Yellowjackets acerta ao trocar reviravoltas por trabalho sólido de personagem

Créditos da imagem: Christina Ricci, Juliette Lewis, Tawny Cypress e Melanie Lynskey em Yellowjackets (Reprodução)

Séries e TV

Crítica

Yellowjackets acerta ao trocar reviravoltas por trabalho sólido de personagem

Respostas da série do Paramount+ são simples, mas protagonistas não

Caio Coletti
19.01.2022, às 13H40
ATUALIZADA EM 31.01.2022, ÀS 10H09
ATUALIZADA EM 31.01.2022, ÀS 10H09

Quando Yellowjackets começou, em novembro, parecia se encaixar perfeitamente na atual e prolífica safra de séries de mistério americanas, de Big Little Lies a The Undoing e Mare of Easttown, com o tempero a mais da nostalgia noventista que está em voga em produções como Cruel Summer e Rua do Medo. A junção dessas duas tendências em uma só produção soava como uma daquelas coisas nascidas de algoritmo, uma receita perfeitamente calculada para o sucesso em 2021/22, mas é impossível sair da primeira temporada de Yellowjackets pensando da mesma forma.

A dupla de criadores Ashley Lyle e Bart Nickerson, veteranos de séries como Narcos e The Originals, subverte expectativas ao priorizar o desenvolvimento dos personagens e amarrar cada uma das respostas que oferece ao espectador (parciais, porque a ideia é continuar essa mesma história na próxima temporada, anunciada pelo canal Showtime no mês passado) a esse desenvolvimento. Às vezes, propõe Yellowjackets, a resposta mais simples é a verdadeira. Às vezes, ao invés de uma grande virada narrativa, o mais satisfatório é ver a história a que estivemos assistindo o tempo todo chegar à sua conclusão mais natural.

A trama da série é dividida em duas linhas temporais. A primeira, nos anos 1990, mostra um time de futebol feminino escolar sofrendo um acidente de avião enquanto viaja para jogar um campeonato. Presas em um local selvagem e isolado, elas aos poucos percebem que as chances de resgate são remotas, e a dinâmica do grupo começa a se deteriorar. Na outra parte da história, acompanhamos quatro dessas garotas na fase adulta, décadas após serem encontradas na selva, quando um chantageador misterioso começa a enviar mensagens para elas ameaçando contar tudo o que aconteceu por lá.

O quarteto central do elenco adulto é a grande força de Yellowjackets, e a série sabe muito bem disso. Melanie Lynskey, Tawny Cypress, Juliette Lewis e Christina Ricci foram perfeitamente escaladas em papéis que sublinham o que elas fazem de melhor - da banalidade suburbana que esconde uma corrente sombria poderosa, expressada à perfeição por Lynskey, até a energia lunática e o timing cômico impecável que fazem da Misty de Ricci uma perdedora passivo-agressiva impossível de não amar. É difícil imaginar alguma das protagonistas interpretada por outra pessoa. 

Acima de qualquer coisa, no entanto, nenhum dos personagens de Yellowjackets é facilmente rotulável. Eles são humanos em um nível até patético, presos em ciclos viciosos particulares, representativos de todo um leque de possíveis reações ao trauma. Melhor ainda, a série resgata aqui um prazer elemental da narrativa televisiva: o de revelar as camadas mais profundas de suas criações pacientemente, dando ao espectador o tempo de digerir cada um dos sentimentos levantados por elas ao invés de guardar tudo para os últimos minutos em uma estratégia de choque.

Não leve a mal: há surpresas no finale de Yellowjackets, mas elas não contradizem de nenhuma forma o que já conhecemos da natureza de cada uma das protagonistas, ou das ações delas até aqui. De certa forma, a tensão que existe na série é toda provida pelo time de diretores (Bille Woodruff faz um trabalho especialmente brilhante em “Saints”, o sexto capítulo da temporada), reponsável pela estética granulada que serve a função dupla de remeter aos anos 1990 e fundar até as ações mais absurdas das personagens em algum semblante de realidade.

No papel, mesmo, essa é “apenas” a história de mulheres empurradas ao limite, o que elas fazem quando estão lá, e os dominós que caem através das décadas por causa de suas ações. É uma série fascinada muito menos pelos mistérios que levanta, e muito mais pelos relacionamentos que desenha - e que, só por isso, foge da sombra de qualquer algoritmo que possa tê-la gerado.

Yellowjackets
Em andamento (2021- )
Yellowjackets
Em andamento (2021- )

Criado por: Ashley Lyle, Bart Nickerson

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Ótimo

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