Review | Virtue and a Sledgehammer tem ótimas ideias, mas derrapa um pouco na execução
Jogo da Deconstructeam tem uma excelente premissa, mas não consegue ir além do conceito inicial
Créditos da imagem: Devolver Digital
Já falei um pouco sobre Virtue and a Sledgehammer durante nosso preview e como gostei bastante da premissa do jogo. Em um mundo em que Pratelle e sua irmã Nina acabam criando uma tecnologia para substituir o corpo humano, o que realmente é essencial além da carne?
Em uma premissa de tentar entender o que nos faz humanos e navegar a nova realidade da inteligência artificial, o jogo da Deconstructeam e Selkie Harbour traz um caminhão de emoções, mas acaba não entrando completamente de cabeça nelas.
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Na trama do jogo, comandamos Pratelle, uma jovem cientista que, ao lado de sua irmã Nina, cria uma nova tecnologia que permite aos humanos transportarem suas memórias e uma suposta consciência para um robô. Contudo, as coisas mudam de figura quando Nina acaba abusando demais da tecnologia, e Pratelle sente a necessidade de parar a irmã.
Com isso, Pratelle volta para Virtu, sua cidade natal, e descobre que todos os moradores foram transformados em robôs. E é aqui que gira a premissa do jogo: essas pessoas são humanas? O que nos faz enxergar um humano? São nossas lembranças? Nossos sentimentos? Tocar na pessoa que amamos? Ou é um conjunto de tudo isso?
Tomada pela fúria de ver que sua criação foi longe demais, Pratelle pega uma marreta para ir atrás de sua irmã, enquanto destrói a cidade para dar um descanso aos moradores. Entretanto, será que eles não estão contentes com a possibilidade de viver para sempre, mesmo que não sejam mais humanos?
Com uma premissa excelente, Virtue and a Sledgehammer é um walking simulator que permite utilizar a marreta para destruir o cenário, derrotar os robôs e relembrar o passado das irmãs e da mãe. Contudo, aqui é onde a experiência se torna um pouco repetitiva, mesmo em um período curto de jogabilidade.
Podendo ser zerada em até 5 horas, Virtue and a Sledgehammer é uma aventura curtinha, com uma ótima ideia e bastante coração. Entretanto, em alguns momentos, as partes contemplativas, graças ao visual destruído da cidade, podem se tornar meio repetitivas. A direção de arte do jogo não é um problema, muito pelo contrário, é bastante interessante e tem um carinho artístico incrível.
Contudo, quando não existe uma variação na forma como você pode lidar com as ameaças durante a jogabilidade, pode acabar ficando tedioso bater nos robôs da mesma forma por 5 horas seguidas. Nisso, a história de Virtue and a Sledgehammer compensa demais a falta de ritmo com uma aventura densa, pesada e bem visceral.
Como as pessoas da cidade se tornaram cascas de si mesmas, Pratelle deve sentir remorso por destruir os robôs? Eles ainda são humanos? O que diferencia essas versões robóticas das versões que ela conhecia? Tudo isso poderia ser explorado cada vez mais a fundo, mas o jogo foca mais em te fazer sair andando e destruindo e tentando pescar as coisas por meio das falas dos moradores.
Algumas vezes, essa premissa funciona. Mas a falta de diálogo de Pratelle fora das cutscenes faz com que a jornada seja muito solitária, e não em um bom sentido. Mesmo que a personagem esteja tomada de fúria, ela tem o direito de pensar e sentir sobre a situação mesmo fora dos momentos da história.
Enquanto explora a cidade, Pratelle consegue destruir fragmentos que contam a história do que aconteceu antes do retorno da protagonista à cidade. É nesses momentos que vemos um pouco mais das motivações de Nina, a grande culpada por tudo o que está acontecendo, e como chegamos até ali. Tudo desta parte é excelente, mas parece que falta um "algo a mais" fora desses momentos.
Entendo que a experiência seja para ser algo mais contemplativo no meio da destruição, mas pequenos momentos de reflexão da protagonista, fora dos fragmentos da história, ajudariam demais a aprofundar a trama e também a dar mais vida a uma personagem de visual tão interessante.
A principal premissa do jogo está em passear pelos locais que fazem parte da infância e da adolescência da protagonista, lidando com vizinhos preconceituosos, pessoas que eram próximas, membros daquela comunidade que ela conheceu ao longo dos anos. Tudo o que ela conhece e tem que destruir está ali. Podem não ser mais humanos, mas continuam carregando a personalidade daquelas pessoas, que podem muitas vezes não ser tão amigáveis.
Preconceitos, seja pela descendência da personagem, seja por sua opção sexual, tudo o que existe de diferente e faz com que Pratella seja quem é, é colocado em xeque pelas máquinas. Por mais que elas não sejam mais humanas, elas continuam julgando. Talvez muito por isso, em um misto de rancor por aquelas pessoas e o seu anseio moral de parar o que está acontecendo, Pratelle se sente compelida a dar um descanso para eles.
Destruir os robôs não exige muito do jogador. Muitos deles morrem com um ataque; outros chegam a ser mais resistentes, por serem mais complexos, mas também podem ser derrotados com facilidade após entender como eles funcionam. Por isso, por mais que a premissa de sair destruindo tudo seja interessante, uma variedade maior do que fazer nesses momentos teria sido essencial para tornar a experiência menos protocolar.
O coração de Virtue and a Sledgehammer está em sua história, e talvez por isso a equipe do jogo publicado pela Devolver Digital não quis se debruçar tanto sobre como o jogador poderia destruir os robôs, e sim somente no ato de destruir. Ainda assim, mesmo que curta, a experiência pode se tornar um pouco repetitiva, já que não existe um sentimento de progressão além da mudança de cenário e do avançar da história.
Acredite, não estou querendo que o jogo seja um hack and slash à la Devil May Cry ou algo do tipo, mas fica aquele sentimento de estar faltando algo para dar mais uma descarga de adrenalina e completar a sensação de estar destruindo aquilo tudo, e vir uma "recompensa", mesmo que às custas de destruir a lembrança das pessoas.
Virtue and a Sledgehammer permite que você explore a cidade do seu jeito e resolva os desafios para avançar a história no seu tempo e da forma que quiser. A força do jogo está nos sentimentos de Pratelle quanto à sua criação, enquanto busca encontrar sua irmã para dar um fim nisso tudo.
Enquanto Pratelle quer sentir tudo, ter uma vida em que ela consegue sentir dor, medo, tristeza, raiva e tudo mais, Nina não quer mais sentir nada e tenta curar a sua própria dor, impedindo-se de sentir. Com sentimentos tão antagônicos, a forma como as duas encaram a vida é conflitante e é a força motriz da aventura do título.
Virtue and a Sledghammer é uma aventura curtinha, que conta com uma mensagem poderosíssima por trás dos "10 kilos de mídia física" que a personagem segura com sua marreta, mas pode ser difícil de rejogar a história para fazer a aventura de forma diferente, pelo fato do título ter um loop de jogabilidade pouco convidativo.
Virtue and a Sledgehammer chega nesta terça-feira (27) para o PC.
Virtue and a Sledgehammer
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