Cavaleiros do Zodíaco Netflix

Créditos da imagem: Toei Animation/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Saint Seiya: Os Cavaleiros do Zodíaco

Remake da Netflix quer ser tudo, menos Cavaleiros do Zodíaco

Bruno Silva
28.01.2020
21h45
Atualizada em
28.01.2020
22h24
Atualizada em 28.01.2020 às 22h24

Remakes sempre trazem desafios e problemas no que diz respeito ao equilíbrio entre a fidelidade ao material original e o que vem de novo, mas Saint Seiya: Os Cavaleiros do Zodíaco, recriação do clássico de Masami Kurumada feito em parceria entre a Toei Animation e a Netflix, inaugura um novo tipo de recriação: aquela que tem vergonha da série que lhe serve como base.

A animação, cuja primeira temporada foi lançada em duas partes entre julho de 2019 e janeiro de 2020, faz parte daquela leva de produções de Cavaleiros que encorpam a busca interminável da Toei de rejuvenescer o público da franquia, mas dessa vez a tentativa foi mais ousada, com uma colaboração entre ocidente e oriente e roteiro assinado pelo americano Eugene Son, com experiência em animações da Marvel e Ben 10.

Enquanto a primeira parte, já analisada aqui no Omelete, deu a impressão de que a série estava trilhando um meio-termo delicado entre a homenagem e a renovação, a segunda colocou tudo a perder e trouxe à tona uma temporada que, na íntegra, parece querer ser tudo, menos Cavaleiros do Zodíaco.

O roteiro, extremamente apressado, engloba os primeiros 40 e poucos episódios da animação original, com os arcos da Guerra Galáctica, da luta contra Ikki e os Cavaleiros Negros, e a chegada dos Cavaleiros de Prata.

Além disso, ainda inclui mais novidades no processo, com alterações importantes na condução da trama, omissões significativas e a inclusão de um antagonista inédito: Graad, ex-sócio de Mitsumasa Kido que também recebe de Aioros o pedido para proteger a jovem Saori Kido, mas acaba discordando do amigo e se torna líder de uma força paramilitar.

Nesse processo de adaptação e adequação da trama a um público mais novo, Son e sua equipe de roteiristas até conseguem dar um novo rumo interessante a alguns pontos da saga, como a inclusão de uma profecia que prevê a derrota de Atena nas mãos de Hades e Poseidon, inimigos que dão as caras mais adiante na série original.

Entretanto, o remake parece tão interessado em querer desenvolver seus pontos de vista inéditos que passa pelos acontecimentos da série original como se fosse uma obrigação. A série é tão incapaz de deixar o espectador respirar que dois grandes momentos deste arco inicial da saga dos Cavaleiros acontecem no mesmo episódio: a fatídica luta na qual Shiryu de Dragão se cega e a chegada de Aiolia de Leão, quando Seiya veste a armadura de Sagitário pela primeira vez.

Somada à decisão de trazer a série para um público mais jovem e, por consequência, com menos violência, o que vemos é um passeio relâmpago por momentos cruciais da história de Seiya e seus amigos passarem por nossos olhos sem um pingo de impacto, emoção ou envolvimento.

O único momento em que o remake se deixa desenvolver um mínimo de história é justamente no arco do personagem inédito Graad, que faz as vezes de grande vilão da primeira temporada. Enquanto na primeira parte o personagem serve de escada para ascensão de Ikki de Fênix, a segunda parte o traz como uma ameaça legítima e revela seu passado com Mitsumasa Kido.

Chega a ser irônico que o único momento em que o remake da Netflix emula o drama e os valores do material original é justamente uma luta inédita, contra um vilão que não parece ser uma ameaça até os últimos episódios.

Não é de hoje que Cavaleiros do Zodíaco permanece nessa encruzilhada entre se renovar e reverenciar quem já é fã, mas o remake da Netflix vai entrar para a história da franquia como a tentativa mais envergonhada de se renovar um clássico.

Nota do Crítico
Regular