Séries e TV

Crítica

Stranger Things 3

3ª temporada foca na excelente dinâmica entre seus personagens enquanto demonstra que está pronta para acabar

Oferecimento
Arthur Eloi
04.07.2019
09h44
Atualizada em
08.07.2019
21h09
Atualizada em 08.07.2019 às 21h09

O mundo mudou desde que Stranger Things fez sua estreia na Netflix: a plataforma de streaming já não é mais a única no mercado e é preciso se preparar para a vindoura guerra de serviços contra a Disney, TimeWarner e muitas outras interessadas em uma fatia do bolo. Para tanto, são necessárias franquias originais de peso — o que o seriado certamente é. Mesmo com a cultura pop tendo superado a tendência nostálgica pelos anos 80, o programa se mantém relevante por sempre saber como se reinventar. Porém, a terceira temporada indica que a série está caminhando para o fim.

A trama retoma apenas um ano após todo o incidente com o Devorador de Mentes. Dessa vez, o já-adolescente grupo principal vive um animado e caloroso verão, tendo que lidar apenas com as dificuldades da puberdade e os atritos causados nos relacionamentos entre eles. Paralelamente, nas sombras, a criatura - trancada no Mundo Invertido - começa a abduzir moradores de Hawkins como parte de seu plano de retaliação contra a raça humana. É importante citar em duas partes pois a narrativa funciona da mesma forma: ao contrário dos anos anteriores, há equilíbrio entre o foco nos personagens e o mistério sobrenatural.

Assim, grande parte do tempo de tela é dedicado à avançar a personalidade e estado emocional do elenco: Will Byers (Noah Schnapp), o mais sofrido do grupo, precisa lidar com a mudança de interesses de seus amigos; Dustin (Gaten Matarazzo) se vê excluído após passar um mês longe dos colegas; Steve (Joe Keery) contempla uma vida abaixo das expectativas ao não ter conseguido ir para a universidade, trabalhando em uma sorveteria no shopping; Até o lado sentimental de Hopper (David Harbour) ganha mais destaque ao mostrá-lo tentando entender melhor como ser pai novamente ao cogitar como estabelecer limites no relacionamento de Eleven (Millie Bobby Brown) com Mike (Finn Wolfhard) - enquanto ele mesmo tenta definir sua relação com Joyce (Winona Ryder). Há uma clara inspiração em filmes de “coming of age”, como os clássicos de John Hughes, dando um certo tom novelesco que, estranhamente, funciona muito bem. Após tanta desgraça, é bom acompanhar o cotidiano desse universo.

Por contraste, essa rotina intensifica o arco sombrio da trama, que acompanha o Destruidor de Mentes se apoderando de Billy (Dacre Montgomery) com a intenção de possuir todos os habitantes da cidade. Se o lado diurno da série usa referências mais leves, aqui é o inverso, seja na abordagem à la Os Invasores de Corpos ou mesmo à clara inspiração visual no terror corpóreo do diretor David Cronenberg, com grotescas cenas de pessoas se dissolvendo em uma única massa de carne para compor o corpo do vilão. Alternar entre o mundano e o sangrento cria um ritmo ágil e agradável durante os primeiros episódios. Porém, a segunda metade da temporada encontra uma forma de juntar tudo numa coisa só — mesmo que sem um fio condutor tão interessante assim.

Fantasma Soviético

Existe ainda um terceiro arco narrativo, que mostra a atuação de cientistas e militares russos na pequena cidade. A primeira cena do novo ano revela que os soviéticos pesquisam desde 1984 uma forma de abrir o portal para o Mundo Invertido, mas a série nunca explica a verdadeira intenção deles com as criaturas, o que faz com que a presença russa soe mais como um clichê de filmes da época do que necessariamente uma adição ao universo do programa. Stranger Things sempre escolheu a dedo suas influências, mas essa cria uma certa fadiga. Ainda que a Guerra Fria tenha sido um prato cheio para a cultura pop, apenas apresentar o “vilão russo” sem nenhum diferencial serve apenas para relembrar como o arquétipo já foi explorado à exaustão.

Felizmente, essa falta de criatividade tem um propósito indireto, o que dá origem às melhores dinâmicas do programa. Como quando Steve, Dustin, Erica (a irmã de Lucas vivida por Priah Fergunson) e a novata Robin (Maya Hawke) — uma excelente e carismática adição por si só — exploram um bunker comunista, ou então Hopper e Joyce fingem ser uma dupla de detetives para sequestrar um cientista soviético enquanto fogem do implacável Grigori (Andrey Ivchenko), assassino russo que parece uma mistura de Dolph Lundgren com o T-800 de Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro.

Rumo ao fim?

A terceira temporada de Stranger Things atesta o quão bom o seriado é em mudar de tom a cada ano para evitar o cansaço — mesmo que isso crie inconsistências aqui e ali, como o uso excessivo de flashbacks ou um inusitado número musical no finale. Essa criatividade, porém, não se repete nas ameaças ao grupo. O lado do Mundo Invertido entrega, sim, bons momentos de horror e asco, mas já não tem a mesma originalidade de quando apresentou o Demogorgon ou o Destruidor de Mentes pela primeira vez. O acerto está em não focar nisso, mas no carisma da relação de seus personagens, como a fofa amizade entre Eleven e Max (Sadie Sink) enquanto Mike e Lucas (Caleb McLaughlin) tentam entender suas namoradas.

Curiosamente, a temporada dá tanto destaque a desenvolver seus personagens que até entrega finais conclusivos.O último episódio deixa isso claro: com duração de 1h17, os minutos adicionais soam como uma despedida. Considerando também que não há tantos ganchos interessantes a serem explorados (mesmo com uma cena pós-créditos), é fácil imaginar que Stranger Things já está contemplando seu fim. Com mais e mais serviços de streaming ameaçando o reinado da Netflix, a plataforma dificilmente deixará a série ir sem temporadas adicionais ou um derivado. Porém, mesmo que jornada dos jovens oitentistas tenha mais alguns quilômetros, o destino final está logo à frente.

Nota do Crítico
Ótimo