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Como Os Eternos pode ser o primeiro épico bíblico do Marvel Studios

Uma adaptação fiel da HQ de Jack Kirby passará obrigatoriamente por analogias cristãs

Marcelo Hessel
28.09.2018
17h33

É difícil saber o que esperar do filme dos Eternos porque, antes de mais nada, a história da equipe é uma mistura megalomaníaca de referências. Quando Jack Kirby deixou a DC Comics sem conseguir completar sua história dos Novos Deuses, ele voltou para a Marvel e lá reaproveitou conceitos de cosmogonia e mitologia para explicar a vida na Terra do Universo Marvel a partir dos gigantes Celestiais. Uma das principais referências de Kirby na HQ era o cristianismo - e não seria estranho se o Marvel Studios fizesse com The Eternals seu primeiro... épico bíblico.

Marvel Comics/Reprodução

A ideia central por trás do primeiro volume da série, publicado em 19 edições entre 1976 e 1978, é a de que os chamados eternos estão por trás das narrativas mitológicas da Humanidade - os deuses do Olimpo grego eram eternos e figuras proeminentes de eventos definidores da história do mundo, como Nero ou Atila, conviveram com eles. Essa noção se consolida na quinta edição, a que revela a cidade eterna de Olímpia; na caixa de diálogo que abre a HQ, Kirby apresenta os eternos como "a verdade que há por trás de todas as mitologias".

Embora passeie por panteões ecléticos, porém, nas edições anteriores Kirby usa como base para a série uma noção cristã de Bem e Mal. Quando os primatas ainda caminhavam sobre quatro patas, os Celestiais vieram à Terra e aqui fizeram experimentos para criar três raças: os eternos, os humanos e os deviantes. A organização entre eles se assemelha à divisão entre céu e inferno; castigados pelos deuses, os deviantes se refugiaram nas profundezas dos oceanos, criando armas e planejando conflitos, enquanto os plácidos eternos encontraram abrigo nos topos das montanhas, de onde perscrutavam o universo com suas mentes, e coube aos homens povoar as terras baixas do planeta.

Se essa organização já tem um caráter cristão evidente, a própria noção de que os deviantes são parentes "corrompidos" dos eternos, seres deformados que não têm a mesma beleza dos "escolhidos" dos Celestiais, só cimenta o paralelo com a Bíblia e seus anjos caídos convertidos em demônios. Quando os deuses voltam à Terra nos dias de hoje (a ação que Kirby narra ao longo do Volume 1), o deviante Kro, que tinha a cabeça lisa quando surge pela primeira vez, então desenvolve chifres que, segundo ele, lhe dão uma imagem demoníaca que é capaz de instigar os humanos a temê-lo. "Eles não vão rir disto... Até o dia de hoje, esta imagem assombra as mentes deles como um vírus", diz Kro antes de partir em um ataque a Nova York. A ideia de Kro não é subjugar, mas instigar o medo e a ira nos humanos contra os deuses - uma agenda mais próxima do Mal cristão do que normalmente se vê em supervilões de quadrinhos.

Na HQ, Kirby não apenas estrutura esse paralelo como faz o derradeiro cruzamento numa cena em que Ikaris, o primeiro eterno criado pelo quadrinista (que deve estar no filme, e na HQ tem a loirice mais angelical possível), se explica a dois humanos: quando um dilúvio cobriu o planeta, Ikaris liderou o equivalente à Arca de Noé para preservar a vida na Terra. Kirby não se faz de desentendido: revisita o mito bíblico, desenha a própria arca, cuja carga consistia de "humanos e de fauna silvestre".

Em Os Eternos, o dilúvio acontece não como uma punição à corrupção dos homens, mas dos deviantes que então governavam a superfície. Os Celestiais são pintados como criaturas onipotentes que controlam sua criação com olhar vigilante, e a segunda vinda dos deuses à Terra (quando acontece o dilúvio que castiga os deviantes a viver sob os oceanos) é descrita como a vinda "da ira e da disciplina". Nos bancos de dados dos quadrinhos Marvel, a vinda do dilúvio inclusive é demarcada seguindo o calendário gregoriano e teria acontecido 18.500 anos antes de Cristo.

Todos esses elementos estão na base de The Eternals. Trazer as "guerras antigas" para os dias de hoje e dar corpo às superstições dos humanos é a intenção dos deviantes, nas palavras de Kro, e essas duas expressões, "superstição" e "antigo", dão margem a reinterpretações de Os Eternos que obviamente lidam com mitologia e narrativas folclóricas que podem facilmente beirar o religioso. É possível imaginar nesse filme um épico em que eternos se caracterizam como anjos e deviantes, como criaturas demoníacas que desafiam os deuses - na verdade, uma adaptação fiel à obra de Kirby não poderia fugir muito desse viés.

As primeiras informações dão conta de que o filme, escrito por Matthew e Ryan Firpo e dirigido por Chloé Zhao, terá pelo menos os dois primeiros eternos apresentados por Kirby: Ikaris (o "anjo") e Sersi (uma feiticeira que é análoga à Circe da mitologia olimpiana). Ou seja, pode sair daí um épico religioso e um épico grego também - mas nesse caso Mulher-Maravilha e a DC chegaram primeiro.