A maior vitória de Marathon é fora dos servidores
Game da Bungie conseguiu vencer narrativas, algo que já deve ser celebrado
É impossível analisar um produto artístico sem o contexto em que ele foi criado. Uma ideia não surge do nada: ela é construída, inconscientemente, pelo ambiente ao redor de seu criador. Notas, resumos, sinopses e afins mastigam essa forma abstrata em algo mais palatável para o público — e no caso de videogames, a composição intrinsecamente multimídia facilita demais essa simplificação. Ainda assim, todos os jogos têm uma narrativa externa essencial para serem totalmente compreendidos, e Marathon é um exemplo gigantesco desse fenômeno.
Jogos como serviço, no geral, são vítimas da narrativa mais do que quaisquer outros. O desânimo de um público extremamente vocal com esse formato domina as discussões antes mesmo do lançamento, e mesmo produtos que passam longe de serem horrendos ficam à deriva em poucas semanas. O título da Bungie, de alguma forma, conseguiu vencer essa maré de questionamentos e se transformar em algo, ao menos até agora, no mínimo interessante.
Anunciado em 2023, o título ressuscitava uma franquia levemente esquecida dos anos 90, lembrada por carinho pelos raríssimos usuários de Macintosh da época. Seus primeiros trailers, entretanto, não deixavam nem um pouco claro do que o jogo se tratava, e apesar da estética marcante, havia muito mais dúvidas do que certezas a seu respeito.
Nos três anos até a concretização do projeto, a Bungie passou por crises internas e externas: Destiny 2 tropeçou muito até chegar na elogiada Forma Final, que encerrava a história do jogo após dez anos; no lado business, demissões em massa e um aparente desrespeito com funcionários ganharam evidência. Tudo isso enquanto ninguém sabia direito o que era Marathon — talvez nem mesmo o estúdio.
Esses indícios eram suficientes para declarar o game como natimorto meses antes de seu lançamento. Vencer a narrativa de jogo como serviço fracassado é algo que praticamente não aconteceu nos últimos anos, e que parece impossível tendo em vista a normalização de fechamentos de estúdios e servidores de 2023 pra cá. Um caso escancarado de plágio, aliás, não ajudou nem um pouco na visão pública sobre a desenvolvedora.
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Foi no texto, não na gameplay, que o discurso começou a mudar. No fim de 2025 e nas semanas de 2026 que antecederam a chegada de Marathon, testes fechados e trailers começaram a desenhar com mais clareza o que estava sendo criado.
Pela sorte de conseguir encaixar a gameplay no gênero, ou pela genialidade de prever um formato que passou a ser adorado, Marathon se estabeleceu como um shooter de extração — tipo de game que requer um ou dois parágrafos só para se entender a premissa, e que definitivamente pede muito tempo de seus jogadores.
Caso você ainda não saiba, jogos como Arc Raiders, Escape from Tarkov e afins se resumem em dois momentos bastante delineados. O primeiro é a preparação: armas, itens de cura, escudos e até munição precisam ser selecionados antes de partir para a ação. Uma vez que seus equipamentos foram selecionados, é hora de entrar em um mapa impiedoso, onde inimigos estão prontos para te eliminar, e outros jogadores podem ser tanto aliados quanto adversários.
Essa selvageria traz consigo alguns riscos. O inventário é totalmente perdido em caso de morte, adicionando tensão constante e uma boa dose de gerenciamento de riscos.
Em Marathon, ironicamente, a própria Bungie arriscou ao elevar a hostilidade ao máximo. Os inimigos têm uma das melhores inteligências artificiais na história dos shooters, e o confronto com outros Corredores (o nome dado aos avatares dos jogadores) é incentivado — tanto por missões, quanto pelo fato do combate entre esquadrões ser extremamente divertido.
Até existe alguma facilidade em se entender o funcionamento das missões e do progresso, mas Marathon é, em sua essência, feito para quem quer se afundar naquele universo.
Convencer qualquer um a escolher seu game para se dedicar quase integralmente é, ao mesmo tempo, ousadia demais para uma indústria de fracassos, e essencial para que um game de grande escopo sobreviva num mercado saturado.
Felizmente para nós, e também para a Bungie, esse é um dos poucos estúdios que sustentam esse fardo. Para os entusiastas da mecânica e da apertação de botões, há classes com alto nível de customização e habilidades que dão asas à criatividade. Aos que estão ali pela ambientação, nada como uma lore profunda e complexa, que já inspirou alguns vídeos extremamente longos pelo YouTube.
Os dois elementos não são nem um pouco estranhos para quem já jogou cinco minutos de Destiny, mas ganham cores, sons e sabores novos em outro cenário espacial, com uma estética que definitivamente vai influenciar a indústria do entretenimento — não só dos games — por um bom tempo.
Marathon é difícil. É fruto de um processo truncado, que rendeu decisões injustificáveis e que só são coerentes com a torrente de más notícias da indústria. É punitivo e complexo de se jogar. Mas é consciente de todos esses defeitos e sincero sobre eles em suas facções e diálogos. Que bom que esse jogo existe, e tomara que continue existindo.
Marathon
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