Diversidade a conta-gotas não serve para mim

Créditos da imagem: Warner/Divulgação

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Diversidade a conta-gotas não serve para mim

Rostos precisam mudar dos dois lados da câmera

Pedro Henrique Ribeiro
03.07.2021
14h03
Atualizada em
03.07.2021
14h22
Atualizada em 03.07.2021 às 14h22

Neste sábado (3), é celebrado o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial. A data recorda um evento que ocorreu há exatos 70 anos, quando foi aprovada a primeira lei contra o racismo no Brasil. O texto da época tornou contravenção qualquer prática de preconceito por cor ou raça. Desde então muitas outras propostas surgiram no país, como a própria Constituição Federal de 1988, que determinou que racismo é um crime inafiançável e imprescritível.

Apesar disso, não há muito o que se comemorar quando o assunto é equidade racial, especialmente se estivermos falando de Brasil. Em 2019, por exemplo, das 47.773 vítimas de assassinato, 74,4% (35.543) eram pessoas pretas. Segundo o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em todos os cenários de homicídio, quem mais morreu foram os negros.

Você pode estar se perguntando: “por que estou lendo essas coisas em um site de entretenimento como o Omelete?”. Bom, primeiramente, racismo é um problema que afeta todas as pessoas - sim, brancos também! - e setores, e a indústria do entretenimento têm os impactos mais visíveis. Além do mais, racismo não é apenas sobre ofender e/ou agredir corpos não-brancos. Na sua forma mais estrutural, ele é um crime velado e sorrateiro que você não vai enxergar se não observá-lo bem atentamente. Quantos atores negros com papéis fixos tem a sua sitcom favorita? Será que você consegue se lembrar de algum indígena atuando nela?

E quanto aos super-heróis... Bom, aí com certeza temos muitos nomes para citar, como Super Choque, Pantera Negra, Spike (X-Men), Tempestade, Lanterna Verde (da animação de Liga Justiça). Um número até que legal, mas e se a gente colocasse esses caras ao lado dos heróis brancos? A desproporcionalidade seria gritante, e é sobre isso que precisamos falar.

Isso é assim por um motivo. A indústria do entretenimento é dominada por executivos brancos, que, através do pacto narcísico da branquitude, sempre privilegiam outras pessoas brancas. O executivo branco vai contratar um roteirista branco para trabalhar com um diretor branco, que vai montar um cast branco para entregar um conteúdo pensado para um público branco. Hoje em dia, com um pouco de pressão, temos alguns personagens negros e/ou LGBTQIA+ inseridos nesses meios. Em casos excepcionais, como em Os Novos Mutantes (2020), encontramos alguma representatividade indígena. Afinal, toda empresa quer receber o selinho antirracista no final do ano. Mas essa “diversidade a conta-gotas” não basta.

Hey! Eu sou negro e meu ingresso vale tanto quanto os de uma pessoa branca. Eu quero me ver nas telas e, se possível, quero me ver por tempo o bastante. Quero um filme do Super Choque e ver o Idris Elba interpretando o Lanterna Verde. Quero ir ao cinema com meus amigos negros, indígenas e LGBTQIA+ e ver mais que um beijo cis-hétero branco depois de a Terra ser salva. E essas mudanças só serão possíveis quando os rostos nos bastidores mudarem um pouco.

Não podemos admitir absurdos como o que aconteceu após a maravilhosa Anna Diop ser escalada para interpretar a Estelar na série Titãs. Ou o que está acontecendo agora com Kirby Howell-Baptiste, que será a Morte em The Sandman, da Netflix. Comentários dos mais asquerosos surgiram para atacar as profissionais. No caso de Sandman, o próprio autor, Neil Gaiman, já se pronunciou diversas vezes sobre o caso, explicando que Morte não tem um rosto, cor ou gênero, ela pode assumir qualquer forma. Então, por que a pele preta na tela incomoda tanto essas pessoas? A resposta eu deixo para você. Chega a ser irônico precisarmos defender personagens negros nas telas quando Hollywood é uma enorme fábrica de whitewashing.

Os dois últimos episódios de Loki resumiram bem a ideia que estou tentando levantar aqui. Além de um Deus da Mentira bissexual, a produção também nos mostrou uma variante negra de Loki. Sim, eu sei que você ficou mais intrigado com o jacaré.

Antes de mais nada, os estúdios precisam lembrar que diversidade vende, e não estou falando de nenhuma fórmula mágica. É uma coisa bem simples: se eu sei que houve um esforço para me representar naquilo, as chances de eu querer assistir são maiores.

Claro, não podemos deixar de reconhecer os trabalhos incríveis que Jordan Peele, Nia DaCosta e Spike Lee têm realizado na indústria cinematográfica norte-americana. No Brasil, qualquer cinema que se preze deveria exibir o trabalhos de mulheres como Viviane Ferreira, Sabrina FidalgoRenata Martins e Juliana Vicente.

E se você tiver interesse em conhecer um pouco mais sobre o trabalho audiovisual indígena brasileiro você pode começar pelos documentários Os Verdadeiros Líderes Espirituais (2014), Tekowe Nhepyrun: A Origem da Alma (2015) e O Último Sonho (2019). Todos eles foram dirigidos pelo cineasta guarani Alberto Alvares. Se documentário não for a sua, Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos (2019) é um drama sobre indígenas do povo Krahô.

Enfim, está na hora de as coisas começarem a mudar para valer. Pantera Negra foi um lindo presente para as crianças negras em todo o mundo, mas precisamos dar o próximo passo como sociedade. Não adianta mostrar para uma criança indígena ou da favela que existem heróis parecidos com ela, se ela for atingida em uma troca de tiros ou morta por invasores de terra. Aqui na vida real, o Superman não sobe morro nem temos um comissário Gordon de plantão para nos proteger. O Brasil precisa de soluções eficientes de combate ao racismo para que a gente não precise falar sobre isso de novo daqui a 70 anos, e isso só será possível quando essa for uma preocupação de todos.

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