Simon McQuaid dirigindo Joe Taslim como Sub-Zero no set de Mortal Kombat (2021)

Créditos da imagem: Warner Bros./Divulgação

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Mortal Kombat | Como o novo filme conseguiu superar uma década no limbo

No set da produção, o diretor novato Simon McQuoid falou ao Omelete sobre a responsabilidade de assumir um projeto de história conturbada

Arthur Eloi
04.03.2021
11h53
Atualizada em
04.03.2021
12h05
Atualizada em 04.03.2021 às 12h05

Querer nem sempre é poder, especialmente quando se trata de adaptações de jogos para as telonas. Filmes de games têm um histórico bastante conturbado, mas a história também é marcada por grandes projetos que nunca saíram do papel. Mesmo sendo uma das maiores franquias do Xbox, a Microsoft apanhou muito - e ainda apanha - para levar Halo aos cinemas. E o mesmo ocorre com Metal Gear Solid, por exemplo, cujo longa de Jordan Vogt-Roberts (Kong: A Ilha da Caveira) segue em desenvolvimento. Mas é possível sair desse limbo de anos perdidos entre reuniões com executivos, trocas de diretores, roteiros reescritos e adiamentos. Mortal Kombat é a prova disso.

Muito antes do primeiro trailer conquistar a internet, em 2019, o Omelete teve a oportunidade de visitar o set do filme em Adelaide, na Austrália. Em uma tenda montada dentro de um enorme galpão, repleta de jornalistas do mundo todo, o diretor Simon McQuoid mostra um pequeno vídeo de testes de figurino, material apresentado para conquistar os executivos da New Line Cinema, embalado pela trilha sonora de Benjamin Wallfisch (Blade Runner 2049, Shazam!). Na apresentação é possível ver o personagem novato Cole Young (Lewis Tan) e também Jax (Mehcad Brooks) e Sub-Zero (Joe Taslim) apenas posando para a câmera. Mesmo sem muito espetáculo, o cineasta parece terrivelmente orgulhoso do que está na telinha. O motivo, ele explica, é o enorme sufoco para enfim ter algo do projeto para mostrar.

Test Your Might

Para entender, é preciso recapitular um pouco. Mortal Kombat já havia sido levado para os cinemas em 1995, pelas mãos de Paul W.S. Anderson (Resident Evil), em um filme altamente brega, divertido e influente. O resultado foi uma bilheteria satisfatória, recepção crítica morna, e uma continuação decepcionante em 1997. Com isso, a franquia passou os anos seguintes apenas nos videogames, o que só aumentou a vontade por uma nova adaptação. Quem contribuiu com esse sentimento foi o cineasta Kevin Tancharoen, com o curta Mortal Kombat: Rebirth (2010), que apresentava uma versão mais sombria e realista desse sangrento universo. Essa abordagem deu tão certo que ele a transformou na websérie Mortal Kombat: Legacy (2011), produzida com um orçamento mínimo e lançada direto no Youtube. Com um certo hype na internet, não deu outra: em 2011, o estúdio New Line Cinema oficializou um reboot nos cinemas, comandado por Tancharoen.

Desde então, muita coisa deu errado. O diretor, que também escrevia o longa, largou o projeto em 2013. Seu roteiro voltou para a gaveta da New Line Cinema, e ficou lá por mais dois anos. Foi só em 2015 que a ideia foi retomada, quando o estúdio colocou James Wan para produzi-la. Responsável por franquias como Invocação do Mal, Jogos Mortais e Sobrenatural, ele é a pessoa certa para tirar projetos do chão, mesmo sem encostar na direção. Mas Wan também entende que há valor em trabalhos bem realizados e adaptações que façam jus ao material base.

Logo em 2016, um ano após o anúncio, o produtor-executivo declarou que Mortal Kombat não seria feito nas coxas para tentar tirar dinheiro dos fãs: “O filme ainda está sendo preparado. Esse projeto, em particular, é uma propriedade que eu amava quando criança. Não só os jogos, mas até mesmo os filmes, eu meio que gostava deles pelo que eles eram. A chave para o novo filme funcionar é fazê-lo da forma certa. Não quero apressar as coisas. Então, neste momento, estamos tirando um tempo para assegurar que tudo está indo na direção certa. Acho isso mais importante do que tentar acelerar as coisas e fazer algo que ninguém gosta”. No mesmo ano, Simon McQuoid foi escalado para comandar o longa, e o roteiro ganhou uma nova versão por Greg Russo e Dave Callaham, baseada em trama criada por Oren Uziel. No set, o produtor Todd Garner, envolvido desde o início, foi bem honesto ao dizer para os jornalistas que não gostava do texto de Tancharoen, e que escrever algo inédito foi fundamental para colocar o projeto de volta nos trilhos.

