Emergência Radioativa faz “Chernobyl à brasileira” em série sobre o Césio-137
Minissérie explora o maior acidente radiológico do mundo
Créditos da imagem: Netflix
Baseada na assustadora e extraordinária história real do caso do Césio-137 em Goiânia, Emergência Radioativa nasce pronta para comparações com Chernobyl. Não é só a semelhança entre a nova minissérie da Netflix e a excelente produção lançada pela HBO em 2019 – trata-se de um paralelo feito repetidamente por brasileiros na própria história de Emergência Radioativa. Afinal de contas, situada em 1987, a narrativa acontece apenas um ano depois da catastrófica explosão de um reator nuclear na então União Soviética.
Você precisará de pelo menos duas mãos para contar quantas vezes os físicos Márcio (Johnny Massaro) e Orenstein (Paulo Gorgulho) precisam responder à imprensa, políticos e ao povo goianense sobre o quão parecida com Chernobyl é a situação que se desenrola depois que uma cápsula do Césio-137 contamina a cidade. Criada por Gustavo Lipsztein, Emergência Radioativa toma a excelente, e levemente metalinguística, decisão de abraçar a comparação que o público assistindo à produção fará justamente porque ela também aconteceu por quem viveu a realidade, e ao fazê-la, o roteirista e sua equipe abrem espaço para enfatizar precisamente o que diferencia o acidente radiológico de Goiânia do que aconteceu meses antes na Europa.
Assim, a série encontra uma identidade própria. Ela revela-se tão preocupada com a situação social e cultural dos afetados quanto com a resposta das autoridades, médicos e profissionais de saúde à contaminação. Afinal de contas, os 19 gramas do isótopo que se espalham por Goiânia e levam, eventualmente, à morte de mais 100 pessoas, estavam numa cápsula abandonada nas ruínas de uma clínica que foi recolhida por dois catadores e aberta num ferro-velho. Todas as pessoas envolvidas no ocorrido, e que precisam ser evacuadas – assim abandonando suas casas e locais de trabalho – são da classe trabalhadora, precisam suar para pagar as contas e já sentiram de perto o que é sofrer preconceito por conta da cor de sua pele, status econômico e ramo de trabalho.
Essa tensão – a necessidade de separá-los de seus parentes para evitar contaminação, as ordens de fechar suas oficinas – entre o cuidado com a saúde e o contexto social da cidade é potencializada por uma série de fatores na série, incluindo a tentativa do governador local de minimizar o caso. Quando os personagens se mostram suspeitos das autoridades que os levam de local em local para isolá-los, por mais que saibamos que aquilo é o melhor, compreendemos a sua falta de confiança.
Com cinco episódios, pode-se dizer que Emergência Radioativa explora isso em três atos. No excelente primeiro episódio, acompanhamos desesperados a cápsula passear por Goiânia e a gravidade do que está se desenrolando fica clara. Dirigido por Fernando Coimbra, o capítulo tem ares de filme de desastre, e cria um suspense de revirar o estômago. Os episódios dois e três colocam os físicos do CNEN para correr pela cidade na tentativa de conter os danos, e a reta final é melancólica e forte por centralizar o foco nos hospitais, alguns improvisados, onde as vítimas do césio-137 estão sendo tratadas. O holofote vai para os esforços desesperados dos médicos, os tratamentos experimentais e as discordâncias com profissionais que querem tratar os pacientes da mesma forma que Chernobyl, ignorando as diferenças em como eles foram expostos à radiação.
Aliado das ótimas atuações de um elenco que inclui Bukassa Kabengele, Ana Costa, Alan Rocha, Marina Merlino e William Costa, entre outros, essa progressão narrativa enfatiza o quão despreparado o Brasil estava frente ao acontecimento, e como diferentes agendas e preconceitos complicaram a missão de conter o césio-137. Assim, Emergência Radioativa vira uma obra impactante, que usa bem técnicas do cinema de gênero para enfatizar as temáticas que permeiam esse triste e importante episódio.