ChromaGun 2 é extremamente criativo, mas com entraves básicos
Jogo transcende inspirações em Portal com ótimo design de fases, mas peca na parte técnica
Uma das partes mais legais de eventos como o Summer Game Fest é descobrir jogos que não terão uma grande divulgação, mas guardam muito potencial em propostas ousadas. ChromaGun 2: Dye Hard foi um desses títulos para mim em 2025: com inspirações claríssimas em Portal, o game trazia puzzles que eram resolvidos usando uma arma capaz de pintar objetos.
A ideia, claro, começa simples — e com uma cor só. O protagonista, que não gosta muito de comunicação verbal, inicia sua trajetória de “testes de laboratório” somente com a cor amarela, e é nessa simplicidade que o conceito básico de ChromaGun 2 é apresentado: objetos com a mesma cor se atraem.
Droides esféricos e caixas costumam ser os itens necessários para resolver a infinidade de quebra-cabeças da campanha, que já deixa claro desde seu princípio que não é necessário usar agilidade ou reflexos para resolver nada. Quase tudo é sobre posicionar as peças no lugar certo para enfim abrir uma porta.
Parece fácil, mas há bastante espaço para crescer. O primeiro salto é quando a arma com três cores é enfim desbloqueada, permitindo não só pintar objetos de azul, amarelo e vermelho — mas também misturar as cores para formar roxo, laranja e verde. É louvável que usando apenas seis cores o game proponha fases tão criativas, que fazem o jogador gastar um bom tempo tentando entender o que está fazendo de errado.
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Claro, muito da complexidade é viabilizada por robôs que te perseguem, botões cada vez mais distantes do mecanismo que é ativado por eles, e cenários intencionalmente confusos. Tudo isso é feito, em boa parte do tempo, sem deixar de lado aquele estalo satisfatório ao encontrar uma solução.
O sentimento gostoso é endossado pela narrativa surpreendentemente ambiciosa: não há uma pretensão em criar personagens profundos ou causar momentos de introspecção, mas existe um comprometimento muito firme com a ideia de aventura interdimensional que o jogo quer emplacar. O multiverso é a ruína de várias obras, mas em ChromaGun 2 ele é uma ótima ferramenta para gerar momentos cada vez mais bizarros enquanto introduz visuais impressionantes a cada fase.
A ousadia aparece também nos elementos e mecânicas que são pincelados. Respeitando sua essência de quebra-cabeça, o jogo não quer reinventar a roda ao inserir cada vez mais possibilidades; a rota escolhida é mais inteligente, usando alguns elementos diferenciados, como momentos mais focados em plataforma e outros que apela para a memória do jogador, em uma ou duas fases — o suficiente para sabermos que a ideia é ótima, mas sem sobrecarregar seu cérebro com um turbilhão de informações.
Ironicamente, para um game que inova o tempo todo, sua parte técnica parece estagnada em gerações anteriores. O registro de progresso entre quebra-cabeças é frustrante: não há a opção de salvamento manual, e os checkpoints são bem distantes uns dos outros. Caso esteja preso em um puzzle e queira desligar o console para espairecer, é provável que você seja jogado algumas telas para trás.
A quantidade de telas de carregamento é injustificável. Elas aparecem em corredores que ligam uma fase à outra, e ao fim do loading o protagonista permanece no mesmo corredor. Esperar alguns segundos para voltar a jogar ainda é comum mesmo em jogos de grande orçamento, mas normalmente isso vem acompanhado de uma mudança brusca no cenário, ou no mínimo é disfarçado com animações.
Fechando uma trinca desagradável de problemas técnicos, enfrentei no mínimo duas fases em que o jogo claramente não queria que eu avançasse. Alguns bugs frustraram meu progresso mais de uma vez, e tive de entender em um nível técnico superficial o que estava causando o entrave para improvisar uma solução — não à toa, até os créditos finais subirem, o troféu de finalizar a campanha no PlayStation 5 tinha sido conquistado por 0,0% dos jogadores.
ChromaGun 2 causou alguns momentos severos de estresse por aqui. Alguns pelos problemas citados, e outros pela minha incapacidade de enxergar uma resolução que seria simples caso estivesse descansado. Felizmente, a reta final da campanha veio em um momento de mente mais limpa, permitindo que sua excelência fosse devidamente apreciada.
O desgraçamento cerebral não apaga a ótima vibe de humor ácido e distopia tecnológica que nos lembra de Portal e Stanley Parable, e muito menos a criatividade mostrada fase após fase que reforça a identidade própria do game. Com um pouco mais de polimento, a experiência teria sido menos frustrante e ainda mais memorável.
ChromaGun 2: Dye Hard
ChromaGun 2: Dye Hard