Como foi o clima na Bienal do Rio pós-tentativa de censura

Créditos da imagem: Lucas Bulhões/Divulgação

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Como foi o clima na Bienal do Rio pós-tentativa de censura

Pânico, incerteza e protesto tomaram conta do evento no sábado de feriado

Cláudio Gabriel e Lucas Bulhões
08.09.2019
11h26

O dia 7 de setembro, feriado da Independência do Brasil, foi extremamente marcante para a produção artística nacional. E, ainda mais, para a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Após os atos de censura feitos pela prefeitura, o evento passou por diversas comoções e um dia um tanto quanto conturbado.

Tudo começou na quinta-feira, dia 5 de setembro. Em uma atitude drástica, o prefeito da cidade do Rio, Marcelo Crivella, decidiu pedir pelo recolhimento das edições da HQ Vingadores: A Cruzada das Crianças. Segundo o mesmo, a obra continha material pornográfico na qual deveria – sob o argumento do artigo 78 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) – conter um faixa mostrado que o conteúdo é explícito e embalado em uma sacola preta. O problema é que a decisão por parte de Crivella não possuía nenhum respaldo jurídico pelo motivo do material não ser pornográfico, mas sim conter um beijo entre dois personagens homens.

No dia 6, fiscais da prefeitura foram até a Bienal para procurarem edições e cassá-las. Eles acabaram por não encontrar nenhuma, esgotadas devido a imensa procura. O pequeno número de exemplares evaporou em apenas 39 minutos da sexta.

A decisão por chamar a fiscalização chocou a todos e gerou revolta por parte das editoras presentes no evento. A Faro Editorial, por exemplo, colocou um cartaz em seu estande escrito “Livros Proibidos Pelo Crivella”. Além disso, houve uma grande comoção nas redes sociais apontando censura por parte do prefeito.

O youtuber Felipe Neto transformou tudo isso em uma ação: comprou 14 mil livros de diversas editoras presentes no evento para distribuir gratuitamente escrito “Esse livro é Impróprio Para Pessoas Retrógradas, Atrasadas e Preconceituosas”. Entre as distribuídas estavam publicações como Boy Erased, Me Chame Pelo Seu Nome, Com Amor, Simon, entre outros.

Inicialmente, as obras seriam dadas em dois horários, 12h e 18h. O primeiro horário ocorreu conforme o programado, com filas se formando pela praça central do lugar desde 10h30 da manhã. O segundo acabou por ser adiantado para cerca das 15h, próximo de quando saiu a decisão do presidente do TJ-RJ de recolher os livros LGBTQ+ da feira. Dessa forma, os 14 mil exemplares foram esgotados rapidamente, por volta das 18h.

O clima ao longo do dia

Todo o sentimento ao longo do dia na Bienal foi marcado pelo acolhimento. Devido a distribuição de livros de Neto e ao feriado, o evento teve seu recorde de público em um único dia com 70 mil pessoas. Uma parte relativamente significativa desses presentes sendo jovens e LGBTQs+, com expressões através de camisas, adesivos e mais. Durante a doação, inclusive, foi possível ver muitos casais e pessoa abraçadas nas bandeiras.

Nos estandes, não houve nenhuma mudança em relação a apresentação dos livros relacionados a essa temática. Para além do posicionamento nas redes sociais, a Intrínseca foi uma das poucas a colocar a causa em destaque, com uma bandeira hasteada no início de seu estande. A Companhia das Letras tem sua área de destaque para livros da temática desde o início da convenção, tendo sido todos comprados por Felipe para distribuir. Houve reposição logo ao início do sábado. Na Harper Collins, houve a colocação do livro A Bela e a Adormecida, de Neil Gaiman, com um beijo entre duas mulheres estampado em aberto.

Após a decisão do TJ-RJ começou um clima de incerteza no ar. Alguns estandes, ao serem contatados pela reportagem, não quiseram comunicar o que fariam caso os fiscais viessem.

Visto o acontecido, era esperado que alguns dos debates girassem em torno das pautas. Na mesa ‘Diversidade, substantivo plural’, a discussão se pautou na função da diversidade e representação social na literatura. O escritor João Silvério Trevisan aproveitou para relacionar ao ocorrido no dia anterior, dizendo que "o governo usa o medo como uma epidemia. Nós conquistamos um bocado de direitos que não tínhamos antes. E quando as pessoas se mostram assustadas, eu digo que elas estão caindo no que eles [os governantes] querem”.

Quando foi sabido da vinda dos fiscais, as outras mesas assumiram um tom ainda mais direto. O debate ‘Literatura arco-íris’, na qual levava escritores LGBTQ+ para falarem de suas obras, foi interrompido pelo escritor Michel Uchiha, pedindo a união de todos em direção ao Pavilhão das Artes, onde os fiscais se encontravam. Anteriormente, já havia sido realizado um beijaço como forma de protesto

"Os órgãos censores estão aqui recolhendo livros. Eles estão atacando nossas existências, liberdade de expressão e o estado democrático de direito", sucedeu a advogada Giowana Cambrone ao auditório, antes que todos se reunissem ao lado de fora.

A chegada de fiscais da prefeitura, por volta das 18h, colocou um clima maior de pânico no ar. Esses acabaram por ficar por duras horas conversando com a direção da Bienal, em uma tentativa de impedir a entrada desses. Contudo, os agentes públicos entraram à paisana no evento.

Com livros em mãos - dos quais muitos faziam parte dos distribuídos por Felipe Neto em sua ação -, centenas de leitores faziam ecoar gritos como "Fora Crivella" e "Não vai ter censura". Em uma marcha pelos quatro pavilhões que compõem a feira, o movimento acabou ganhando mais adeptos e tomando os holofotes dos eventos.

Entre os líderes da manifestação estavam Uchiha e a autora Marcela Passos. O primeiro tenta levar suas publicações como causa social propriamente, por isso toda a situação o marcou.

Parte dos lucros dos meus livros são aplicados para instituições com LGBTs em situação de vulnerabilidade. Amanhã [dia 8] nós vamos trazer essas pessoas para que eles tenham acesso a cultura”, conta. “Eu não quero que mais pessoas passem pelo que eu passei. Eu quero que mais pessoas tenham acesso a nossas histórias, quero que mais pessoas sejam conscientizadas, eu quero que as pessoas olhem para pessoas diferentes, quero que as pessoas entendam, de verdade, o que é diversidade”.