Wild Hearts serve para oficializar narrativa do KATSEYE pós-reality
Filme é mais um consolidado da história do grupo do que um aquecimento pré-álbum
Créditos da imagem: Cena de KATSEYE: Wild Hearts (Reprodução)
A cena que a diretora Nadia Hallgren escolhe para abrir o documentário KATSEYE: Wild Hearts é emblemática: o momento no reality show Pop Star Academy em que as seis integrantes finais do grupo foram reveladas. Não por acaso, Hallgren também foi a diretora daquele programa, em que as gravadoras HYBE e Geffen se juntaram para encontrar a próxima “sensação global do pop”, misturando um esquema de treinamento e promoção distintamente sul-coreano com um processo de testes e, por consequência, uma formação completamente internacional.
Wild Hearts, portanto, é mais sequência do Pop Star Academy do que qualquer outra coisa. Inclusive, apesar de ter sido vendido como tal, ele mal é um “aquecimento” para o WILD, EP do KATSEYE que saiu poucos dias depois da estreia do filme nos cinemas. O filme pouco toca nesse novo disco ou no processo por trás dele, se posicionando muito mais num local biográfico do que como documentário de bastidores artístico. Mais The Rose: Come Back to Me do que BTS: O Reencontro, para citar dois títulos de um filão parecido.
A boa notícia é que Hallgren, tendo acompanhado a própria formação do KATSEYE, conhece o ethos do grupo e a individualidade de suas integrantes o bastante para criar um longa-metragem que continue essa história com fluidez. E, com 1h20 de duração, o documentário não perde tempo com nada que não seja essencial dos dois anos e pouco que se passaram desde o final de Pop Star Academy – o lançamento do primeiríssimo single do grupo, “Debut”, por exemplo, fica de fora para privilegiar o impacto do primeiro hit de verdade do KATSEYE, “Touch”.
Daí o pulo é para os primeiros shows, a conexão inicial com os fãs, e eventualmente a transformação de imagem consagrada em “Gnarly”. Depois disso, um passeio por todos os marcos de crescimento na carreira (recordes na Billboard, apresentações em festivais), um breve delinear das personalidades das integrantes e como elas se conectam, uma ou outra troca sobre a relação do KATSEYE com sua recepção pública e seu status de celebridade. Muito afago aos fãs, muita mensagem aspiracional, poucos espinhos.
O trabalho de Wild Hearts, enfim, é o de construção (ou, ao menos, consolidação) de narrativa – apresentar o KATSEYE como um grupo unido pelo talento, mas recebido pelo público como fenômeno cultural, representante de uma nova forma de fazer pop e popstars. Ao invés de cobertura noticiosa tradicional, por exemplo, Hallgren costura vídeos do TikTok em meio às imagens de bastidores e entrevistas que formam a espinha dorsal do seu filme. Ao lado da montadora Betsy Kagen, também herdada do Pop Star Academy, ela cria um produto acima de tudo dinâmico, mas que nunca parece vazio de significado, até por sua perspectiva de dentro para fora oferecer insights valiosos ao público.
E, nesse sentido, Wild Hearts é um documento fiel à entidade cultural que retrata, mesmo que balizado pelas necessidades da empresa que o bancou. Como tantos outros filmes dessa estirpe, ele é mais significativo como registro da “história oficial” do que como expressão artística. O KATSEYE é um pedaço importante do nosso contínuo pop, goste o espectador ou não, e essa é a história que o KATSEYE quer contar sobre si mesmo. Só por isso, já vale prestar atenção.
KATSEYE: WILD HEARTS
KATSEYE: WILD HEARTS
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