Kleber Mendonça Filho no Festival de Cannes 2021 (Valery HACHE / AFP)

Créditos da imagem: Kleber Mendonça Filho no Festival de Cannes 2021 (Valery HACHE / AFP)

Filmes

Entrevista

Kleber Mendonça: Gringos querem “entender o Brasil” através do nosso cinema

“O problema é que não faço meus filmes tentando explicar o Brasil”, brinca o diretor

Omelete
3 min de leitura
25.08.2023, às 06H00

É muito fácil tentar entender o apelo de um filme depois que ele está pronto. Quando você está fazendo, não tem como ter a menor ideia disso”. Quem fala é Kleber Mendonça Filho, cineasta recifense cujos filmes, incluindo Aquarius, Bacurau e o novo Retratos Fantasmas, têm se tornado habitués dos festivais europeus e premiações estadunidenses.

Retratos, como aponta Mendonça ao Omelete, começa em um apartamento de três quartos e termina nas ruas do centro de Recife… não é uma história nada internacional”. No entanto, o documentário já passou pelos festivais de Cannes e Munique, tem estreia marcada no festival de Nova York, foi exibido em três sessões de gala lotadas em Portugal, e já está em plena campanha de pré-indicação para o Oscar da categoria.

Acho que ele fala de algumas coisas universais, sim. Centro de cidade, por exemplo. As grandes cidades têm um certo modus operandi que é similar no mundo todo, reflete o cineasta. “E é claro que no mundo todo as pessoas têm relações com o cinema, com o lado industrial do cinema e também com o lado artístico, que são ecoadas no filme. Cinemas como máquinas de distribuição, de fazer dinheiro... eu digo no filme que você se apaixona pelo cinema, mas está se apaixonando por um produto, e isso é complicado, porque ele não te ama de volta.

Mendonça garante, no entanto, que não fez o filme pensando no público internacional: “Seja lá que apelo que Retratos Fantasmas possa ter fora do Recife e do Brasil, talvez tenha a ver com o meu talento específico de fazer filmes. Eu poderia ter um talento que não viajasse, e isso não tiraria o valor dos meus filmes, mas tenho muita sorte de fazer coisas que têm essa ressonância internacional.

Curiosidade e medo

Viajando pelo mundo com suas criações, inclusive, o diretor nota um enorme interesse do público estrangeiro pelo cinema nacional. “Cidade de Deus ainda é uma presença muito forte, claro, que reverbera na mente dessas pessoas como exemplo importante do cinema brasileiro”, comenta. “Mas o fato é que sempre existe muita curiosidade em torno dos nossos filmes, e acho que parte disso é uma ânsia de entender esse país.

Esse é um país que elege um metalúrgico que se transforma em um nome muito importante da política internacional, logo depois elege um jumento que é uma vergonha mundial, e por fim traz de volta o metalúrgico!”, brinca Mendonça. “É um país que eles tentam entender, e os americanos principalmente têm muito medo que sejamos uma cópia deles próprios, com a coisa do Donald Trump.

O que eu tô dizendo é que eles olham para os nossos filmes procurando respostas, e muitas vezes os filmes não são feitos para dar resposta nenhuma. E os meus entram nisso”, completa ele. “Eles analisam o que eu faço para tentar entender o Brasil, muito embora eu não faça nenhum filme para tentar explicar o Brasil. Quem sabe eu dê algumas chaves, meio sem querer.

Retratos Fantasmas já está em cartaz nos cinemas nacionais.

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