Por que amamos a Tóquio de La Casa de Papel - apesar de tudo

Créditos da imagem: Úrsula Corberó (em primeiro plano) como Tóquio em La Casa de Papel (Reprodução)

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Por que amamos a Tóquio de La Casa de Papel - apesar de tudo

Personagem de Úrsula Corberó já foi muito criticada pelos fãs, mas Parte 5 a tornou inesquecível

Caio Coletti
03.09.2021
16h47
Atualizada em
04.09.2021
18h09
Atualizada em 04.09.2021 às 18h09

ATENÇÃO: Spoilers da parte 5 de La Casa de Papel a seguir!

Não é novidade para nenhum fã de La Casa de Papel que Tóquio (Úrsula Corberó) é a integrante mais impulsiva, passional e propensa a erros catastróficos do grupo de ladrões liderado pelo Professor (Álvaro Morte). Dá até para fazer uma lista das vezes em que ela deu mancadas e colocou seus colegas em risco com decisões impensadas - e a gente fez, aqui no Omelete mesmo! 

Junte isso ao fato de ela ser também narradora da série espanhola, em um monólogo interno recheado de melodrama e platitudes filosóficas (quase sempre) vazias, e ao seu cansativo romance vai-e-vem com Rio (Miguel Hérran), e você tem um resultado óbvio: para muita gente, Tóquio é a “heroína” menos querida de La Casa de Papel. E mesmo assim…

Nos últimos minutos do primeiro volume da parte 5, lançado hoje (3) pela Netflix, Tóquio morre como uma heroína - sem aspas. Explodindo granadas que estavam coladas ao seu corpo e levando junto o seu arqui-inimigo, o desprezível Gandía (José Manuel Poga), além de possivelmente outros membros do grupo de militares que se infiltrou no Banco da Espanha, ela tem um final que revela a sua importância no tecido narrativo da série tanto quanto o seu valor como personagem.

O que mais você precisa saber para entender que essa mulher é uma sobrevivente?”, pergunta Berlim (Pedro Alonso) ao Professor pouco antes de Tóquio ser recrutada por ele. Os flashbacks do episódio final, “Muitas vidas para viver” (5x05), e alguns outros espalhados pela temporada, servem para nos lembrar do motivo pelo qual a personagem de Corberó era importante para o bando de ladrões da série.

Buscando por um “aríete”, uma ferramenta de força bruta, alguém com quem poderia contar para os momentos que mais exigiam coragem no assalto, o Professor acabou encontrando a mulher que se tornaria, inadvertidamente, o centro nervoso do seu bando. Se Nairóbi (Alba Flores) era o coração e a consciência dos ladrões, Tóquio era a responsável por ditar o clima das interações, por servir de tecido conectivo entre os indivíduos díspares que formavam o grupo.

É só puxar pela memória os momentos mais vulneráveis e honestos de cada um dos personagens de La Casa de Papel para se dar conta de que muitos deles, quase todos, foram durante conversas com a nossa narradora. A própria Lisboa (Itziar Ituño) tem um desses momentos na parte 5, que ajuda o espectador a entender melhor as motivações da ex-inspetora e a forma como ela se integra ao grupo. Tóquio, com sua energia confrontadora, sua sinceridade emocional inflexível, tirava de todos os personagens ao seu redor as verdades mais profundas, intrínsecas, de sua criação.

Miguel Herrán como Rio e Úrsula Corberó como Tóquio em La Casa de Papel (Reprodução)

É claro que conviver com uma pessoa (real ou ficcional) assim não é fácil. A mesma qualidade à flor da pele que a fazia tão hábil em conhecer aqueles ao seu redor tão profundamente a tornavam imprevisível, propensa a erros dolorosos e ações egoístas. Tóquio constantemente mudava suas concepções sobre si mesma, colocava tudo a perder, percebia o próprio equívoco após experimentar as consequências de suas escolhas, e tentava recomeçar - este foi o ciclo eterno e infernal da história dela, como pintado por Álex Pina e companhia.

Mas há algo de revelador no fato de que, em sua despedida, ela deseje a Rio que ele faça o mesmo. Que encontre outras vidas para viver. Que erre, e se machuque, e machuque os outros, e peça perdão, e recomece. Há algo de muito humano em Tóquio, que desnuda o quanto o nosso desgosto, como espectador, por ela, talvez seja um pouco aquele instinto reflexivo de odiar nos outros aquilo de que temos mais medo em nós mesmos.

E talvez por isso vê-la terminar sua jornada como heroína emocione tanto - porque faz pensar que, mesmo em circunstâncias totalmente diferentes, e apesar de todas as vezes em que erramos, podemos ser heróis também.

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