Mesmo com a equipe contratada, as filmagens só foram começar em 2019, oito anos depois do anúncio inicial e quase uma década após a Warner Bros. adquirir os direitos da franquia.

Sangue Fresco

Em teoria, Simon McQuoid é a pessoa errada para comandar Mortal Kombat. No set, ele admite aos jornalistas que seu contato com os games se dá apenas por meio de seus filhos. Além disso, é um diretor de primeira viagem, e a adaptação marca seu primeiro longa-metragem. Ironicamente, o que lhe rendeu o cargo foi ter dirigido comerciais criativos para jogos. Uma das mais marcantes peças publicitárias do PlayStation 3 reúne em um bar grandes nomes do console, como Kratos (God of War) e Nathan Drake (Uncharted), para celebrar o jogador. Já outro trabalho memorável foi para Halo 3, da Microsoft, em que um veterano de guerra relembra o trauma do conflito e o papel do protagonista Master Chief em uma das grandes batalhas do game. Ambas as campanhas foram muito bem recebidas pelos gamers. Mesmo sem ser um grande conhecedor do meio, é visível que McQuoid tem sensibilidade para tratar a mídia.

Essa sensibilidade fica ainda mais visível na conversa. Ao brincar que praticamente fez um curso universitário sobre a franquia após ser contratado, o cineasta explica sua visão para uma adaptação de sucesso: "A palavra que mais uso é ‘respeito'. Respeito pelos fãs, e também pelos personagens e pelo cânone dos jogos. A execução desse projeto tem tudo isso como seus pilares centrais". Mas mesmo em uma franquia conhecida por sua violência gráfica (que, por sinal, está presente nas telonas), McQuoid também quer explorar, em meio a toda a porradaria, humor, leveza e reverência aos personagens e ao legado dos games.

"Há muita humanidade e empatia dentro do filme, e isso se estende para todos os personagens. Todos têm seu momento de brilhar. Mortal Kombat, para mim, é tão popular por conta de seus personagens. Eles são os motores desse universo. Claro, há o cânone, suas tramas e camadas. Mas quando falo de respeito, há muito respeito pelos personagens, em como eles são apresentados e celebrados, tanto para os fãs quanto para os novos espectadores. Quero respeitá-los de um jeito que demonstre que a produção realmente se importa com eles", afirma.

O papo com o Omelete acontece entre takes de uma cena de ação, com Liu Kang (Ludi Lin) lutando pelos corredores de uma antiga estrutura, que mais se assemelha a um enorme coliseu, montado no enorme galpão em Adelaide. Mesmo com toda a correria e barulho da equipe de produção, o cineasta aproveita seu intervalo de 20 minutos discutindo com os jornalistas sobre os desafios de fazer uma adaptação à altura do material-base, e também do equilíbrio entre o fan service e a contextualização para o público novato.

Para McQuoid, uma pitada de humor é a chave para alcançar a harmonia, algo que o Marvel Studios ensinou com suas obras. “Há muita comédia e risadas, muito graças a Kano [Josh Lawson]. O cânone de Mortal Kombat tem muitos elementos como Deuses Antigos e coisas do tipo, e diálogos extensos sobre mitologia, então ele nos ajuda a não levar tudo muito a sério.”

Ainda que o diretor queira dar um toque de leveza, isso não significa que Mortal Kombat perdoará na violência. Graças à classificação indicativa para maiores de idade, o filme é repleto de intensas cenas de porradaria e nojeira gráfica. "Eu não sei um número ao certo, mas vi tonéis de sangue falso pelo set”, conta McQuoid, aos risos. “Além de respeito, outra palavra que uso para descrever o projeto é autenticidade. A autenticidade está em como apresentamos os personagens, na textura dos figurinos, mas também no sangue. Há muito sangue, mas não ao ponto de arruinar um momento sério com jatos incessantes. É algo para dar o tom, fazer o público sentir o impacto - mas sim, haverá bastante sangue."

Com o tempo da conversa chegando ao fim, o diretor retorna ao trabalho, para acompanhar uma luta entre Sonya Blade (Jessica McNamee) e Kano. Depois de uma década perdida no limbo de desenvolvimento, Mortal Kombat é mais real do que nunca, palpável em sets gigantescos, com o mínimo de efeitos digitais e telas azuis, e o máximo de cenários práticos, porradaria honesta e, claro, personagens marcantes do jogo. "Pra mim, o objetivo final da ficção científica e da fantasia no cinema é quando você realmente acredita, com personagens de corações enormes com os quais você se importa”, afirma Simon McQuoid, antes de voltar ao posto. “Dar vida a esse projeto e aos personagens tem sido uma alegria para mim”.

A estreia de Mortal Kombat nos cinemas brasileiros está marcada para 15 de abril. Até lá, fique ligado no Omelete para saber todos os segredos do set do novo filme!

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