Dark | Entendendo a segunda temporada

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

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Dark | Entendendo a segunda temporada

Ficou difícil entender os caminhos do novo ano de Dark? A gente explica pra você

Henrique Haddefinir
01.07.2019
16h47
Atualizada em
04.07.2019
17h43
Atualizada em 04.07.2019 às 17h43

Em sua primeira temporada, Dark chegou de discretamente para o mundo, tendo surgido na Netflix como primeira produção original alemã na plataforma. A boa trama, que dosava muito bem o drama e a ficção científica, se tornou uma referência para o espectador mais atento. Contudo, é possível dizer que o apogeu do alcance da série se deu agora, em seu segundo ano, quando os roteiristas demonstraram uma capacidade ainda maior de manter sua mitologia sob controle. Complexa, a série reúne elementos conhecidos dos fãs do gênero, utiliza muito bem a narrativa fragmentada que foi demarcada pelo lançamento de Lost, acessa a ciência a serviço da história tal qual Fringe, mas recusa comparações. A identidade de Dark está em, sobretudo, lidar com um grande número de personagens em linhas do tempo diferentes, saltando de uma para a outra de modo instigante e emocional.

Enquanto o primeiro ano foi construindo suas intenções calmamente, sem pressa, o segundo – por ter as bases estabelecidas – se permitiu uma flexibilidade argumentativa maior. O que isso quer dizer? Que como costuma acontecer com todas as produções da ficção científica, quando vem a próxima parte, vem também uma série de ramificações que deixam a trama mais complexa e confusa. Está nesse estágio, inclusive, o grande problema dos títulos do gênero. Uma vez que exista muita confiança de que a história está estabelecida, muitas dramaturgias acabam perdendo o controle, abrindo brechas demais, avançando demais, “divinificando” seus protagonistas, o que pode acarretar um inevitável distanciamento pessoal com a obra.

Esse não é o caso de Dark, contudo. A série não só veio com uma segunda temporada intensa e esperta, como também organizada. Abaixo, vamos tentar clarear ainda mais essas narrativas, para que o plano maior do terceiro ano seja ainda mais acessível para todos nós, no ano que vem.

 [Cuidado com os spoilers!]

A Partícula de Deus

Dark 2ª temporada
Netflix/Divulgação

Durante muitos e muitos anos, a ciência perseguia vorazmente mais detalhes acerca de como as partículas que compunham o que chamamos de universo, ganharam massa. Os prótons e elétrons que conhecemos tão bem dos nossos anos escolares eram boa parte da compreensão científica a respeito. Isso mudou a partir de 1930, quando a necessidade de compreender porque as partículas foram se agrupando gerou uma série de teorias, que levaram até a que conhecemos como Bosón de Higgs, que seria uma partícula subatômica responsável por dar massa às demais. É como se depois que o Big Bang explodiu, parte da energia tenha formado um campo congelado que representava tudo que havia no universo. Aos poucos, uma espécie de pastosidade teria se formado desse vazio, obrigando as partículas a interagirem. O bóson passaria por essas partículas causando os efeitos de atração e repulsão. Aquelas partículas com semelhanças se unem e formam o átomo. E foi a partir do átomo que chegamos até aqui.

A existência do bóson foi discutida fortemente desde 1964, mas foi em 1993 que o termo Partícula de Deus foi popularizado. É aí que a história fica mais interessante... O físico Leon Lederman queria lançar um livro sobre o bóson, que se chamaria The Goddamn Particle (A Partícula Maldita). O “maldito” era uma maneira de sublinhar como era difícil provar que o tal bóson existia. Porém, o editor não gostou do título, suprimiu o damn da palavra e lançou como The God Particle (A Partícula de Deus). O nome irritou a comunidade científica, que temia que as pessoas achassem que havia qualquer coisa divina envolvida no processo. Porém, o título também acabou funcionando como uma ironia ao fato de que a existência do átomo se dá através do bóson e é o átomo o início de todas as coisas.

