Steven Yeun em Minari, de Lee Isaac Chung

Créditos da imagem: Minari/Divulgação

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Minari | Por que uma das apostas para o Oscar não concorre ao Globo de Ouro?

Ausência do filme de Lee Isaac Chung nas categorias dramáticas colocou critérios do prêmio em questão

Arthur Eloi
26.02.2021
17h53

Ainda que seja a abertura da temporada de premiações, o Globo de Ouro é conhecido por tomar decisões bastante questionáveis quando se trata da categorização de seus indicados. Há uns anos, o terror Corra!, de Jordan Peele, foi esnobado nas listas de drama, mas “reconhecido” pelas categorias de comédia ou musical. O mesmo ocorreu em 2016 com Perdido em Marte, ficção científica de Ridley Scott. Mas outra prática da premiação é não indicar a melhor filme produções que não sejam faladas em inglês, mesmo que elas tenham sido realizadas nos Estados Unidos, por cineastas norte-americanos. Em 2021, este é o caso de Minari.

Escrito e dirigido por Lee Isaac Chung, o filme é um relato semi-biográfico da família do diretor de ascendência coreana, nascido no Colorado, EUA. A trama acompanha um grupo de imigrantes coreanos tentando sobreviver e triunfar em Arkansas, na década de 1980. Como muitas críticas apontaram, a busca pelo Sonho Americano - a estabilidade garantida pela mobilidade de classes na América do Norte - é uma história tipicamente norte-americana, além do longa ter sido rodado no país. Mas o que então o desclassifica das categorias dramáticas? O fato de que boa parte de seus diálogos não são falados em inglês.

Para retratar a dificuldade da família em se adaptar à vida nova em outro continente, muitas das conversas entre os membros acontecem em sua língua materna, o coreano. Por conta disso, Minari se tornou qualificável apenas para melhor filme em língua estrangeira, apesar de ter feito a limpa no Festival de Sundance, e de ser um dos queridinhos para roubar a cena no Oscar e demais cerimônias. Para entender a questão, é melhor ir por partes.

As regras

O que o Globo de Ouro considera como um filme de língua estrangeira? Qualquer obra que tenha mais do que 50% de seus diálogos falados em qualquer idioma que não seja inglês, segundo as regras da Hollywood Foreign Press Association, que organiza o prêmio. Por si só é uma diretriz que abre margem para discussões, visto que pede por uma quantificação elusiva de tudo que é falado no longa. A organização, inclusive, pode até mesmo pedir por uma cópia do roteiro para garantir a categorização.

Além de Minari, a lista de vítimas dessa regra inclui Parasita, grande vencedor do Oscar 2020, e também A Despedida, filme de 2019 escrito e dirigido por Lulu Wang (cineasta chinesa criada nos EUA). Por ter boa parte de seu texto em chinês, a obra pôde concorrer apenas como melhor filme internacional. Sequer há oportunidades para argumentar: representantes da A24, que distribuiu ambos os filmes, afirmaram à Variety que não tiveram abertura para sugerir as obras nas categorias de drama, e que a lista internacional era a única chance de garantir um mínimo de presença no evento.

Os casos levantaram acusações de hipocrisia. Não só é estranho que a HFPA - feita de jornalistas estrangeiros que vivem nos EUA - se guie por uma estrita definição anglófona, como também há exemplos que “passaram batido”. Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, tem extensas cenas em alemão e francês, mas isso não impediu que conseguisse vagas como melhor filme dramático e melhor ator coadjuvante. A ironia não passou batida, como apontou o ator Harry Shum Jr (Glee, Podres de Ricos): “Bastardos Inglórios tem quase 30m70s de cenas em alemão, francês e italiano”, apontou. “Minari é um filme norte-americano”.

No Oscar, as coisas são um pouco diferentes. Enquanto há o mesmo requerimento de que 50% do diálogo seja em outro idioma que não inglês, as obras também precisam ter sido produzidas fora dos Estados Unidos para se qualificarem. Além disso, obras internacionais também podem disputar as demais categorias desde que tenham sido lançadas legendadas em cinemas norte-americanos, como foi o caso de Parasita no ano passado, que concorreu em filme internacional e melhor filme sem grandes problemas - e ainda venceu em ambas.

Isso abre espaço para que longas do mundo todo tenham duas chances na grande noite do cinema hollywoodiano: uma com apoio de seus respectivos governos nacionais, e outra pela distribuidora norte-americana. Por exemplo, Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, está qualificado para todas as categorias do Oscar 2021, por ter chegado aos EUA em 2020 pelas mãos da Kino Lorber. Agora, se o Globo de Ouro fosse brasileiro, a discussão seria se o filme é ou não nacional por conta de seus vários trechos em inglês.

O prestígio

A outra parte do problema está em como o prêmio de filme em língua estrangeira é percebido. Obras norte-americanas têm duas categorias grandes para competir, divididas entre melhor drama e melhor comédia/musical. Além disso, o elenco também é contemplado com estatuetas de melhor ator/atriz principal, e melhor ator/atriz coadjuvante. Se a produção foi realizada em inglês, há chances de voltar para casa com três troféus. Se foi realizada em outro idioma, não importa o gênero ou a qualidade, será preciso brigar pelo único espaço de melhor filme em língua estrangeira.

A própria ordem da entrega dos prêmios ajuda a criar uma noção de importância para tudo. Há construção de clima até chegar às categorias de melhor drama e comédia/musical, consideradas os grandes triunfos da noite do Globo de Ouro (assim como no Oscar, que encerra a cerimônia com o melhor filme). O troféu para as obras de língua estrangeira, por sua vez, é entregue bem cedo, o que ajuda a reforçar a noção de que não tem tanto peso assim.

Quando tudo se combina, a situação fica bem feia para o Globo de Ouro. A decisão foi amplamente questionada nas redes sociais. Personalidades como Lulu Wang (que passou pelo mesmo com A Despedida), Celeste Ng (Pequenos Incêndios por Toda Parte), Phillipa Soo (Hamilton) e muitos outros levantaram suas vozes para pedir que a HFPA mudasse as regras, e desse menos atenção para o idioma falado nas obras produzidas nos Estados Unidos.

A organização não voltou atrás, e Minari se mantém relegado aos nomes estrangeiros em vez de ter a oportunidade de roubar a cena. Com a cerimônia prestes a acontecer, é bem provável que se concretizem as palavras de Phil Lord, produtor de Homem-Aranha no Aranhaverso: “Os cineastas irão boicotar [a HFPA]. Isso será citado em todos os discursos, todas as entrevistas. É uma decisão burra”.

O Globo de Ouro 2021 acontece no domingo, 28 de fevereiro, com transmissão na TV brasileira pela TNT. O pré-show será exibido direto no Twitter oficial da premiação.

Acompanhe tudo sobre o Globo de Ouro no Omelete, com cobertura ao vivo no site e nas nossas redes sociais e live nos canais do Omelete no YouTube e na Twitch. A transmissão começa às 21h com um esquenta para a premiação, que inicia às 22h, e será apresentada por Marcelo Forlani e Carol Costa, com participações de Arthur Eloi e Marcelo Hessel.

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