era para depois eu cobrar agora a sua resposta e te dar a chance de falar sobre ele. Então estou dando esse momento aqui agora. Vou fazer a mesma pergunta que eu fiz para ele. Eu perguntei o que a direção sua agregava para a história e para a série, e queria saber o que você acha que a atuação dele agrega para a série?

Fernando Coimbra: (Rindo) Agrega muito. O Johnny é muito talentoso, ele é muito sensível, inteligente, muito criativo. Então foi sempre uma troca muito rica com ele, desde os ensaios à filmagem. Ele traz uma coisa muito real assim. Foi muito bonito de ver logo na largada, nas primeiras coisas que a gente filmou, ele já estava muito imbuído desse personagem, já estava muito emocionalmente tomado pelo que era aquele personagem assim. Ele traz para um lugar muito humano. Então tudo que estava no roteiro ali ganhava mais camada, ganhava mais humanidade, mais emoção. E é uma pessoa, enfim, um artista incrível e ótimo de trabalhar junto assim. Então era uma troca sempre gostosa, divertida, bem-humorada também, que eu acho fundamental. Adoro trabalhar num clima bom assim no set. Mas ele foi assim: desde que eu vi fazendo a primeira vez, o Johnny já se encaixou nesse personagem de uma forma brilhante.

Guilherme Jacobs: Muito bom. Assim que a entrevista sair eu mando para o pessoal mostrar para ele aí, para ele saber que está tudo na mesma. Cara, muito obrigado pelo seu tempo mais uma vez aí, parabéns pela série, é muito boa mesmo. Estou muito feliz e acho que vai fazer também um barulho legal aqui no Brasil.

Fernando Coimbra: Pô, assim espero.

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