Nazareno Casero como Maradona em Maradona: Conquista de um Sonho

Créditos da imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Maradona: Conquista de um Sonho é retrato amplo dos altos e baixos de uma lenda

Série argentina do Amazon Prime Video mescla realidade e ficção em homenagem informativa

Eduardo Pereira
01.12.2021, às 14H43

É sempre ingrata a tarefa de confinar toda uma vida humana a minutos de produção audiovisual, especialmente em casos multifacetados como o de Diego Armando Maradona. Biografias são eternas reféns do recorte de décadas de acontecimentos, o que as coloca sob os riscos da superficialidade ou do melodrama excessivos. O segredo em fazer da síntese um trunfo está na escolha artística acertada de um ângulo a ser explorado.

É a atenção a esse detalhe que faz com que uma figura complexa como Steve Jobs, por exemplo, tenha sua essência muito melhor capturada no episódico Steve Jobs (2015) do que no pretensamente enciclopédico Jobs (2013). É também o que faz com que o por vezes poético Touro Indomável (1980), sobre o conturbado boxeador Jake LaMotta, seja tão mais memorável e revolucionário que Ali (2001), em seu retrato objetivo e competente do lendário Muhammad Ali. Composta por inúmeras histórias que, se filmadas, provocariam imediato desafio à suspensão de descrença do público, a vida de Maradona oferece um campo tão frutífero quanto arriscado para a ficcionalização. Se até no trato documental caprichado de Diego Maradona (2019) essa jornada insólita invoca um ocasional ceticismo, quem dirá uma dramatização? Felizmente, Maradona: Conquista de um Sonho faz como faria o craque e dribla as dificuldades para retratar com honestidade a essência conturbada do eterno “menino de ouro” argentino.

Para isso, a série do Amazon Prime Video dosa o quanto bebe de objetividade, subjetividade e até narrativa documental para, ao mesmo tempo em que relembra o público que se trata de uma versão fictícia da vida de Maradona, invocar credibilidade em seu retrato. Apostando em duas linhas temporais em constante revezamento entre si (uma voltada à transformação do jovem Diego Armando na figura futebolística Maradona, e outra focada no já aposentado craque lutando contra os demônios cultivados em seu passado), a série consegue atravessar a futilidade de uma simples rememoração e penetrar no estudo de personagem, lançando uma análise empática, mas nunca redentora, tanto das conquistas quanto das muitas falhas do craque. Exalando reverência e respeito pela história que conta, explícitos na direção de arte cuidadosa, nas participações especiais de talentos internacionais e no uso de locações reais para visitar as idas e vindas de uma carreira que cruzou o mundo, a produção ainda diverte e emociona enquanto homenagem à memória desse ícone esportivo, morto em 2020.

Compreender o desafio de narrar essa trajetória faz necessário entender primeiro a relevância ímpar de Maradona para com o seu povo, consolidada em um ato antológico protagonizado no maior palco do futebol mundial. Foi quando ele saltou ao ar para marcar, com a mão, um gol decisivo contra a Inglaterra, nas quartas de final do mundial de 1986. Acontece que, entre 2 de abril e 14 de junho de 1982, uma Argentina presidida por uma violenta ditadura militar travou guerra contra a própria Terra da Rainha, pelo domínio das Ilhas Malvinas. O saldo para os “hermanos”, apesar de uma fortuita aceleração da queda dos militares, foi doloroso: 649 vidas ceifadas em pouco mais de três meses, levando a uma derrota vexatória que se somou à eliminação da seleção nacional na Copa do Mundo de futebol daquele mesmo ano. Com o gol de mão, quatro anos depois e frente aos olhos atentos de seu país, Maradona tornou-se o vingador de uma nação; uma figura redentora de dores e frustrações de milhões de pessoas que há muito sofriam nas mãos de algozes diversos, ingleses ou não.

Central à narrativa da primeira temporada de Maradona: Conquista de um Sonho, o gol batizado de “Mão de Deus” pelo próprio Maradona é o ato ilegal injustamente legitimado mais célebre do futebol, sintetizando à perfeição a jornada do jogador e do homem que o protagonizou. Irresistível dentro de campo e irredimível fora dele, o argentino pavimentou com sexo, drogas e muitos gols o caminho que, para além daquela vitória em 1986, o elevou ao status de divindade no imaginário popular argentino. Essa identificação visceral, que superou capítulos sombrios como a expulsão por doping da Copa de 1994 e a demora de 29 anos em reconhecer um filho fora do casamento, não se deu apenas pelos excessos. Tendo enfrentado uma infância de extrema pobreza no bairro de Villa Fiorito, saindo do berço de uma família de ideais socialistas em meio à opressão reacionária do regime militar, Maradona se tornou um além-homem por meio, não ironicamente, de sua flagrante humanidade; por representar em toda a sua gloriosa complexidade tantos aspectos da identidade nacional argentina.

