Imagem de His Dark Materials

Créditos da imagem: His Dark Materials/HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

His Dark Materials - 1ª temporada

HBO/BBC entregam uma primeira temporada forte, apesar de alguns erros importantes pelo caminho

Camila Sousa
26.12.2019
11h25
Atualizada em
26.12.2019
11h50
Atualizada em 26.12.2019 às 11h50

Há muito tempo os fãs de His Dark Materials esperaram por uma adaptação adequada para live-action, fosse no cinema ou na TV. Ainda que o filme de 2007 tenha seus pontos positivos, o objetivo por trás do projeto era ter um “novo Harry Potter”. Quem leu Fronteiras do Universo esperava mais e, felizmente, HBO e BBC fizeram um bom trabalho na primeira temporada do novo seriado, ainda que com alguns erros pelo caminho.

O ritmo da temporada é um dos pontos que merece muita atenção. A HBO deixou claro desde o começo que não queria ter pressa. O primeiro episódio, por exemplo, explica algumas coisas aos poucos e termina com mais dúvidas do que respostas. Essa estrutura funciona em partes, já que mantém o interesse do público, mas o roteiro escorrega ao demorar demais em entregar certos pontos. Há um balanço muito sutil entre manter o interesse, mas não deixar o público entediado com a falta de informações e, em vários momentos, a série perdeu esse equilíbrio.

His Dark Materials chegou ao seu último episódio ainda com questões importantes para resolver, como as analogias com religiões e a crítica ao conceito de fé. Deixar pontos polêmicos claros apenas no final também dá a impressão de que há um certo receio em falar disso, o que é uma pena. Os fãs dos livros de Fronteiras do Universo já sabem que a franquia se aprofunda bastante em temas densos e, ainda que o canal tenha uma certa preocupação em como traduzir isso em tela, é importante não deixar o tema de lado ou em segundo plano: a jornada de Lyra está intimamente ligada ao conceito do Magisterium e da Autoridade e o canal precisa perder o medo de falar sobre isso.

Daemons são realmente importantes?

Outro ponto que incomoda bastante é como a mitologia do universo da série é apresentada, especialmente em relação aos daemons. Há vários diálogos que falam sobre como as criaturas são importantes, mas a verdade é que elas aparecem pouco em tela, o que diminui sua relevância aos olhos do público. Como as criaturas não aparecem o tempo todo, o choque de crianças sem seu daemons, um ponto chave da primeira temporada, perde força. A reação dos personagens faz o público imaginar a importância do que está acontecendo, mas a verdade é que quem está assistindo não sente isso realmente.

Claro que, se tratando de TV, há algumas limitações de orçamento, especialmente pelo lado da BBC. No entanto, a HBO é um canal grande e o cuidado com isso deve ser redobrado na segunda temporada para amenizar essa sensação deixada aqui. Outra decisão confusa foi na batalha final entre dois personagens digitais importantes. Ao invés de mostrar graficamente a violência do momento, algo importante para estabelecer o personagem que vence, a série escolheu deixar a cena desfocada em segundo plano e focar na reação de Lyra. Isso foi, de fato, muito decepcionante para quem estava aguardando o embate. Ter a expectativa de uma cena e vê-la sendo deixada de lado é uma grande quebra de expectativa. Novamente, fica a dúvida sobre os motivos da decisão: foi falta de orçamento para finalizar os efeitos visuais, ou a escolha de não mostrar uma cena gráfica? Se a resposta for a segunda, o canal precisa repensar em sua abordagem da história, já que Fronteiras do Universo é recheada de momentos ainda mais densos.

Além disso, uma das maiores dificuldades da primeira temporada de His Dark Materials foi estabelecer uma conexão verdadeira com seu público e transmitir emoções. Até mesmo Dafne Keen tem dificuldades em algumas cenas como Lyra. A jovem vai bem quando interage com o elenco humano (Lin-Manuel Miranda, James McAvoy), mas não entrega o mesmo com o urso gigante Iorek, ou até mesmo com seu daemon, Pan. É possível perceber que há uma ligação entre entre esses dois últimos, mas os diálogos de Keen são muito mais mecânicos quando se trata de personagens digitais, outro ponto que enfraquece a reação do público.

No entanto, ainda que tenha tais pontos negativos que precisam ser corrigidos urgentemente para a segunda temporada, His Dark Materials entregou um primeiro ano sólido e grande parte disso se deve à incrível atuação de Ruth Wilson como a Sra. Coulter. Ainda que seja uma vilã capaz de cometer atos horríveis, inclusive contra crianças, Marisa não se limita à isso. A Sra. Coulter é forte e fraca, feliz e triste, segura e insegura, tudo isso ao mesmo tempo. Tantas camadas tornam a personagem extremamente humana e fácil de se relacionar. Lin-Manuel Miranda também faz um bom trabalho como um Lee Scoresby e é impossível não citar o trabalho de James Cosmo como Farder Coram. O modo como o ator transita entre emoções e vai de uma conversa normal para um momento carregado de sentimentos, é tocante. Coram tem um dos passados mais interessantes de toda a franquia e é satisfatório ver que o personagem ganhou tempo para desenvolver isso na frente das telas.

A segunda temporada de His Dark Materials já está pronta e resta aos fãs esperar que a jornada de Lyra da Língua Mágica e Will Parry seja mostrada da maneira que merece: sem amarras, sem medo de tocar em pontos polêmicos e com muita fidelidade ao material original.

Nota do Crítico
Bom