Cena da série Maradona: Conquista de um Sonho, do Amazon Prime Video

Créditos da imagem: Divulgação

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Série de Maradona quer mostrar também a história da Argentina e do futebol

“Maradona foi melhor do que Pelé e para descobrir porque, vai ter que ver a série”, brinca o diretor

Marcelo Forlani
01.11.2021
11h05
Atualizada em
01.11.2021
11h19
Atualizada em 01.11.2021 às 11h19
Cheguei ao hotel, no centro de Buenos Aires e em cima da cama estavam alguns “regalos": uma camiseta da seleção argentina, alfajores e um kit de chimarrão, com térmica, cuia e bomba. Se fosse qualquer outro projeto, diria que estávamos começando com o pé direito. Mas como estamos falando de uma série sobre Diego Armando Maradona, a expressão não caberia. O “pibe de ouro” ficou mais conhecido dentro de campo pela magia com que conduzia a bola usando sua perna esquerda… e também pela sua “mão de deus”. 
 
Figura controversa, verdadeira e, acima de tudo, argentina até o último fio de cabelo, Maradona é até hoje visto como um dos nomes mais importantes que já nasceu abaixo do Rio da Prata. Amado por muitos, odiado por outros tantos. Isso porque não fugia de uma boa polêmica. Respondia o que pensava, doesse a quem doer. Já desafiou técnicos e dirigentes dos lugares onde jogou, presidentes do seu país e até dos países dos outros, principalmente os de direita, como George W. Bush, que comandava os Estados Unidos enquanto Maradona andava ao lado de Fidel Castro e Hugo Chávez. 
 
A locação escolhida pela equipe de produção para reunir jornalistas do mundo para falar sobre a série Maradona (2021) foi o icônico estádio do Boca Juniors, a Bombonera. Torcedor fanático e também ídolo do clube, Maradona era comumente flagrado pelas câmeras sorrindo ou sofrendo dos camarotes do estádio. Era dia 21 de março de 2019, um dia ensolarado e já gelado na capital argentina. Para acompanhar a cena que estava sendo filmada, caminhamos pelas arquibancadas do estádio mais ou menos até o meio de campo. Do túnel que vinha dos vestiários, Maradona (interpretado nesta cena pelo ator Juan Palomino) subia as escadas acompanhada de suas filhas, acenava para a torcida e olhava em direção ao camarote, onde estava sua companheira, Claudia. Era um momento de memórias de tudo o que havia feito dentro do gramado, onde sua genialidade era indiscutível. Mas é impossível falar de Diego sem falar também do que fez fora das quatro linhas.
 
Maradona: Amado ou odiado
 
Diego é mais do que um jogador de futebol. Quando olhamos de perto, ele teve a mesma origem de muitos outros, mas ele sempre fez as coisas de um jeito diferente, próprio dele. Em muitos momentos, as pessoas podiam não concordar com ele, foram muitos os conflitos que ele enfrentou em sua vida. Às vezes ele estava certo, outras, não”, disse o diretor e showrunner da série, Alejandro Aimetta, em uma série de conversas que aconteceram embaixo da arquibancada, entre as filmagens.
 
Cena da série Maradona: Conquista de um Sonho, do Amazon Prime Video
Divulgação
Além de Aimetta, o Omelete teve acesso também aos roteiristas Silvina Olshansky e Guillermo Salmeron. "Tomamos muito cuidado de não ficarmos focados apenas no lado esportivo, de não focarmos na parte heróica e isso chamou muita atenção de executivos que não haviam demonstrado interesse inicial na história de um jogador de futebol", lembra Salmeron. Sua companheira de roteiro lembra que Maradona foi uma das primeiras celebridades que se abriu sobre a sua doença: "Ele falou sobre a dependência química, algo que hoje pode até ser mais comum, entre músicos, atores. Mas com alcance mundial, ele foi um dos primeiros", recorda Olshansky, que confessou não ser fã do jogador inicialmente, mas criou um respeito depois de sua pesquisa e trabalho na série.
 
Ela não foi a única, e houve casos opostos. "Quando formamos a primeira sala de roteiristas, estávamos bem divididos entre as pessoas que odiavam Maradona e os maradonistas - tinha até um que foi da igreja Maradoniana. E fomos percebendo que os que eram contra começavam a entendê-lo e gostar dele e os que eram fãs iam gostando um pouco menos. Era um equilíbrio interessante. Obviamente a gente olhou muito a trajetória esportiva, mas também a sua infância em um bairro pobre, seus romances, o casamento, família", exemplifica Salmeron.
 
Os vários Diegos e seu mundo, a bola
 
Para retratar Maradona em vários momentos de sua vida, 4 atores diferentes foram contratados. O período de casting durou quase 1 ano e mais de 300 atores fizeram testes, entre novatos e atores já renomados. Juan Cruz Romero faz o Diego criança, que vivia no bairro popular de Fiorito. Nicolas Goldsmith já é Diego Maradona, jogador que dá os primeiros passos no profissionalismo, quando surgiu no Argentino Juniors. Nazareno Casero faz Maradona no seu momento mais complexo - como atleta, estava no ápice, enquanto que, fora dos gramados, mergulhava nas drogas. E, por fim, o já citado Juan Palomino encarna Maradona pendurando as chuteiras.
Nicolas Goldsmith, Nazareno Casero e Juan Palomino, os atores que interpretam Diego Maradona na série Maradona: Conquista de um Sonho
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O diretor gosta de frisar que criaram vários sistemas narrativos para mostrar o futebol. “No primeiro momento, sua infância, é um futebol mais puro, mais bonito, de pelada. Os atores que interpretaram Maradona estão jogando de verdade!", conta. Foi quase um ano inteiro de treinamento com os atores, para ganhar massa muscular, tentar se mover como Maradona no campo e fora dele. "Tive que aumentar meus músculos, aumentar a força das minhas pernas, o tronco, mudei minha alimentação, e toda uma preparação para usar a parte esquerda", lembra Nicolas Goldsmith sobre o seu treinamento.
 
