Filme celebratório do The Rose registra uma história incomum na indústria
Banda sul-coreana faz documentário ágil, mas que prova sua substância
Créditos da imagem: Cena de The Rose: Come Back to Me (Reprodução)
É sintomático que, em The Rose: Come Back to Me, os integrantes da banda sul-coreana sejam quase sempre chamados por seus nomes “ocidentais”. Nos letreiros informativos das entrevistas, e na boca de quase todos os personagens do documentário – a exceção são os próprios músicos, que se referem uns aos outros pelos nomes sul-coreanos de batismo –, os protagonistas são chamados de Sammy (Woosung), Leo (Dojoon), Dylan (Hajoon) e Jeff (Jahyeong). Reflete-se aí o objetivo do filme, que é contar a história do The Rose para um público americanizado que ainda não a conhece.
Os motivos para tal ficam evidentes com o passar da ágil 1h25 do longa. Formada por pelo menos um ex-trainee de gravadora de k-pop, e pelo menos um ex-participante de reality show musical sul-coreano, o The Rose nasceu do mainstream da indústria, e por lá ficou – com a carreira gerenciada pela J&Star Company – até decidir que não compactuava com o que rolava nele. E o mainstream sul-coreano não é gentil com quem o rechaça dessa forma.
Em Come Back to Me, o diretor e roteirista Eugene Yi (cineasta engajado, ele assinou o documentário político Free Sol Choo Lee) quer mesmo é contar a história de como esse afastamento ocorreu, e por quê. O quarteto de músicos entrega a narrativa de bom grado, contando sobre como os executivos da J&Star buscavam isolá-los e jogá-los uns contra os outros, além de absorver virtualmente todos os lucros das turnês lotadas que a banda fazia pela Europa após o estouro de “Sorry”, seu primeiro single, de 2017.
Quando chega a hora de contar a quebra (em 2020, com um processo contra a gravadora que coincidiu não só com a pandemia de covid-19, mas também com o início do serviço militar obrigatório dos membros) e renascimento (em 2022, com o álbum Heal e a assinatura de novo contrato com a Transparent Arts) da banda, os protagonistas também exibem franqueza irrepreensível. Come Back to Me ganha muitos pontos por navegar com essas pessoas através de emoções difíceis, da relação antagônica que nutrem com a indústria e o público sul-coreano, e da busca por validação fora de um país que não mais os abraça tanto quanto costumava fazer.
Por baixo desse narrativa principal corre também uma dedicação à música como instrumento de cura, proposta da banda em suas letras mais recentes, mas o grosso do longa – que, inclusive, é muito mais documentário do que filme de show, na contramão da tendência ditada por outros títulos focados em artistas sul-coreanos – é a volta olímpica do The Rose, dada após vencer uma das trajetórias mais acidentadas da música asiática. Numa indústria tão bem azeitada que chega a ser um pouco sufocante, Come Back To Me conta a história de um dos que ficaram pelo caminho, e como eles acharam outra estrada para seguir.
O interesse e substância dessa história, abordada com contundência pelo diretor, é mais do que o bastante para segurar o espectador pelo tempo que o filme demanda dele.
*The Rose: Come Back to Me estreia nos cinemas brasileiros no dia 14 de fevereiro.