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Stranger Things e a nostalgia pelos anos 80 para quem não viveu a época

Como alguém nascido muito depois dessa "era de ouro" vê a tendência de reviver o passado

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Arthur Eloi
11.07.2019
21h10
Atualizada em
11.07.2019
21h58
Atualizada em 11.07.2019 às 21h58

Texto originalmente publicado em 13 de novembro de 2017.

Era difícil saber o que esperar da "continuação" de Stranger Things considerando o quanto a primeira temporada da série da Netflix gira em torno de uma única palavra: nostalgia.

Eventualmente o seriado se provou maior do que as referências, mas é complicado negar que a criação dos irmãos Duffer nutre um carinho quase obsessivo pela década de 1980 - algo que está longe de ser único. Há uma tendência de resgatar os clássicos, seja apenas no relançamento de consoles como o Nintendinho ou na reformulação de obras já estabelecidas, como a nova adaptação de It - A Coisa, de Stephen King. Existe um carinho enorme por reviver o passado, mas isso levanta a questão: Stranger Things e a atual onda de nostalgia têm algum impacto para as novas gerações?

Eu definitivamente não peguei os anos 80. Na verdade, só fui nascer quando a década seguinte já estava para acabar, em 1997. Minha infância e pré-adolescência só foram ocorrer nas décadas de 2000 e 2010. Como muitos da minha geração, eu certamente não me enquadro no público nostálgico, mas há um sentimento comum em trabalhos construídos como homenagens ao passado: familiaridade. Finn Wolfhard, o Mike de Stranger Things, explicou ao Omelete como esse vínculo pode existir mesmo para quem não viveu a era que desperta tanta nostalgia, "Penso que a década de 1980 serve como base para esse século. A música e o estilo são reutilizados nos dias de hoje, muitos artistas nunca seriam tão bons sem essa época pois não teriam a mesma sensibilidade sonora ou visual."

Há alguns fatores que tornam os anos 80 tão criativos e influentes. Com o crescimento do VHS, a década abriu a possibilidade dos filmes e séries de TV ganharem vida nova fora do cinema e horários de exibição, mudando a noção de que um fracasso de bilheteria representava um produto de baixa qualidade. Cineastas passaram a experimentar mais em suas criações, enquanto o público tornou-se mais fanático. Assim surgiram algumas das obras mais influentes da história - que marcam as vidas da próxima geração de diretores, roteiristas e criadores em geral.

Isso foi carregado até hoje. Minha geração foi criada por filmes, séries e jogos diretamente inspirados por clássicos oitentistas. Toda desventura que Nathan Drake sofre em Uncharted traz lembranças da icônica música do personagem homônimo de Harrison Ford em Indiana Jones. Toda jornada com grupos de crianças enfrentando problemas sem a ajuda dos adultos tem aquele gostinho de Os Goonies e Conta Comigo. Existe até mesmo obras como o livro Jogador Nº1, de Ernest Cline, que são criadas em cima de referências à Blade Runner, Rush e outros marcos da época.

Dessa forma, Stranger Things faz sentido para uma nova geração porque nós crescemos acompanhando tudo que foi inspirado pelas mesmas obras que o seriado glorifica. É a familiaridade através de terceiros, de conhecer os derivados a exaustão. O caminho inverso também pode ser trilhado: investigar o que influenciou seus artistas e trabalhos favoritos podem levar a descoberta de clássicos atemporais.

A trilha sonora de ambos os volumes de Guardiões da Galáxia, por exemplo, serve como uma bela playlist para uma nova geração encontrar cantores e bandas como Fleetwood Mac, Cheap Trick e Marvin Gaye. Eu, por exemplo, sempre fui grande fã de jogos de tiro, o que me levou a conhecer Doom, game de 1993 que praticamente criou o gênero. Pesquisar suas referências me levou até Aliens: O Resgate (1986) e Evil Dead (1981), hoje dois dos meus longas do coração.

Os anos 80 foram um período fascinante onde maior experimentação criativa calhou de se aliar com uma mudança nos hábitos de consumo, dando início à uma nova legião de nerds. Não só era possível consumir seus filmes favoritos no conforto de casa como também os grandes lançamentos eram aproveitados em todas as mídias: os bonecos de Os Caça-Fantasmas (1984), o jogo de Sexta-Feira 13 (1989) para Nintendinho, as HQs de Predador onde a ideia do crossover com Alien foi apresentada. Pela primeira vez a cultura pop estava em todo lugar, então ficar obcecado por ela não parecia mais uma ideia absurda.

Algo único ocorreu nessa transição do analógico para o digital, um choque cultural que dificilmente será repetido. É possível, porém, que, apesar de todas as revoluções e clássicos atemporais, a década de 1980 eventualmente será apenas mais um caso de nostalgia. Parte de um ciclo sem fim que, muito em breve, verá as pessoas da minha geração lembrando carinhosamente de suas infâncias com PlayStation 2, canais de TV paga e bandas que ainda estão na ativa. Até lá, é bom saborear esse estranho sentimento de familiaridade por uma época que, para mim, nunca existiu.