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Crítica

Crisol: Theater of Idols é um horror de tão tedioso

Publicado pela Blumhouse, o game mostra um desconhecimento do que torna suas referências tão incríveis

Omelete
5 min de leitura
FC
10.02.2026, às 14H00.

A premissa de Crisol: Theater of Idols evidencia o objetivo da Vermila Studios em discutir um problema histórico de seu país natal: o sangue derramado pela devoção ao cristianismo na Espanha. Durante quatro séculos, a Inquisição Espanhola foi responsável pela tortura e morte de milhares de pessoas acusadas de heresia, que não seguiam a fé cristã. Isso com a pretensão consolidar o poder da monarquia e solidificar o catolicismo como religião oficial da nação. Esse período histórico é visto como uma ferida aberta pouco discutida pelos espanhóis, assim como é a escravidão para os brasileiros.

Crisol Key Art 2

Crisol: Theather of Idols
Divulgação / Blumhouse Games

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A apresentação desse debate fica escancarada desde os primeiros minutos de gameplay. A premissa é que o deus Sol envia o capitão Gabriel Escudero para a ilha de Tormenta, onde ele deve matar o deus herege lá cultuado. Na tradição judaico-cristã, arcanjos são descritos como generais de exércitos celestiais, enquanto Gabriel é conhecido como o principal mensageiro de Deus.

Fé cega e autoflagelação religiosa também são temas centrais da trama, com esta última tendo até uma função ludonarrativa. Logo no começo de sua missão, o protagonista é atacado por uma estátua viva que quase lhe mata. Para poder prosseguir a peregrinação, o Sol lhe concede a habilidade de usar seu próprio sangue para recarregar suas armas, furando a pele e drenando a barra de vida. Essa mecânica é um dos chamarizes do título, já que, em teoria, obriga o jogador a administrar constantemente seu HP e faz com que cada bala tenha grande importância. Já na prática, o que vi foi um gigante desperdício de boas ideias.

Crisol: Theater of Idols entra para a lista de jogos que não faz ideia do que torna suas referências tão especiais. Mesmo se inspirando em games como BioShock e Resident Evil Village, ele falha em entregar todos os aspectos que trariam comparações positivas aos mesmos e o resultado é experiência repetitiva, entediante, pouco polida e nem um pouco assustadora.

Crisol inimigos

Crisol: Theather of Idols
Divulgação / Blumhouse Games

As estátuas vivas, principais inimigos que enfrentamos durante toda a aventura, deixam de ser inimigos perigosos e assustadores para simples obstáculos inoportunos logo na primeira hora de jogatina. As aparições são sempre previsíveis e pouco impactantes, a movimentação desequilibrada mostra padrões de fácil identificação e todos os embates são resolvidos com tremenda facilidade, anulando qualquer frio na espinha que um game de horror normalmente se propõe a gerar.

O mesmo pode ser dito das perseguições de Dolores, uma espécie de “Nemesis” que procura por Gabriel em segmentos específicos. Além de ter uma inteligência artificial irrisória, se guiando apenas pelo som e desistindo precocemente de caçadas, ainda é uma vítima do level design. Ao invés de criar um mapa labiríntico, interconectado e claustrofóbico, o que normalmente gera grande tensão por não saber de onde o inimigo virá, os cenários simples, lineares e lotados de esconderijos. Quando Dolores aparecia, o pensamento não era “preciso fugir”, mas “de novo esse bicho insuportável?”

Dolores Crisol

Crisol: Theather of Idols
Divulgação / Blumhouse Games

O level design também se mostra extremamente falho durante o resto do jogo, ao intercalar os momentos de combate com longos momentos de caminhada e exploração pouquíssimo recompensadora. Posso afirmar categoricamente que passei mais tempo andando por corredores vazios do que realizando qualquer outra ação.

Sobre a recompensa, me impressiona como Crisol consegue aniquilar sua principal feature com tamanha maestria. Como citado anteriormente, carregar suas armas drena a barra de vida e isso sempre foi seu maior destaque. Acontece que em momento algum das minhas 12 horas de gameplay precisei administrar minha vida, pois constantemente eu recebia recursos para recuperar HP, que deveriam ser escassos. Seringas e cadáveres para absorver podem ser encontrados com tamanha facilidade que não há impacto nenhum errar meia dúzia de tiros durante confrontos, é só recarregar e tentar de novo.

A soma destas questões gera tanto desinteresse que a trama, que possuía grande potencial, perca seu impacto. Mesmo trazendo questionamentos e reflexões interessantes, não é forte o bastante para suportar a jogabilidade incompetente e massante. Junto a isso, as atuações exageradas, personagens caricatos e diálogos bastante expositivos mostram não haver perdão suficiente para salvar a alma de Crisol: Theater of Idols.

Crisol arma

Crisol: Theather of Idols
Divulgação / Blumhouse Games

Como se não bastasse todas as questões expostas até aqui, ainda há um caminhão de bugs que enfrentei durante minha tediosa jornada. Muitos foram pequenos, como inimigos voltando ao ponto inicial de spawn assim que eu atravessava uma porta; a loja permitindo eu comprar melhorias para as armas mesmo sem ter dinheiro suficiente e paredes invisíveis surgindo em corredores que eu havia acabado de passar. Porém, um deles me tomou tempo e me gerou revolta.

Em certo momento do Capítulo 1, entramos em um convento e devemos associar quartos a freiras para abrir uma porta e avançar. Após ler algumas notas e investigar os dormitórios, cheguei a uma resposta. Entretanto, a porta em específico não destrancava. Tentei mais uma vez, o resultado foi o mesmo. Puxei um caderninho e recomecei a investigar, anotando tudo o que eu podia para entender onde estava errando e, para minha surpresa, cheguei à mesma resposta. Apenas ao fechar e reabrir o jogo que a mesma solução que eu estava tentando há 30 minutos finalmente funcionou.

Sou sincero ao dizer que fico triste que essa é a realidade de Crisol. Jogos AA foram o destaque da indústria dos games no ano passado e o público ficou bem empolgado com a entrada da Blumhouse nesse mercado. Entretanto, a Vermila Studios não conseguiu entregar um resultado satisfatório em seu título de estreia. Não duvido que, daqui a uns anos, o game seja chamado de “joia perdida” em algum vídeo do YouTube, ou ganhe o status de cult em postagens do Reddit, já que outras obras pavorosas, como The Medium, conseguiram, mas eu ainda assim ficaria surpreso. Oficialmente, Crisol: Theater of Idols é uma das primeiras grandes decepções de 2026.

Nota do Crítico

Crisol: Theater of Idols

Crisol: Theater of Idols

10.02.2026
Horror, Ação
Desenvolvedora: Vermila Studios
Publicadora: Blumhouse Games
Plataformas: PC , PlayStation 5 , Xbox Series X|S
Testado em: PC

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