Para deixar o futebol o mais realista possível, eram cerca de cinco horas por dia no campo, além do treinamento técnico, físico e das coreografias das jogadas. Dublês e até computação gráfica também foram utilizados. "Usamos tudo o que a tecnologia nos permite e também cenas de arquivo, porque é realmente impossível imitar Diego”, confessa o diretor.
 
Diego além de Maradona
 
Elenco e equipe de Maradona: Conquista de Um Sonho, no estádio La Bombonera, em Buenos Aires
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Para contar a história do camisa 10 que marcou época com as camisas do Boca, Argentina, Barcelona e Nápoli, é preciso também conhecer outras figuras importantes de sua vida, como Claudia, namorada desde a adolescência, esposa, mulher de suas filhas e companheira até a morte, mesmo com tudo o que Diego aprontou fora das quatro linhas.
 
Uma de suas intérpretes é Julieta Cardinali, que disse ter mergulhado nesta personagem, que é super conhecida por todo o país. "Aqui, todos conhecem Claudia Maradona", diz. Mas quando perguntei para ela se hoje, depois de interpretar Claudia, ela saía mais maradonista do que antes, Julieta logo tratou de defender sua personagem. "Sou claudista [risos]. Mergulhei na personagem e a interpretei com muito respeito e carinho. Quando Claudia está de bem com Diego, eu também estou. Quando ela está machucada pela relação com Diego, isso também me machuca", completou.
 
Outro personagem importante da vida de Diego foi seu empresário Guillermo Coppola, interpretado por Leonardo Sbaraglia (na vida adulta) e Jean Pierre Noher (mais velho). Coppola tomou conta da carreira e da vida de Maradona de 1985 a 2003, quando romperam de forma bastante ríspida, com Diego acusando Coppola de tê-lo roubado. Muitas pessoas dizem que os exageros do jogador passaram pelo seu empresário que aproveitava a fama de Diego para ir a festas e conhecer pessoas famosas. Os dois ficaram cerca de dez anos brigados e só reataram sua relação na época da morte de Don Diego, pai de Maradona.
 
"Foi uma relação complicada e segue sendo. Estes dois se amaram. Os dois têm almas puras. O abraço que eles deram um no outro, na Copa da Rússia, os dois chorando, diz tudo. Estiveram juntos por 15 anos e um fez muito pelo outro. Coppola teve mais de 100 jogadores porque era o agente de Maradona", relembra Noher.
 
Com filmagens em Buenos Aires (Argentina), Rio de Janeiro (Brasil), Punta del Este (Uruguai), Barcelona (Espanha) , Cidade do México (México) e Nápoli (Itália), a primeira temporada tem dez episódios, mas não deve terminar por aqui. Segundo o diretor, há planos para que a segunda temporada seja ainda maior, adicionando mais cinco países ao roteiro. "Os últimos dois capítulos da primeira temporada se passam no México. A série se passa toda em locações reais. Não estamos fingindo que um lugar é outro. Estamos filmando onde as coisas aconteceram de verdade. Vamos filmar no estádio Azteca um dos dias mais importantes da vida de Diego, quando ele ganha a Copa do Mundo", diz orgulhoso Alejandro Aimetta.
 
Diego sem restrições
 
Na época em que a série foi rodada, Maradona ainda estava vivo, mas Aimetta disse que ainda não havia conseguido conhecer pessoalmente o objeto de seu trabalho. O ex-jogador sabia da série e a apoiava sem restrições. "Trocamos figurinhas por vários meios diferentes e diferente do que muito gente imagina, Diego não nos limitou ou fez restrições sobre o que poderíamos ou não falar. {...] Não deixamos de tocar nenhum tema. Diego é uma pessoa valente, irreverente. Como dizemos aqui, ele tem culhões”, relata o showrunner. E depois, no melhor estilo maradoniano, ainda complementa com uma provocação: “Maradona foi melhor do que Pelé e para descobrir por que, vai ter que ver a série”, brinca aos risos.  
 
Não estamos contando apenas a história de Diego, mas também a história do país e do esporte. Para poder mostrar um retrato tridimensional, temos que contextualizar tudo isso e incorporar personagens periféricos. Não é apenas a história de Diego, mas de um filho, de um pai, um irmão e, sobretudo, um ser humano. Esta é nossa aposta: mostrar mais da sua vida do que os feitos alcançados dentro dos campos de futebol”, resume Alejandro Aimetta.
 
Os cinco primeiros episódios da primeira temporada já estão disponíveis no Amazon Prime Video em 280 países, com novos capítulos sendo incluídos ao serviço de streaming a cada semana.

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