Pôster de Arremesso Final com os atletas Steve Kerr, Scottie Pippen, Michael Jordan, Dennis Rodman e o treinador Phil Jackson

Créditos da imagem: Divulgação/ESPN

Netflix

Crítica

Arremesso Final

Série documental da Netflix reconta com carinho e reverência um período histórico para o basquete liderado por Michael Jordan

Gabriel Avila
18.05.2020
18h45
Atualizada em
19.05.2020
12h49
Atualizada em 19.05.2020 às 12h49

O mundo dos esportes é recheado de grandes atletas que constantemente ganham fama dentro e fora das competições. De Pelé a Muhammad Ali, não faltam exemplos de grandes atletas que entraram para a história como grandes vencedores, cujo legado se tornou quase inestimável. Com carreiras cuja duração no máximo ultrapassam uma década, essas lendas se mantém vivas mesmo após a aposentadoria através de registros que relembram seus grandes feitos. Dentre o panteão de maiores de todos os tempos, é impossível ignorar Michael Jordan, que fez história com uma das mais brilhantes carreiras da história do basquete. Resultado de uma parceria entre ESPN e Netflix, Arremesso Final é o registro definitivo não apenas da trajetória do astro ao lado dos Chicago Bulls, mas de um importante período da história desse esporte, que alcançou o patamar de fenômeno cultural.

Em seus 10 episódios, Arremesso Final acompanha o último campeonato da equipe dos Bulls que entrou para a história como uma das maiores de todos os tempos sob a liderança de Michael Jordan. A produção começou durante a temporada 1997-98 da NBA, quando uma equipe de filmagem ganhou livre acesso aos bastidores do time, registrando coletivas de imprensa, vestiários e todo o seu cotidiano. O resultado de mais de um ano de gravações ficou guardado em um cofre por quase duas décadas, até que produtores da NBA entraram em contato com o próprio Jordan, dono dos direitos, com um projeto que partia de duas grandes inspirações. A primeira era o sucesso de documentários como O.J.: Made in America e Making a Murderer, já a segunda era a urgência em apresentar a jornada de Jordan a uma nova geração que usava seus tênis e compartilhava seus memes, mas apenas o conheciam por sua fama.

Partindo da despedida de um dos mais geniais times da história do basquete, a produção criou uma segunda linha narrativa. Enquanto mostra como se desenrolou o campeonato final, a série voltou ao ano de 1984, quando Michael Jordan chegou à Chicago como um calouro promissor. Mais do que simplesmente garantir seu engajamento através do suspense gerado pela dúvida se os Bulls ganharam ou não seu campeonato final - uma informação que pode ser conferida com uma rápida pesquisa no Google -, Arremesso Final contou simultaneamente o adeus da lenda e o longo caminho que ele atravessou até chegar a esse posto.

Nesse recorte de mais de uma década na história da NBA, a série documental explica quase didaticamente a importância de Michael Jordan para o basquete mundial. Contando seu início conturbado graças à uma lesão, suas consecutivas vitórias e até sua curta aposentadoria, o documentário coloca os holofotes na grande lenda. Mesmo que tenha vindo dele a aprovação para a produção da série, ela não esconde seus lados menos gloriosos. Ainda que com uma intensidade menor, o documentário mostra seu vício em jogo, o rigor por vezes cruel com que lidava com companheiros de equipe e algumas das inimizades que criou por conta de uma raiva cega criada por sua competitividade. Tudo isso enquanto apresenta seu enorme legado conquistado também fora das quadras, já que parte dos episódios inclui o lançamento do icônico tênis Air Jordan e as filmagens de Space Jam: O Jogo do Século. Ao fim dos dez capítulos é fácil entender que, quando Barack Obama define MJ como uma "força cultural", ele não estava exagerando.

Impacto dentro e fora das quadras

Provando que às vezes a arte imita a vida, o diretor Jason Hehir incorpora a filosofia de jogo dos Bulls à sua série: Jordan é a estrela, mas ele não joga sozinho. Todo o elenco do documentário se mostra interessantíssimo e ajuda a mover a história de uma forma cativante. A produção está repleta de grandes personagens, que vão desde o treinador Phil Jackson, os companheiros Scottie Pippen e Dennis Rodman, até adversários como Isiah Thomas e Reggie Miller, passando por familiares, membros da equipe e da imprensa, que dão um panorama muito completo do que foi a chamada “dinastia”. Mais do que apresentar jogadores, ele também fala sobre as pessoas por trás deles, que são moldados não apenas por treinos e dedicação, mas também por eventos que fogem ao seu controle. Seja um atentado terrorista, um crime aleatório e até mesmo uma rivalidade imaginária, vários fatores podem abalar e moldar esses atletas que dão sangue em quadra.

Ao acompanhar pessoas tão diferentes, que encaram o jogo e a vida com filosofias distintas, o documentário aos poucos se torna uma carta de amor não apenas ao Chicago Bulls, mas à história do basquete. Além de narrar os feitos do time, Arremesso Final reserva espaços para enaltecer toda a cultura do esporte nos EUA, passando por campeonatos de faculdade, desempenho nas Olimpíadas e especialmente sua expansão para o resto do mundo. Utilizando as ligações entre a trajetória de MJ e eventos como esses, a série transmite essa paixão até mesmo para um espectador que nunca assistiu à uma partida em sua vida. E esse é seu maior triunfo, convidar a audiência a entrar em quadra e fazer parte dessa história ao lado de seus protagonistas.

Essa sensação é uma conquista obtida não apenas por sua impressionante história, mas por todo o trabalho da produção. Ao longo de seus episódios, a edição de Arremesso Final sabe a hora exata de pegar o espectador pela mão e explicar a magnitude dos eventos que estão se desenrolando. Os lances são de fato um grande atrativo para um documentário de esportes, porém há incontáveis horas de “melhores momentos” disponíveis no YouTube. Mais do que simplesmente revê-los, a série contextualiza suas importâncias e leva sua audiência a torcer para um arremesso feito há mais de duas décadas e ainda comemore o resultado. Esse trabalho é tão importante que nos episódios finais, quando a produção dá um passo pra trás e deixa as filmagens falarem por si só, o resultado se torna ainda mais impressionante.

A série cresce também ao mergulhar na cultura dos anos 1990. Embalada por uma trilha-sonora que resgata clássicos de nomes como Run DMC, Coolio e A Tribe Called Quest, a produção constantemente recorre a noticiários e anúncios da época, criando uma atmosfera que a relembra com um carinho. Como resultado, desperta a nostalgia de quem viveu aqueles dias e os apresenta para quem não faz a menor ideia de como foi aquela época. A cereja desse bolo é assistir a visitas de figuras como Jerry Seinfeld e um jovem Leonardo DiCaprio pelos vestiários do time.

É uma grande ironia do destino que Arremesso Final seja exibido justamente em um dos poucos períodos em que os esportes foram forçados a parar. Lançada durante a pandemia do coronavírus, a série documental não apenas preenche a falta que os jogos estão fazendo na programação televisiva, mas reforça a força de uma jornada tão inspiradora e influente quanto a dos Bulls na década de 1990. Relembrar a hegemonia que Jordan, Pippen e companhia estabeleceram com muito esforço durante essa época ganha uma camada extra de fascínio por não apenas narrar um passado glorioso, mas injeta uma dose de inspiração muito bem-vinda em tempos que podem se mostrar angustiantes. Se o mundo teve a sorte de acompanhar a jornada de Michael Jordan, revisitá-la é uma forma de manter a lenda viva.

Nota do Crítico
Excelente!