Chris Hemsworth em Thor: Amor e Trovão (Reprodução)

Créditos da imagem: Chris Hemsworth em Thor: Amor e Trovão (Reprodução)

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Na fase 4 do MCU, os deuses estão morrendo - literal e figurativamente

Após a Saga do Infinito, Marvel encara o vazio de um universo sem seus maiores ícones

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6 min de leitura
Caio Coletti
08.07.2022, às 09H53
ATUALIZADA EM 08.07.2022, ÀS 14H03
ATUALIZADA EM 08.07.2022, ÀS 14H03

Se você quer deixar os seus temas bem claros, se quer transformar o que era subtexto em texto (e grifado, ainda, só para garantir!), pode contar com Taika Waititi. O diretor neozelandês não tem muita paciência para a sutileza, e isso nem é uma crítica - às vezes, o que uma história precisa mesmo é de um artista disposto a abraçá-la sem rodeios, sem meias palavras. Daí, inclusive, vem o valor de Thor: Amor e Trovão dentro da atual era do universo cinematográfico Marvel.

Desde o fim da Saga do Infinito, fechada em Vingadores: Ultimato, o MCU tem parecido uma história em busca de um propósito. Independente da qualidade individual de cada adição à franquia, tem sido mais difícil do que nunca traçar uma linha entre os filmes e séries e entender o que está se passando na cabeça de Kevin Feige, no fundo o grande autor dessa história, tanto em termos de plot quanto temáticos, emocionais. Com Amor e Trovão, no entanto, a comunalidade entre as obras recentes do MCU fica mais do que clara: esta é uma história sobre o que acontece quando os deuses morrem.

Na nova aventura de Thor, esse texto é encarnado em Gorr (Christian Bale), um personagem literalmente apelidado de “Carniceiro dos Deuses”. Revoltado após perder a filha e ter seu sofrimento desdenhado pela divindade que adorava, ele toma posse de uma espada capaz de matar deuses e sai caçando os seres mais poderosos do cosmos. Seu objetivo final é encontrar uma entidade conhecida como Eternidade, capaz de concedê-lo qualquer desejo, e pedir a ela que elimine todos os deuses do universo.

O filme de Waititi parece genuinamente simpatizar com a missão do seu “vilão”. O retrato que ele faz dos deuses não é nada favorável, encarnado especialmente em um Zeus (Russell Crowe, na melhor performance cômica do longa) egocêntrico, decadente e déspota, incapaz de conceber uma vida que não gire em torno do seu próprio umbigo. Em um nível ou outro, todos os outros deuses da trama são assim, até por sua dificuldade de entender e empatizar com os problemas “pequenos” dos mortais que os cercam. A única medida de humanidade do próprio Thor, nos diz o filme, vem do tempo que ele passou na Terra, de ter se apaixonado aqui, de ter absorvido uma busca por identidade e propósito que é muito humana.

Russell Crowe como Zeus em Thor: Amor e Trovão (Reprodução)
Russell Crowe como Zeus em Thor: Amor e Trovão (Reprodução)

A falha de Gorr, identifica Amor e Trovão, não é a sua revolta com essas divindades, mas o que ele tira de sua realização de que elas são indiferentes ao seu sofrimento. O filme postula que, ao encarar de frente o vazio de um mundo sem ícones, sem “salvação eterna”, em que os heróis e os deuses são falíveis (para dizer o mínimo), podemos escolher a retaliação violenta contra nada e tudo, ao mesmo tempo, ou podemos nos agarrar ainda mais forte às coisas terrenas que fazem nossa existência importar, no fim das contas. Para Waititi - que é atualmente, afinal, um homem apaixonado -, essas coisas se resumem ao amor em todos os seus tipos: romântico, parental, fraternal, comunitário, próprio.

Gorr, especialmente como interpretado com intensidade e teatralidade típicas por Bale, é só a literalização de um texto que parece até inevitável diante do fluxo do MCU. Em Ultimato, tenha sido por escolha narrativa ou fim de contrato, a franquia perdeu os seus dois grandes símbolos (o Homem de Ferro de Robert Downey Jr. e o Capitão América de Chris Evans), cujos conflitos e concomitâncias formavam o próprio coração da narrativa sobre liderança pragmática vs. liderança idealista da Marvel. Em suma, o estúdio passou 11 anos construindo um ideal de heroísmo contemporâneo, e perdeu os estandartes dele logo quando este trabalho foi concluído.

Robert Downey Jr. e Chris Evans em Vingadores: Ultimato (Reprodução)
Robert Downey Jr. e Chris Evans em Vingadores: Ultimato (Reprodução)

Depois disso, o MCU se tornou povoado por heróis e vilões definidos pelas formas como lidam com o luto. Em WandaVision e Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, dois dos magos mais poderosos de todos os tempos precisam fazer as pazes com a única coisa que a magia não pode curar: um coração partido pela perda. Em Falcão e o Soldado Invernal, dois homens precisam descobrir como aceitar as decisões finais de seu amigo mais querido, e como encontrar um ao outro pelo caminho. Em Sem Volta Para Casa, três Homens-Aranha diferentes se digladiam com as formas como o luto formou seus caráteres, e o que foi preciso perder para se tornar um herói.

E deuses continuaram caindo ao redor desses mortais. Alguns dos Eternos se provaram nem tão Eternos assim, deixando a Terra órfã de seus protetores mais antigos e mais ferrenhos. Em What If…?, o inatingível Vigia é surpreendido quando uma versão ainda mais poderosa do vilão Ultron o alcança em sua dimensão de onipotência e ameaça o multiverso todo, obrigando-o a sair de sua posição de observador e colocar a mão na massa. Cavaleiro da Lua culmina em uma luta até a morte entre duas divindades egípcias, gigantes como kaijus diante das pirâmides de Gizé, enquanto seus avatares mortais são deixados para resolverem seus próprios problemas lá embaixo.

A luta final de Cavaleiro da Lua (Reprodução)
A luta final de Cavaleiro da Lua (Reprodução)

Que momento fascinante para o MCU traduzir isso em tela, inclusive. O mundo está mergulhado (ainda) em uma pandemia causadora de luto inconcebível, mas que se tornou aos poucos só mais um dos problemas irresolvíveis que decidimos ignorar (em um nível ou outro, dependendo de cada pessoa) todos os dias. As crises políticas que se sucedem em virtualmente todo país revelam questões ainda mais profundas: institucionais, dialéticas, fundamentais da própria formação do que conhecemos por sociedade. É fácil sentir desesperança nesse cenário, é fácil sentir que não há heróis, que não há deuses, que não há no horizonte um momento em que poderemos, como espécie, estar em paz.

O niilismo é a resposta óbvia a tudo isso. A fase 4 do MCU encara essa perspectiva na medida que um blockbuster pensado e medido para agradar milhões ao redor do mundo pode encarar. Matrix Resurrections e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, para citar só dois exemplos de muitos, são obras mais ousadas nesse retrato sombrio, mas no fim das contas a mensagem de ambos os filmes é a mesma que Kevin Feige vem passando: em um cenário em que você não pode resolver o mundo todo, ajudar o mundo todo, olhe nos olhos das pessoas que você ama e não as deixe escapar. Elas são sua identidade e seu propósito, seu motivo para continuar, para não se render, para continuar lutando.

Ou, para resumir tudo isso em duas palavras bem mais simples: Amor e Trovão. Como eu disse lá em cima, a sutileza não é o forte de Taika Waititi.

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