Capa do livro O Último Ancestral (HarperCollins/Divulgação)

Créditos da imagem: Capa do livro O Último Ancestral (HarperCollins/Divulgação)

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Artigo

Afrofuturismo e literatura: quando as palavras indicam novos caminhos

Com berço na ficção científica, o afrofuturo é uma fonte inesgotável de entretenimento

Pedro Henrique Ribeiro
19.11.2021
18h22
Atualizada em
19.11.2021
21h25
Atualizada em 19.11.2021 às 21h25

O termo “afrofuturismo” foi cunhado pelo escritor americano Mark Dery nos anos 1990 em seu artigo Black To The Future, uma referência ao clássico oitentista de Robert Zemeckis. Ele fez uso desse então neologismo — afrofuturism — para se referir às criações futuristas da população afro-americana e problematizar a falta de autores negros no gênero de ficção científica na época. Mal sabia Dery que a inquietação que ele sentiu naquela época era o sinal de uma erupção criativa que estava para acontecer em todo o mundo.

No decorrer de sua pesquisa, ele encontrou outro problema: “pode uma comunidade que teve seu passado tão deliberadamente apagado, e cujas energias foram subsequentemente consumidas na busca por traços legíveis de sua história, imaginar futuros possíveis?”. Afinal, talvez houvesse poucos escritores negros na ficção científica porque era mais difícil para um negro imaginar o futuro — e é no futuro que essas tramas se passam.

Em busca de respostas, Mark Dery conversou com os também escritores Tricia Rose, Samuel R. Delany e Greg Tate. Nesse processo, ele teve contato com outras plataformas de cultura, como quadrinhos, grafite, música, entre outras que também serviam como exemplos de criações afrofuturistas. Pode-se dizer que essas produções passam por um processo de reconectar as pessoas à sua ancestralidade, apontando uma realidade futurística mais promissora e, muitas vezes, utópica.

Desde a publicação do artigo de Dery, o afrofuturismo passou por uma série de redefinições e deixou de ser citado apenas em contextos da cultura negra norte-americana. Hoje, a corrente afrofuturista abraça um número bem mais abrangente de atividades. Para além da ficção científica, o afrofuturismo conversa com outros contextos da realidade afrodiaspórica e permite novas leituras e entendimentos sobre futuro e negritude.

O futuro no papel

Ainda que a semente do afrofuturismo tenha dado origem a debates e estéticas em diversas direções, seu berço na literatura continua vivíssimo. Quando escreveu seu artigo, Dery conseguiu apontar apenas Delany, Steve Barnes, Charles Saunders e Octavia Butler — considerada a mãe do movimento — como autores de ficção científica negros, mas a realidade atual já é bem mais promissora, inclusive no Brasil.

Capa do livro O Último Ancestral (HarperCollins/Divulgação)
Capa do livro O Último Ancestral (HarperCollins/Divulgação)

Por aqui, alguns nomes se destacam na literatura afrofuturista, como Fábio Kabral. Ele é autor de O Caçador Cibernético da Rua 13 e A cientista Guerreira do Facão Furioso. Além do trabalho como escritor, Fábio mantém um canal do YouTube para ensinar sobre o movimento. Outro nome é o de Lu Ain-Zaila, pedagoga e uma das primeiras a trabalhar a literatura afrofuturista no país. Ela é autora de (In)Verdades: Uma heroína Negra Mudará Tudo, (R)Evolução: Eu e a Verdade Somos o Ponto Final e Sankofia: Breves Histórias Sobre Afrofuturismo.

Além deles, a escrita negra de ficção também está ganhando mais um nome no Brasil: Alê Santos. O escritor e roteirista pesquisa sobre afrofuturismo há algum tempo e até criou o podcast Infiltrados no Cast para falar sobre o movimento agora lança seu primeiro romance afrofuturista chamado O Último Ancestral. A trama futurista se passa no Distrito de Nagast, dominado pelos Cygens, criaturas híbridas de humanos e máquinas. As possibilidades de se conectar com religiões e tradições foram destruídas e proibidas, impedindo a população de ter qualquer contato com espíritos ancestrais, divindades e sacerdotes. Além disso, uma forte segregação é imposta: toda a população negra é exilada em Obambo, uma favela na periferia de Nagast.

No livro de Alê, conhecemos Eliah, um jovem de Obambo especializado em roubos de carros que está sempre se arriscando pelas ruas do Distrito na tentativa de oferecer uma vida melhor para sua irmã, Hanna. Mas tudo muda quando o garoto tem uma visão assustadora: Moss, a fundadora de Nagast, até então dada como morta, reaparece e revela que Eliah carrega em si o poderoso espírito do Último Ancestral.

O escritor conta que a obra recém-publicada já tem uma continuação pronta em sua mente e que essas histórias tiveram origem em 2019, com um conto antológico de 50 mil caracteres. “Porém, essa história se passa 200 anos depois e só tem uma personagem que se mantém”, diz Alê, que também trabalha em uma obra steampunk e samba.

Do papel para as telas

A última etapa de uma obra afrofuturista é quando ela ganha as telas. Esse processo pode ser orgânico, como um livro ou quadrinho adaptado para TV e/ou cinema, ou pode ser direto, com um roteiro criado diretamente para isso. Alguns exemplos de afrofuturismo nas telas são Pantera Negra, da Marvel, A Cor do Poder, da BBC, e o filme nacional Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós. Essas obras têm em comum a relação imposta entre o presente e a ancestralidade e como isso reflete no futuro, seja ele tecnológico ou não.

Capas de Raybearer e Redemptor, de Jordan Ifueko (Reprodução)
Capas de Raybearer e Redemptor, de Jordan Ifueko (Reprodução)

Mais recentemente, noticiamos que Gina Atwater, roteirista de Westworld, está trabalhando para adaptar o livro Raybearer, de Jordan Ifueko, para uma nova série da Netflix. A trama do livro de Ifueko tem aspectos baseados na cultura da África Ocidental e segue uma criança que tem uma educação misteriosa. No ano passado, Raybearer ganhou uma sequência chamada Redemptor.

Alê Santos comemora essa tendência. “Boa parte dos direitos das grandes franquias estão indo para a Disney, centralizados no mesmo estúdio, e isso faz com que outros streamings olhem para novos autores e possibilidades de novas franquias”, diz ele que está trabalhando em um projeto audiovisual “secreto” com a essência afrofuturista. “Estou em uma sala de roteiro. Vai demorar para a gente poder revelar, pois, é um processo de escrita longo. Eu quero fazer parte desse movimento e ver o universo afrofuturista crescer”.

Assim como Alê, todo mundo que já leu alguma obra afrofuturista que tenha gostado deve querer ver mais desse universo nas telas. Hoje, a inquietação de Mark Dery tem uma resposta: os autores negros da ficção estão por todos os lugares, e suas obras, conquistando cada vez mais espaço. A representatividade negra nos grandes blockbuster e o reconhecimento do trabalho de artistas negros se tornam cada vez mais inevitáveis. Que bom!

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