Dark usou a expressão Bóson de Higgs através de uma explicação de Adam para o que seria aquela massa negra “viva” que aparece logo no começo da temporada. Ele também, mais tarde, atribui a ela o nome Matéria Escura, que também é parte de uma teoria sobre a criação do universo, em que boa parte dele estaria sob essa matéria, invísivel porque não emite luz, e por isso mesmo inacessível e misteriosa (e que aparece alegoricamente representada todas as vezes em que a “máquina” é acionada). Nos dois casos, a massa “viva” é sugerida como resultado de uma grande descarga de energia (um Big Bang em ínfimas escalas).

Há duas massas na temporada. A primeira, vista por Jonas na usina destruída, foi provocada exatamente por essa destruição. Contudo, essa destruição só foi possível porque Adam produziu a própria massa e fez com que ela, a massa do presente da usina e a do futuro (que eram as mesmas), agissem ao mesmo tempo. Ou seja, a série, com isso, estabeleceu uma outra relação incrível com outra grande teoria: a do Paradoxo de Bootstrap.

Deus é o Tempo

Dark 2ª temporada
Netflix/Divulgação

Imagine que um viajante do tempo assistisse ao final de Lost, em 2010, e resolvesse escrever toda a base do roteiro, viajar até 2003 e entregar o mesmo para Damon Lindelof. Damon teria criado Lost, que passaria até 2010, quando o mesmo viajante assistiria e repetiria o processo, num ciclo sem fim. Dessa maneira fica difícil estabelecer quem criou o quê. Você poderia dizer que Damon só criou Lost porque o viajante deu a ele a ideia, mas sem a ideia o viajante não a teria assistido e, assim, voltado no tempo por causa dela. Lost, então, surgiu de quem? Qual foi o começo? E como bem colocou Adam: existe um começo?

Dark também aproveitou a temporada para jogar muito com essa ideia filosófica de que a ação do tempo é, de certa forma, responsável por todas as coisas. As vidas dos personagens são alteradas de acordo com a interferência das viagens, mas, ao mesmo tempo, se não fossem essas interferências eles não seriam quem são. É claro que a série coloca sobre a questão um exagero dramatúrgico necessário. Mesmo assim, é impossível não pensar em como a própria vida real é afetada por ações temporais específicas, que nos obrigam, inevitavelmente, a tomar certas decisões, que nos empurram para elas. Deus pode ter colocado você diante da possibilidade de fazer uma grande mudança na sua vida, mas para Adam, Deus é o tempo agindo sobre você, preparado-o para o que estará logo adiante. Indireta ou diretamente. É isso que possibilita a ação no desastre da usina. Ali está a massa do presente (2020) agindo em sincronia com a massa do futuro (2053), quando na verdade elas são a mesma. Com a ajuda da terceira (criada por Adam) a catástrofe acontece e possibilita a existência da que está lá em 2053. Ou seja, quem é responsável pelo que? Onde está o começo? É realmente impressionante.

Jonas

Dark 2ª temporada
Netflix/Divulgação

Jonas se tornou o personagem mais importante da série nessa temporada, aparecendo em ação em quatro versões diferentes.

O Jonas que começa acordando em 2053, quase é enforcado por Elizabeth, mas após uma nova viagem através da massa dentro da usina destruída, acaba indo parar em 1921, onde é recrutado por Noah (ainda jovem), para que conheça finalmente o grupo de Viajantes.

O Jonas de 2020 passa a ser sua versão do futuro, que volta para contar a verdade para a mãe e que precisa impedir o início do novo ciclo (a destruição da usina). Ele começa a envolver os outros personagens do presente, preparando para que eles estejam onde devam estar quando a tragédia vier (dentro do bunker, por exemplo).