Tentando encapsular tudo isso em 10 episódios de aproximadamente 1h de duração, são quatro os intérpretes responsáveis por darem nova vida a Diego Armando Maradona em Maradona: Conquista de um Sonho. O jovem ator Juan Cruz Romero é quem veste as simplórias chuteiras do craque durante a infância, encarnando de forma assombrosa a marra, os longos cabelos e principalmente a habilidade com a perna esquerda que o fizeram notório. Depois, na adolescência, Nicolás Goldschmidt conduz com muito carisma a transição de um idealista e romântico Diego a um mais obstinado e competitivo Maradona. Nos anos de auge e eventualmente declínio moral e físico, Nazareno Casero compensa a total falta de semelhança física com o ex-jogador graças a uma entrega potente e visceral às cenas dramáticas mais intensas. Por fim, é o veterano Juan Palomino que amarra tudo em uma interpretação mais trágica, contida mas ainda extremamente atenta aos trejeitos de um D10S em decadência, próximo aos seus últimos anos e já distante dos gramados.

É um mérito e tanto que Maradona: Conquista de um Sonho consiga tantas vezes quebrar a imersão do público com quatro trocas de atores e, ainda assim, sempre trazer de volta o mesmo nível de entrega e interesse do espectador. Se não se parecem tanto com o craque, os atores esbanjam talento dramático o bastante para encarná-lo em linguagem corporal e emocional, ao mesmo tempo em que os saltos no tempo justificam a visita a estados de espírito – e, portanto, performances artísticas – diferentes. Funciona tão bem que até se perdoa a desnecessária troca de Goldschmidt por Casero, ambos com 34 anos, como representando algum grande amadurecimento do personagem. É porque o mundo em torno de Maradona é tão bem estruturado que se torna irrelevante prender a atenção a esses detalhes menores; muito graças ao elenco de apoio escalado e conduzido com precisão pelo showrunner Alejandro Aimetta.

Os astros de Maradona: Conquista de um Sonho
Amazon Prime Video/Divulgação

O destaque maior fica por conta da personagem de Claudia Villafañe, namorada de adolescência de Maradona que casou com o craque em 1989 e permaneceu ao seu lado até 2003, atravessando com ele os altos e baixos dentro e fora de campo e enfrentando o declínio abusivo de uma relação apaixonada. É por meio do retrato dado pelas atrizes Laura Esquível, na juventude, e Julieta Cardinali, na maturidade, que Maradona: Conquista de um Sonho aprofunda a reflexão sobre a dualidade bélica que vivia em confronto no cerne de seu personagem-título: o homem apaixonado, mas infiel; o pai carinhoso, mas negligente; o gênio magnético e popular, mas introspectivo e autodestrutivo. Ainda assim, há de se louvar também os trabalho marcantes de Jean Pierre Noher,como o moralmente questionável agente Guillermo Coppola, Peter Lanzani como seu antecessor, Jorge Cyterszpiler,e o trio responsável por trazer à vida os ícones futebolísticos César Menotti, Daniel Passarella e Carlos Billardo, vividos respectivamente por Darío Grandinetti, Nicolás Furtado e Marcelo Mazzarello. Seja como coadjuvantes ou antagonistas, eles brilham com um resgate crível e humanizado dessas figuras históricas – ainda que o público brasileiro vá se surpreender mais com a participação divertidíssima de Douglas Silva como Pelé.

Mesmo acertando em todos esses detalhes, a série de TV ainda poderia derrapar naquilo que é o principal desafio de toda dramatização de futebol: o próprio jogo bonito. Felizmente, embora ocasionais deslizes deixem claro que Goldschmidt, Casero e Palomino estão longe do nível de destreza com a bola que tinha Maradona, Aimetta recria os grandes momentos do craque nos gramados apenas em momentos tangenciais, recorrendo a imagens de arquivo emocionantes e históricas para complementar em toda sua devida glória esse relato. Entendendo a necessidade de mesclar realidade e sua ficção, o diretor insere em Maradona: Conquista de um Sonho uma função informativa que complementa, sem nunca prejudicar, todo o trabalho dramático feito até ali. De quebra, o encerramento de cada episódio traz ainda mais cenas do verdadeiro craque, em entrevistas, treinamentos ou flagras de sua vida pessoal, acompanhados de letreiros factuais que amarram eventuais pontas soltas.

Tudo isso é um golaço movido à pura integridade artística e autoconsciência, fazendo jus à figura difícil do craque. Da compreensão que só a linguagem dramática não traduziria sua relevância, e que repetir o trato documental não ofereceria nenhum novo olhar sobre ele, a série consegue até extrapolá-lo e ainda abordar o fascismo sul-americano, as relações de poder da imprensa no continente, a desigualdade social argentina, além de questões regionais específicas de cidades como Barcelona, na região espanhola da Catalunha, e Napoli, na Itália. No centro de tudo, porém, permanece sempre Maradona, o deus caído que invoca uma observação ora admirável, ora reprovável, ora piedosa. Acertando quase o tempo todo, Maradona: Conquista de um Sonho consegue seu maior feito ao imprimir no espectador a compreensão da devoção de todo um país por um homem tão falho quanto apaixonante.

Assista no Prime Video
Maradona: Conquista de um Sonho
Em andamento (2021- )
Maradona: Conquista de um Sonho
Em andamento (2021- )

Criado por: Alejandro Aimetta

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Ótimo

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