Foto de Big Little Lies

Créditos da imagem: Big Little Lies/HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Big Little Lies - 2ª temporada

Série retorna com menos história para contar e guarda o melhor para o final

Camila Sousa
22.07.2019
16h48

Big Little Lies foi lançada em 2017 como uma minissérie inspirada no livro de Liane Moriarty. Por isso foi surpreendente quando a HBO anunciou que a produção teria um segundo ano. Claro, o sucesso das tramas de Madeline, Celeste, Jane, Renata e Bonnie era um grande indicativo de renovação, mas a fonte principal de histórias já tinha acabado e ficou a dúvida de como o canal abordaria a questão. Infelizmente, esse foi o grande ponto fraco dos novos episódios.

Logo no começo ficou claro que Big Little Lies não tinha uma grande história para desenvolver. Os primeiros episódios da temporada seguem um caminho mais lento, mostrando principalmente os traumas das “Cinco de Monterrey” após a morte de Perry. Desde Celeste, até Renata, cada uma é afetada e lida com isso do seu próprio modo. Somado a isso está a chegada de Mary Louise Wright, mãe de Perry, interpretada por Meryl Streep.

A adição é um dos pontos positivos da temporada, embora muitas vezes seja difícil decifrar quem realmente é Mary Louise, algo sentido também pelas personagens.  A linguagem corporal de Streep entrega a figura de uma avó frágil e sentida pela morte do filho, enquanto suas palavras ríspidas e completamente sinceras apontam para uma figura de perigo. É redundante falar o quanto Streep brilha no papel, mas a impressão que fica é que os roteiristas tiveram dificuldade em definir uma personalidade para Mary Louise, deixando-a sempre no meio do caminho e com um ar de mistério que permanece até o episódio final.

Ao se propor a falar do trauma de cinco personagens, Big Little Lies também teve um problema em dividir o tempo de tela. Foi necessário dar mais espaço a Bonnie, por exemplo, por conta de seu envolvimento na morte de Perry, mas isso tirou tempo de desenvolver Jane, Ziggy e as demais crianças. Enquanto os trailers indicavam que o personagem de Iain Armitage confrontaria a mãe e teria um tipo de revolta com a figura do pai, isso é mostrado em momentos extremamente pontuais. Renata também tem menos tempo em tela, mas Laura Dern brilha nas grandes cenas que são dadas a ela, culminando em uma verdadeira catarse no episódio final. O mesmo acontece com Madeline que, ao invés de lidar com os erros dos outros, precisa entender seus próprios sentimentos e repensar atitudes para salvar seu casamento.

Rompendo o ciclo do trauma

Apesar de ser uma pena ver alguns nomes perdendo espaço, isso resulta em algo positivo: as tramas de Bonnie e Celeste que, de forma curiosa, tratam da mesma coisa. Rapidamente é estabelecido que a personagem de Nicole Kidman tem dificuldades em lidar com o luto. Ela amava Perry e sente falta dele, mas as lembranças boas se misturam com as agressões, criando um bolo de emoções difícil de lidar. Por outro lado, Bonnie lida com a culpa de ter feito e escondido o que fez, enquanto sua mãe entra na história e revela um passado violento, com o qual ela não consegue lidar naquele momento.

Olhando para os dois exemplos, Bonnie deixa claro que sua reação violenta foi resultado de traumas causados pela mãe, enquanto Celeste luta diariamente para que seus filhos não repitam e normalizem o comportamento violento de Perry. Ao fazer isso, Big Little Lies deixa os carros de luxo e paisagens lindas de Monterrey em segundo plano, para focar nas relações familiares e no quanto elas podem ser destrutivas. Bonnie é produto de uma violência e a próxima geração de crianças pode sofrer o mesmo.

A série escolhe o lado otimista para finalizar sua trama, embora o caminho para isso não seja fácil. Como Celeste repetiu várias vezes no tribunal, as “Cinco de Monterrey” entraram em um processo de cura de tudo o que aconteceu com elas e isso rompe o ciclo de traumas, um tema importantíssimo de ser tratado nos dias atuais. Ao invés de descontar nos filhos e culpa-los, como Mary Louise fez em seu passado, Madeline, Celeste, Jane, Renata e Bonnie decidem se tornar pessoas melhores. Ao falar de seus traumas e fazer um esforço para superá-los, com ajuda de terapia, amigos e família, as personagens finalmente evoluem no episódio final, deixando as mentiras para trás e abrindo caminho para um futuro feliz.

Em fevereiro deste ano, David E. Kelley, criador do seriado, disse que não há planos para uma terceira temporada, algo que pode incomodar os fãs após o gancho deixado pela cena final. Apesar disso, a despedida de cada personagem foi mais do que justa: Madeline mudou seu relacionamento com Ed para melhor; Celeste começou o lento processo para se curar de Perry; Jane se abriu para o amor; Renata começou a seguir seu próprio caminho e Bonnie, após muito suspense, tomou a decisão certa para ficar com a consciência tranquila.

Pode ser que a HBO mude de ideia e surpreenda os fãs novamente com um terceiro ano. Mas mesmo que isso não aconteça, Big Little Lies termina aqui deixando a positiva mensagem de que é possível sim se curar de algo ruim, e que um trauma não precisa definir sua vida. O processo de cura e de encarar o que te quebrou um dia é triste e lento, mas há algo muito melhor esperando lá na frente.

Nota do Crítico
Bom