O Jonas que está em 1921 descobre que é Adam, o líder dos Viajantes. Adam lhe diz que com a massa “viva” criada por ele, é possível atravessar para qualquer dia, quebrando a regra dos 33 anos. Ele quer que Jonas viaje até a véspera do suicídio de seu pai, que seria o gatilho para tudo o que aconteceu depois. O rapaz volta até 2019, onde está sua versão inocente, que ainda não sabia que tudo aconteceria. O que acontece é o que aconteceu muitas vezes na temporada: ele volta para impedir algo e acaba sendo o responsável pelo acontecimento que foi evitar. Ele descobre que foi ele quem orquestrou o suicídio do pai e a captura de Mikkel, baseado na suposta importância que teria para o grande plano. A frase “sacrifícios precisam ser feitos” é repetida constantemente para justificar essas ações. Seja por essa máxima ou não, os personagens seguem confirmando o tempo, reiterando o paradoxo de Bootstrap.

Por fim, o Jonas em sua versão Adam é o grande mistério. Deformado pelas constantes viagens, ele é descrito muito mais pelos outros personagens que por si próprio. Ele e Claudia alternam a posição de antagonistas, uma hora parecendo querer o bem maior, em outras planejando apenas vitórias pessoais. A série ainda não esclareceu qual o objetivo maior do personagem, apenas que ele está decidido a fazer com que tudo aconteça como aconteceu desde sempre. Ele quer se tornar quem é, ainda que deformado e infeliz, também por razões que não conhecemos completamente. Ele mata Martha porque precisa que o ciclo se repita, mas o faz porque sabe de algo que nós ainda não sabemos. Isso, inclusive, explicaria suas cicatrizes. Ele viajou mais que qualquer um, ele sabe mais que qualquer um. 

Claudia e Noah

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Uma das relações construídas no ano passado com foco bem direcionado foi a relação entre Noah e Claudia. Ambos foram retratados como antagonistas, enquanto ainda pensávamos que Noah era o líder da força que parecia reger os experimentos das viagens. A partir dessa segunda temporada a força de Noah dentro desse sistema foi redirecionada. Porém, tanto ele quanto Claudia encontram um fim trágico enquanto viajam entre as linhas temporais. Os dois também tem seus objetivos reavaliados durante o curso da trama. Cláudia, assim como acontece com Adam, é descrita nos episódios como alguém que oscila entre os próprios interesses e os interesses de um bem maior.

Claudia Idosa: Sua versão mais velha trabalha nesse ano para tentar evitar que certos acontecimentos resultem no apocalipse, ao passo em que não pode conseguir tal feito sem revirar alguns aspectos do tempo. É interessante, porque acompanhamos a versão idosa orquestrando os eventos que farão com que sua versão adulta desenvolva a paixão necessária para que tudo aconteça. Claudia Idosa providencia a construção da máquina do tempo, a enterra no quintal de sua versão mais jovem, visita sua versão adulta para contar toda a história e plantar o suficiente para o ciclo continuar girando. Tudo porque ela sabe, enfim, que será morta. É sua versão adulta, de 1986, quem vai, pouco a pouco, se tornando obcecada com o assunto. Ela desenterra a máquina, viaja até 2020, pesquisa na internet sobre o próprio desaparacimento e também descobre que as provas da existência da Partícula de Deus podem ajudar a – quem sabe – evitar o apocalipse sem precisar evitar todo o curso dos acontecimentos. É baseada nisso que ela acaba sendo a responsável pela morte do pai enquanto achava que estava lá para impedi-la (da mesma maneira que Jonas).

Claudia Adulta: Enquanto está trabalhando em sua pesquisa com a Partícula de Deus, Claudia recebe a visita de Jonas e eles vão para 2020, onde reabrem o portal da caverna. Claudia ainda resgata a filha Regina e a leva para o bunker.

Noah: ao contrário de Claudia, foi redirecionado. Ao ser revelado que o verdadeiro vilão era Adam, o personagem foi se redimensionando. Ele segue as ordens de Adam à risca, até o momento em que descobre (nas páginas arrancadas do caderno de Claudia) que sua família não foi salva do apocalipse porque evitar o apocalipse não era a intenção de Adam. Ele tenta matar Adam, mas acaba sendo morto por sua irmã Agnes, que era uma das Viajantes e – aparentemente – teria traído Claudia para retomar seu lugar na organização.

