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Pantera Negra e o anticolonialismo

Conversamos com o autor Evan Narcisse e Christopher Judge

Diego Lima
17.08.2021
09h00
Atualizada em
17.08.2021
09h37
Atualizada em 17.08.2021 às 09h37

O Pantera Negra estrela a maior expansão do jogo Marvel's Avengers, intitulada War for Wakanda. Nela, o super-herói é interpretado pelo ator Christopher Judge, que faz também a voz de Kratos, personagem principal de God of War. Para essa versão inédita de T'Challa, o estúdio Crystal Dynamics contou com a ajuda do autor Evan Narcisse, conhecido por Rise of the Black Panther, como consultor narrativo.

Recentemente, tivemos a oportunidade de conversar com Judge e Narcisse a respeito da expansão mencionada, mas a conversa acabou indo muito além do jogo. Afinal, quando se fala em Pantera Negra, é sempre possível abordar as histórias por diferentes perspectivas.

Pantera Negra em Marvel's Avengers.

Pantera Negra em Marvel's Avengers.

Square Enix

"Todos os bons super-heróis possuem um forte núcleo de ideias no centro. Certo? Então, no caso do Superman, é como uma história do imigrante salvador, certo? Você sabe, ele é aceito em uma sociedade, uma cultura e uma família que não são as dele. E ele cresce para representar o melhor da humanidade. Certo? Batman é sobre alguém que transforma a tragédia em altruísmo e justiça", explicou. "Acredito que, no caso do Pantera Negra, há uma forte noção anticolonialista no núcleo do personagem, sabe, e você vê isso nas melhores histórias do Pantera Negra."

"Digo, uma das minhas histórias favoritas do Pantera Negra é 'See Wakanda and Die', de Jason Aaron. Me esqueci de quem era o artista [Jefte Palo era o artista e Lee Loughridge ficou responsável por colorir], mas a história se passa durante um crossover de Invasão Secreta lançado alguns anos atrás", contou. Na história, Skrulls tentam dominar a Terra e, no processo, decidem atacar uma nação africana. Você já sabe o que acontece, provavelmente. Wakanda resiste. "A história não aborda o colonialismo explicitamente, mas acho que a questão anticolonialista está tão enraizada em Wakanda, enquanto conceito, que as melhores histórias tiram vantagem disso."

Capa de See Wakanda and Die.

Capa de See Wakanda and Die (Parte 1).

Marvel Comics

Evan Narcisse conheceu o Pantera Negra por meio de histórias publicadas nos anos 1970. Ele ficou surpreso com o fato de que o herói era um estrangeiro em vez de uma pessoa acostumada com a cultura dos Estados Unidos. Filho de pais imigrantes (a mãe dele nasceu no Haiti), Narcisse se identificou imediatamente com a história. Principalmente, porque a forma como T'Challa falava sobre Wakanda o fazia lembrar de como a mãe dele falava sobre o Haiti.

Neste momento da conversa, Christopher Judge faz uma intervenção. Ele explica que, surpreendentemente, quando estava no Distrito Escolar Unificado de Los Angeles, nos anos 1970, Wakanda parecia um lugar mais real para ele do que qualquer nação da África.

Wakanda em Marvel's Avengers.

Wakanda em Marvel's Avengers.

Square Enix

"Porque você não era ensinado a respeito dos lugares da África. Nós estudávamos a história do Egito de uma maneira curiosa. Falávamos sobre o Egito como se fosse um lugar que não o próprio Egito. Sabe, então, Wakanda, para mim, parecia mais real do que qualquer coisa sobre a África, porque eles nunca ensinavam a você qualquer coisa sobre a África", disse Judge.

Tanto Narcisse quanto Judge são descendentes de africanos. Enquanto conversávamos, os questionei a respeito dos vilões favoritos deles em histórias da Marvel. Alguns nomes clássicos vieram à tona, como Doutor Octopus, Doutor Destino, Namor (que teve alguns momentos de vilão) e, inevitavelmente, Killmonger.

Michael B. Jordan como Killmonger.

Michael B. Jordan como Killmonger.

Marvel Entertainment

"Sei que estamos falando sobre War for Wakanda. Contudo, isso tem a ver com ser preto nos Estados Unidos da América. Digo, essa dicotomia entre Killmonger e T'Challa. Se nós, como pessoas pretas, nos permitíssemos ser governados pela dor que esse país causou, em vez de sermos governados pelo nosso amoroso excepcionalismo, esse seria um lugar bem diferente", disse Judge.

O Doutor Destino e Namor, especificamente, foram pontos sobre os quais Narcisse falou com muita empolgação. Ele é um fã de ambos os vilões e consegue enxergar motivações justas nas atitudes dos dois personagens.

Doutor Destino nos quadrinhos.

Doutor Destino nas HQs da Marvel.

Marvel Fandom

"Tive a sorte de usar Doom em Rise of the Black Panther. E o que é mais impressionante a respeito dele é que, sim, houve injustiça institucionalizada contra ele", avaliou Narcisse. "A família dele tinha menos poder do que outras pessoas do país dele. Isso fez com que eles fossem expulsos e os pais dele morreram como consequência desse preconceito."

Seguindo no caminho oposto de heróis que passaram por injustiças e discriminação, o Doutor Destino decidiu que somente ele sabia do que o mundo realmente precisava após passar por todo aquele sofrimento e acabou tomando o rumo que tomou. É diferente do que acontece com Namor, mas há evidentes paralelos com a sociedade contemporânea real em ambos os casos.

Namor nas HQs da Marvel.

Namor nas HQs da Marvel.

Fandom Marvel

"Às vezes, [Namor] é um vilão. Às vezes, não. Ele diz 'eu governo 70% deste planeta, mas, vocês, moradores da terra, são tão narcisistas que acreditam ser os que estão no comando'", contou Narcisse. "Se você ler as histórias de Namor da Era de Ouro, dos anos 1930 e 1940, verá que ele diz 'vou declarar guerra contra o homem branco.' É evidente que ele foi codificado como um 'outro' [alguém que não pertence ao mundo do homem branco], então, isso é fascinante para mim. Ele tem a pele rosada, exatamente como os homens que estão caminhando na terra, mas ele diz 'eu não sou um de vocês. Vocês estão mexendo com o meu povo.'"

War for Wakanda não vai contar, necessariamente, com todos os personagens citados na entrevista. Se você quer saber mais sobre a participação de Pantera Negra em Marvel's Avengers, não deixe de conferir a matéria completa no The Enemy.

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