A humildade de Noah foi revelada a partir da evidência de que em algum ponto pós-apocalipse ele se envolveu com Elizabeth (a menina muda que se torna a sobrevivente muda de 2053). Os dois tem uma filha, Charlote, que acaba não sendo criada no tempo em que nasceu, mas sim no passado. Charlote sabe que Noah é seu pai, mas ainda não sabe que Elizabeth (que ela vê através do portal na destruição da usina) é sua mãe.

Os Remanescentes de Winden

Netflix/Divulgação

Espertamente, o roteiro da temporada protegeu seus personagens de formas diversas, impedindo que a gravidade do apocalipse fizesse muitas baixas. Um a um, os personagens foram sendo colocados em posições que facilitariam esse escape.

Ulrich: Tomou o lado errado no túnel da caverna e foi parar em 1953. Lá ficou por anos até o tempo em que Mikkel atravessou. Por isso o vemos lutando para rever o filho.

Hannah: Usa a máquina de Jonas para atravessar e tentar um entendimento com seu grande amor, Ulrich. Obcecada e vingativa, Hannah não recebe a atenção que esperava e resolve ficar em 1953.

Mikkel: Preso em 1986, ele se casará com Hannah e terá Jonas. No futuro, sua versão adulta também se depara com sua versão infante. O que não sabemos é se ele se suicidaria independente da interferência de Jonas ou se o fez justamente por causa dela.

Bartosz: O filho de Regina e neto de Claudia continua sendo manipulado por Noah, até que é descoberto pelos amigos e os leva para 1987 para provar que a viagem no tempo é real. No entanto, ele não consegue estabelecer laços de confiança e perde o controle da situação.

Magnus e Franziska: Os jovens de Winden se concentram em entender o que está acontecendo por boa parte da temporada. Porém, quando Noah jovem viaja até 2020, ele entrega a Jonas Adulto uma carta de Martha. Não vemos o conteúdo da carta, mas é o suficiente para que Jonas Adulto leve os jovens para uma nova viagem, segundos antes da usina explodir, para um tempo que ainda não sabemos qual é. Porém, Magnus e Francizka são vistos adultos, como parte dos Viajantes, em 1921, o que pode ser uma pista desse destino.

Katharina: A mãe de Mikkel e esposa de Ulrich decide tentar uma expedição pela caverna e com portal reaberto ela pode ter conseguido atravessar antes da explosão. Se ela conseguir chegar até 1986 e reencontar o filho, isso pode provocar mudanças significativas no resultado das coisas.

A Outra Martha

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Enquanto os momentos finais da temporada se esforçavam em colocar os personagens em pontos estratégicos que pudessem servir para continuar o desenvolvimento após o desastre da usina, a outra grande virada se deu quando Adam chegou ao ano de 2020 para impedir que Jonas Jovem interrompesse o processo que o levaria a tornar-se Adam em algum ponto do tempo. Para isso Adam mata Martha, afim de provocar uma neutralização das emoções de Jonas. Porém, enquanto lamenta a morte da amada, Jonas Jovem recebe a visita de outra Martha, que se apressa em dizer que não veio de um tempo diferente, mas de um mundo diferente. Ela usa um dispositivo que parece a máquina do tempo aprimorada e os dois são levados para outro lugar. Mas, como Adam se tornou quem é? Porque os Viajantes começaram? O que Agnes fez para sair do grupo? Quem tem razão nessa guerra pelo tempo? Sobretudo: é possível controlar o tempo para tirar dele a soberania sobre o curso dos acontecimentos? O que acontece porque eu quero e o que acontece porque o tempo me faz achar que eu detenho o poder? Agora não é mais só uma questão de “quando”, mas de “onde”.

Em uma história sobre viagens no tempo a inclusão das teorias de multiverso são um próximo passo esperado e coerente. Tudo indica que a mitologia de Dark vai dar esse passo e com isso se arriscar mais um pouco em tornar toda essa teia ainda mais complexa. Dada a qualidade dessas duas temporadas já apresentadas, as expectativas são as melhores. Seja insinuando a ação do tempo como uma força científica disfarçada de impulso divino ou atravessando as fronteiras entre universos, a série já provou que inteligência e sagacidade são partes fundamentais de sua construção.